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Os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais provocaram uma onda de violência em várias universidades públicas brasileiras, sobretudo nas federais. Militantes do movimento estudantil e dirigentes sindicais (dos docentes e dos técnicos) varreram os campi com pichações, colagem de cartazes, palavras de ordem e intimidação daqueles que eles chamam de fascistas. O clima foi de desespero, de afetação de medo, de ódio pulsante e de muita mentira e difamação contra o vencedor, o candidato do Partido Liberal, Flávio Bolsonaro.
Os responsáveis pela agitação, no entanto, são parte de uma minoria barulhenta que domina as universidades federais desde a década de 70, quando os militares entregaram o ensino superior à intelectualidade da esquerda desarmada.
Em 1982, quando entrei na Universidade Federal da Paraíba, a maioria dos professores das Humanidades já era composta por comunistas de várias linhagens, muitos chegados do exílio e outros tantos que eram ligados a partidos clandestinos e ao emergente Partido dos Trabalhadores. É importante destacar que esses esquerdistas não foram contratados por concurso público, mas por desejo e indicação dos reitores e seus assessores. Na maioria dos casos, nem mesmo as fichas dos arquivos dos serviços de inteligência do regime conseguiam impedir as suas contratações.
O leitor pode estar estranhando a sugestão de que a “direita militar” possa ter entregado as nossas universidades à “esquerda comunista”. De fato, soa inverossímil, mas o que aconteceu é que segmentos do próprio regime acreditavam que o combate deveria ser direcionado apenas à esquerda armada, aquela que se espalhava pelo Brasil praticando a guerra de guerrilhas, tanto no campo quanto na cidade.
As universidades precisam promover mais liberdade e menos militância, mais pluralidade e menos ressentimento, mais respeito às pessoas e às suas escolhas, inclusive políticas, e menos intimidação autoritária travestida de virtude
A estratégia dos militares era flexibilizar o controle da esquerda desarmada e mitigar a pressão política contra o regime oriunda da sociedade civil. Essa história ainda está por ser contada pela historiografia honesta que porventura exista no nosso país.
Muita gente parece não lembrar, mas as universidades federais foram criadas pelo regime militar e, apesar dos avanços alcançados pelo sistema, o seu modelo já mostrava sinais de fadiga nos anos noventa. Entretanto, naquele período, o presidente Fernando Henrique Cardoso preferiu não mexer com o que ele chamava de “vespeiro”.
Nas duas décadas seguintes, os governos petistas não só não reformaram as federais como ampliaram o tamanho do problema, expandindo significativamente o número de vagas, através da criação de novas universidades e ampliação dos campi de várias outras. Essa expansão, porém, foi feita como tudo o que é feito pelo petismo, de forma incompetente e populista.
Assim, passados quase vinte anos, as federais continuam com dificuldades para pagar contas básicas, como água, luz e telefone; com uma estrutura administrativa ultrapassada; com uma gestão assembleísta, demagógica e paralisante; com taxas de evasão inaceitáveis; com vários cursos que formam cinco pessoas por ano; com as áreas ligadas à inovação tecnológica claramente ineficientes; e as áreas ligadas às Humanidades apenas doutrinando e imbecilizando desenfreadamente.
O fato é que, desde então, o domínio da esquerda se expandiu e transformou as nossas universidades em “territórios ocupados”, com a devida complacência de governos, imprensa e órgãos de controle. Como seus dirigentes são eleitos pelos professores, estudantes e técnicos, existe uma tolerância cúmplice com diversas irregularidades que ocorrem nos campi. Com o surgimento da internet, muitas dessas práticas já foram expostas nas redes sociais, para o espanto de largos setores da sociedade que sequer imaginavam a situação de “vale-tudo” no meio universitário público.
Se houvesse gente séria em número suficiente, a realização de mais uma eleição presidencial seria uma excelente oportunidade para rediscutir o modelo, debatendo alternativas, ajustes e reconfigurações. Mas as forças que imperam nas federais são incapazes de apresentar uma ideia que seja, a não ser reivindicação por mais dinheiro.
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Ora, mas o próprio petismo ampliou significativamente os investimentos na área da educação superior, basta comparar os orçamentos dessas federais em 2002 e em 2026. O problema não é financeiro, é o modelo que faliu há mais de duas décadas, para o qual não há dinheiro que resolva. A União já gasta mais de 60 bilhões anuais com essas instituições e mesmo essa montanha de recursos não tem sido capaz de entregar os resultados esperados pela população.
O que o plano de governo de Flávio Bolsonaro apresenta é muito pouco para iniciarmos o debate, embora sejam dois acertos: transferir a gestão das federais para o Ministério da Ciência e Tecnologia e aprofundar a relação entre ciência e inovação científica. Mas, ao contrário do que diz a desonestidade habitual da esquerda acadêmica, não há nenhuma proposta de privatização e muito menos de fechamento das universidades federais.
Em todo caso, perdemos mais uma oportunidade para abrir o debate sobre a necessária reforma universitária porque o sectarismo douto dos donos do poder nas federais preferiu fazer um trabalho sujo para a campanha do companheiro.
Portanto, da mesma forma que precisamos libertar vários territórios brasileiros dos grupos narco-terroristas, espero que o virtual presidente Flávio Bolsonaro promova uma ampla reforma no sistema federal universitário, buscando racionalizar seus custos, ampliar a qualidade do ensino e da pesquisa, blindando a universidade da ação predatória da esquerda.
As universidades precisam promover mais liberdade e menos militância, mais pluralidade e menos ressentimento, mais respeito às pessoas e às suas escolhas, inclusive políticas, e menos intimidação autoritária travestida de virtude. Assim, quem sabe, conseguiremos declarar livre o último morro da esquerda e construir um território preparado para o verdadeiro debate público.
José Rodorval Ramalho é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFS.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



