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Como as bets e os jogos digitais usam a neurociência para viciar

Ao inundar o cérebro com picos constantes de dopamina, a indústria das bets eleva o limiar do sistema de recompensa, (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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O cotidiano dos brasileiros foi inundado por uma avalanche verde e amarela de publicidade: são camisas de futebol, intervalos comerciais, redes sociais de influenciadores e campeonatos inteiros envelopados pelas plataformas de apostas online, as bets. O que nasceu sob o manto do entretenimento e da promessa de "ganho fácil" logo se transformou em uma das crises de saúde psicossocial pública mais devastadoras do país.

Diante disso, é preciso encarar uma realidade óbvia: o magnetismo avassalador que as bets exercem sobre a mente humana não é mero fruto da ganância ou da falta de controle individual, mas o resultado de um design comportamental predatório, projetado pela indústria das apostas para sequestrar nossa biologia e lucrar com as carências sociológicas da nossa época.

Para compreender a eficácia quase hipnótica desse modelo mercadológico, é preciso descer aos porões da neurociência. No cérebro existe um circuito ancestral chamado sistema de recompensa mesolímbico, responsável por reforçar comportamentos ligados à sobrevivência. O principal combustível desse sistema é a dopamina, que, ao contrário do que diz o senso comum, não é o neurotransmissor do prazer.

É urgente que a sociedade brasileira saia da letargia. Precisamos de uma regulamentação rigorosa que limite o poder predatório dessa publicidade invasiva e, sobretudo, do resgate das redes de apoio e das conexões humanas reais

O neurocientista Wolfram Schultz demonstra que a dopamina atua como um sinal de erro de predição, sendo a molécula da busca, da antecipação e do aprendizado preditivo. Ela sinaliza a possibilidade de recompensa e impulsiona a ação. Se houvesse apenas o prazer final, sem a dopamina da antecipação, nós nunca teríamos motivação para levantar do sofá.

Portanto, o grande trunfo – e a grande perversidade – das plataformas de apostas ou bets está em explorar essa característica de um cérebro que nasceu para ser um predador e um calculador de probabilidades. Ao tornar o ganho completamente imprevisível, as bets manipulam nossos circuitos biológicos, mantendo o indivíduo em um estado permanente e torturante de "quase lá".

Exames de neuroimagem revelam que, quando se aposta em um time e ele perde por um detalhe, o cérebro não processa isso como uma derrota frustrante. Pelo contrário: ativa as mesmas áreas dopaminérgicas de uma vitória, gerando um impulso biológico quase irresistível para apertar o botão e jogar novamente.

Psicologicamente, as bets também exploram a ilusão de controle. Diferentemente de uma loteria tradicional, na qual apenas compramos um bilhete passivo, as casas de apostas oferecem dados, estatísticas, históricos de confrontos etc. Isso cria no apostador a falsa percepção de que sua "análise técnica" ou seu "conhecimento sobre futebol" estão determinando o resultado. Confunde-se sorte com habilidade.

Essa hiperestimulação artificial cobra um preço caríssimo. Ao inundar o cérebro com picos constantes de dopamina, a indústria das bets eleva o limiar do sistema de recompensa. O resultado é o comprometimento da capacidade de sentir satisfação: as ações comuns do cotidiano perdem a cor, dando lugar a um sentimento crescente de vazio e a um tédio crônico. Cria-se, assim, uma engrenagem perfeita de dependência. O indivíduo passa a necessitar da superexcitação digital das apostas para fugir da própria apatia que o jogo causou.

Estamos diante de uma engenharia de consumo altamente sofisticada que mercantiliza a angústia existencial do sujeito contemporâneo, transformando o tédio e o desespero financeiro em lucro corporativo.

É urgente que a sociedade brasileira saia da letargia. Precisamos de uma regulamentação rigorosa que limite o poder predatório dessa publicidade invasiva das bets e, sobretudo, do resgate das redes de apoio e das conexões humanas reais. Só assim seremos capazes de preencher, de forma saudável, o vazio que as telas tentam, de maneira trágica, anestesiar.

Marco Aurelio Alvarenga Monteiro é graduado em Física, mestre, doutor e livre-docente em Educação para a Ciência pela Unesp. Professor associado da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá (Unesp), atua nas áreas de ensino de Física, Robótica Educacional e tecnologias educacionais, coordenando o WEBLAB. É também autor do livro Nos Labirintos do Eu: Uma jornada para superar as dores do caos interior.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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