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O comunismo nunca esteve interessado na sua fábrica: ele quer seu coração e cérebro

Os comunistas mais experientes riam baixinho de quem os imaginava interessados em fábricas, já que o alvo sempre foram os cérebros, os corações e os hábitos. E, ao que tudo indica, já os têm. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Nos manuais e na cabeça do semianalfabetismo diplomado que povoa nossas universidades, a diferença entre capitalismo e comunismo se resume a um modo de produção, ou seja, à propriedade dos meios de produção, privada de um lado e estatal do outro.

Essa definição escolar é tão confortável que até os adversários do comunismo a repetem sem perceber que recitam o catecismo do inimigo, e isso é justamente o que Gramsci chamaria, com o sorriso de quem venceu sem disparar um tiro, de hegemonia.

Acontece que a estatização total da economia jamais existiu e jamais existirá, porque é uma impossibilidade econômica pura e simples. Ludwig von Mises demonstrou isso ainda em 1920, e os comunistas, depois de umas débeis esperneadas, nunca conseguiram refutá-lo.

Ora, se o comunismo real convive tranquilamente com o capital privado, a tal propriedade coletiva dos meios de produção nunca passou de cenoura pendurada diante do burro, um pretexto hipnótico para mobilizar a militância

Por isso mesmo, em todos os regimes comunistas da história uma fatia considerável da economia permaneceu em mãos privadas. Primeiro ficou na clandestinidade, tolerada por governos que sabiam que sem ela tudo ruiria, e depois às claras, sob o nome de perestroika ou de qualquer outro eufemismo de ocasião.

Ora, se o comunismo real convive tranquilamente com o capital privado, a tal propriedade coletiva dos meios de produção nunca passou de cenoura pendurada diante do burro, um pretexto hipnótico para mobilizar a militância rumo a um paraíso adiado pelos séculos dos séculos.

Grosso modo, o que esses regimes sempre fizeram foi abrir mão da economia, que por natureza é indomável, para se concentrar naquilo que se deixa controlar com pouco esforço, isto é, partidos, imprensa, escola, religião e instituições de cultura. Dominando meia dúzia de canais, domina-se a sociedade inteira sem precisar tabelar o preço do pãozinho.

Daí que trair as promessas seja a própria condição de sobrevivência do programa, e não um desvio dele. É esse mesmo caráter escorregadio que engana o empresário, caro leitor. Como vive da economia e pensa pela economia, ele acaba comprando a tese marxista de que tudo se decide no modo de produção e conclui que, enquanto puder lucrar, o comunismo segue sendo uma ameaça vaga e distante.

Nesse meio-tempo, o Estado vai ocupando a cultura, a política e a sociedade civil, até que a única liberdade restante seja a de ganhar dinheiro. Isso vale desde que o sujeito se comporte como um bom menino e não ouse usar o dinheiro para comprar outras liberdades, porque, na primeira opinião própria, alguém lhe lembra, com toda a gentileza, que sua empresa é uma concessão provisória e revogável.

Olavo de Carvalho escreveu isso em 2014, quando quase todos ainda achavam que o perigo morava no balanço das estatais. Os comunistas mais experientes riam baixinho de quem os imaginava interessados em fábricas, já que o alvo sempre foram os cérebros, os corações e os hábitos. E, ao que tudo indica, já os têm.

Marcos Paulo Candeloro é graduado em história (USP), pós-graduado em ciências políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCar).

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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