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Como navegar bem na era da Inteligência Artificial

Todos os dias surge uma nova IA prometendo revolucionar o mercado, otimizar processos ou redefinir a criatividade. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Vivemos em um tempo acelerado demais. Um período em que a informação se multiplica a cada segundo, as novidades se sobrepõem antes mesmo de serem compreendidas e a sensação constante é a de estar correndo atrás do que já ficou para trás. A ascensão da Inteligência Artificial amplificou esse sentimento.

Nunca experimentamos uma velocidade tão intensa. Todos os dias surge uma nova IA prometendo revolucionar o mercado, otimizar processos ou redefinir a criatividade. A cada avanço, somos empurrados para um ciclo de urgência permanente, aquele em que o que era novo ontem já parece obsoleto hoje.

A Inteligência Artificial não é um conceito novo, e sua história remonta a décadas passadas, muito antes do “boom” atual. O grande marco da popularização da IA generativa foi, de fato, o lançamento do ChatGPT ao público geral, pela OpenAI, em 30 de novembro de 2022.

Esse evento inaugurou uma nova era na interação humano-computador, permitindo que as pessoas interajam com a IA usando linguagem natural para obter respostas e conteúdos diversos de forma inovadora e acessível ao público geral.

Para lidar com essa nova era de aceleração constante, eu costumo dizer que existem três upgrades obrigatórios, aquilo que representa os 20% que realmente precisamos entender para navegar de forma consciente no universo da Inteligência Artificial. O primeiro é emocional; o segundo, técnico; e o terceiro, profundamente humano.

Chamo de upgrades porque não são apenas aprendizados técnicos, mas mudanças de mentalidade que precisamos instalar em nós mesmos antes de tentar dominar qualquer ferramenta. Juntos, eles funcionam como uma espécie de bússola, um guia para transformar o excesso de informação e velocidade em aprendizado, propósito e ação estratégica.

Saber que as IAs são treinadas com informações reais nos ajuda a entender, por exemplo, que a qualidade e a quantidade de dados utilizados no seu treinamento impactam a qualidade final do modelo

No upgrade emocional, o foco é a coragem de apertar o pause. Sim, o maior desafio hoje não está em aprender novas ferramentas, mas em ter coragem de pausar. De respirar fundo antes de reagir. De observar com calma o que realmente está por trás de cada novidade. Porque, quando nos deixamos levar pelo impulso de fazer tudo rapidamente, acabamos tomando decisões frágeis, que se mostram ineficientes no médio e longo prazo.

Um bom exemplo disso vem do relatório The GenAI Divide: State of AI in Business 2025, publicado pelo MIT, que revela que, embora a Inteligência Artificial generativa tenha grande potencial para empresas, a maioria das iniciativas para acelerar o crescimento da receita está falhando. Apenas 5% dos programas piloto de IA conseguem impulsionar rapidamente a arrecadação, enquanto 95% não apresentam impacto significativo no balanço financeiro.

Ou seja, quase todas embarcaram na onda: demitiram equipes, investiram bilhões em novas soluções e reorganizaram operações inteiras acreditando que a IA seria o atalho para o crescimento.

Esse dado é revelador e reforça a importância do equilíbrio emocional na liderança e na inovação. Antes de buscar a próxima ferramenta, é preciso compreender o porquê de usá-la e qual problema real ela resolve. A pressa, nesse novo contexto, tornou-se o maior inimigo da transformação.

Por isso, o primeiro upgrade é um convite à pausa. Antes de agir, é preciso respirar, observar e estudar. Entender de forma genuína o que está acontecendo, qual é o movimento e como ele se conecta ao nosso contexto, seja profissional ou pessoal.

Não se trata de sair correndo para “entrar em todas”, mas de se aproximar do tema de maneira organizada e estruturada, com clareza sobre onde queremos chegar e quais são as implicações de cada passo. Essa pausa estratégica é o que nos permite tomar decisões mais conscientes e evitar que a ansiedade pelo novo se transforme em precipitação.

Já o upgrade técnico foca em menos “o quê” e mais “para quê”. Para navegar nesse novo cenário, é fundamental entender os 20% que realmente importam, como contexto, e que explicam quais são e para que servem as principais IAs, direcionando o olhar para um caminho de aplicações mais práticas e relevantes.

A começar pelos LLMs (Large Language Models), os Modelos de Linguagem de Grande Escala, como o ChatGPT e o Claude. Esses sistemas são treinados com bilhões de textos e parâmetros públicos disponíveis na internet, o que os torna capazes de entender e responder em linguagem humana.

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Mas vale lembrar: a Inteligência Artificial não “pensa” nem “descobre” sozinha. Ela prevê respostas com base em padrões que aprendeu. Ou seja, o poder dela está diretamente ligado à qualidade do contexto que fornecemos.

Saber que as IAs são treinadas com informações reais nos ajuda a entender, por exemplo, que a qualidade e a quantidade de dados utilizados no seu treinamento impactam a qualidade final do modelo, ou ainda que vieses, conceitos morais de determinada sociedade ou até mesmo opiniões políticas, discriminação etc. podem estar – propositalmente ou não – presentes nessas informações de treinamento e isso afetar diretamente as futuras respostas fornecidas pelos modelos. Sem contar as questões sobre direitos autorais e propriedade intelectual; afinal, não quer dizer que o fato de uma informação ser pública (como uma foto) permita que se faça uso dela com fins econômicos sem remunerar o fotógrafo, por exemplo.

Nesse campo, é essencial distinguir os três principais tipos de tecnologia. A IA generativa é aquela que cria algo novo, como textos, imagens, códigos e sons, reorganizando referências existentes de forma coerente com o comando recebido e sendo a forma mais acessível ao público, como exemplificado pelo GPT e Gemini. Já a Inteligência Artificial de visão é treinada para interpretar imagens, vídeos ou sensores, reconhecendo tanto o que os olhos humanos veem quanto o que não vemos – como infravermelho ou calor – com precisão muito além da nossa, sendo amplamente utilizada na medicina para diagnósticos precoces. Por sua vez, a IA preditiva utiliza dados históricos e algoritmos para antecipar tendências e comportamentos, fornecendo vislumbres de futuros possíveis, com aplicações que vão desde a manutenção industrial até recomendações personalizadas em streamings como Netflix e Spotify.

Além disso, os usos das IAs se dividem em três grandes frentes: modelos generalistas, como ChatGPT ou Claude, que auxiliam em múltiplas tarefas; modelos especializados, como GitHub Copilot ou Midjourney, focados em problemas específicos com alta precisão; e agentes ou assistentes autônomos, a exemplo de n8n, Zapier e AutoGPT, que não apenas respondem, mas agem proativamente para automatizar processos, conectar sistemas e executar tarefas de ponta a ponta. Saber distinguir cada tipo e finalidade é o que separa o uso estratégico do uso superficial da Inteligência Artificial. A tecnologia, por si só, não cria vantagem competitiva; a clareza de propósito, sim.

Por fim, o upgrade da colaboração nos leva da bolha personalizada ao futuro coletivo. Este é o upgrade mais humano de todos. À medida que as inteligências artificiais se tornam mais personalizadas, elas também tendem a nos isolar. As plataformas passam a entender o que queremos, quando queremos e como queremos, criando bolhas cada vez mais precisas, porém solitárias.

Se não soubermos “furar” essas bolhas, corremos o risco de transformar a eficiência em isolamento. O futuro, no entanto, precisa ser coletivo. Treinar o músculo da colaboração é essencial porque 80% da Inteligência Artificial é contexto, e contextos ricos nascem da pluralidade de visões e experiências humanas.

Quanto mais trocamos perspectivas, mais conseguimos criar prompts bem estruturados, explorar ângulos diversos e gerar respostas realmente relevantes. Essa diversidade não só aprimora resultados, mas também reduz vieses, já que toda Inteligência Artificial é programada por humanos e, portanto, carrega as suas limitações e visões de mundo.

Colaborar, nesse sentido, é o que mantém a tecnologia humana. É o que garante que, no meio de tantas máquinas, a inovação continue sendo, acima de tudo, um ato de consciência coletiva.

Leonardo Brazão, palestrante, professor e mentor em programas de aceleração de startups, é cofundador da 1601 – Consultoria de Inovação.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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