
Ouça este conteúdo
Há 30 anos, eu afirmei, nas páginas dos jornais, que o ensino de engenharia civil no Brasil estava atrasado em meio século. Fui taxado, à época, de exagerado. Hoje, tenho a triste convicção de que fui, na verdade, condescendente. O que eu descrevi como acomodação pedagógica transformou-se, sob o peso de diretrizes governamentais equivocadas, em um colapso prático que já se paga com fissuras, recalques e responsabilidades técnicas mal assumidas. O que vejo hoje em canteiros, salas de aula e bancas de TCC é que a distância entre o que se ensina e o que se constrói só aumentou.
A raiz do problema, a meu ver, tem duas frentes que se reforçam mutuamente.
A primeira é curricular. Nas últimas décadas, políticas educacionais reduziram progressivamente a carga horária mínima dos cursos de engenharia. Disciplinas que sustentam a responsabilidade civil do profissional, como cálculo aplicado, mecânica dos solos, patologia das estruturas, vivência de canteiro, foram encolhidas para caber em grades cada vez mais enxutas. Eu diria que se ensina um resumo apressado da engenharia.
A segunda frente é a da seleção docente. O MEC passou a exigir, de forma quase religiosa, titulação de mestrado e doutorado em regime de dedicação integral, e isso, tomado isoladamente, não seria um problema. O problema é que essa exigência varreu para fora da sala de aula a experiência prática de mercado. Criou-se o que eu chamo, há anos, de "professor de livro": um profissional competente na produção de artigos, mas que raramente assinou uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), geriu o risco de uma contenção sob chuva ou tomou uma decisão de obra sob pressão de prazo e de vidas humanas em jogo.
Eu me pergunto como um professor que só conhece a engenharia nas páginas dos livros pode preparar um aluno para a imprevisibilidade de uma obra real. Não pode! É simplesmente impossível.
Assumiu-se o risco de gerar profissionais para um mundo que só existe no conforto teórico e que serão despachados para o concreto sem referência do mundo prático
Defendo há tempos que a solução passa pela metodologia de estudo de casos como espinha dorsal do ensino de engenharia. O futuro profissional precisa ser posto, ainda em formação, diante de patologias reais, de surpresas geotécnicas documentadas, de decisões tomadas sob incerteza e sob prazo. Precisa errar em sala de aula, com um professor experiente ao lado, para não errar sozinho na obra.
E aqui está o ponto que considero decisivo: essa metodologia só funciona se conduzida por quem tem bagagem de canteiro. Um case mal contado por quem não vivencia obras vira apenas mais um exercício teórico com roupagem nova. O case exige do professor experiência real para que ele compartilhe o que os livros não contam.
Adotar essa mudança exige repensar a seleção docente para valorizar, junto à titulação acadêmica, a experiência profissional comprovada; exige recompor cargas horárias que foram cortadas em nome de uma eficiência que, na prática, empobreceu a formação; e exige que as instituições de ensino aceitem que ensinar engenharia é, antes de tudo, ensinar a decidir diante do imprevisto, além de calcular o previsível.
Enquanto as universidades não resgatarem, com urgência, o valor da experiência de canteiro dentro de suas salas de aula e não adotarem o case como método central de formação, seguiremos formando profissionais tecnicamente instruídos e, ainda assim, despreparados. A conta dessa defasagem, infelizmente, quem paga não é a universidade. É quem transita e habita o que esses engenheiros constroem.
César Zanchi Daher é engenheiro civil, professor universitário, fundador e diretor-presidente da Daher Engenharia Consultiva e Tecnologia, empresa paranaense com mais de 40 anos de atuação.



