
Ouça este conteúdo
O discurso do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique (14 de fevereiro), contrastou fortemente com o proferido um ano antes, no mesmo palco, pelo vice-presidente JD Vance, que abruptamente disse aos líderes europeus que "há um novo xerife na cidade". Em contraste, Rubio usou um tom mais ponderado para enfatizar os laços históricos e culturais que unem os Estados Unidos e a Europa.
Rubio já havia estado em Munique em diversas ocasiões, e seu conhecimento prévio deste fórum anual contribuiu para um discurso altamente elaborado e meticulosamente construído, repleto de toques narrativos que conquistaram a plateia, que o aplaudiu de pé. Contudo, não se pode afirmar com certeza que a intervenção de Rubio tenha tranquilizado os líderes europeus.
Seu discurso, caracterizado por frequentes referências à civilização e à cultura ocidentais, contrastou fortemente com o proferido no dia anterior pelo chanceler Friedrich Merz, que se concentrou nas questões de segurança e defesa normalmente abordadas em Munique.
É surpreendente que Rubio tenha mencionado Trump apenas quatro vezes. Isso levou alguns analistas a perceberem, nesse e em outros detalhes, as aspirações do secretário de Estado de ser candidato presidencial em 2028, quando termina o segundo mandato de Trump.
No entanto, é impossível prever qual candidato o atual presidente escolherá. Em teoria, JD Vance seria o mais pró-Trump, embora não se deva esquecer que a proposta de Trump de tê-lo como vice-presidente foi uma surpresa de última hora.
Marco Rubio enfatizou as virtudes da civilização e da cultura ocidentais e elogiou o legado da Europa
Em louvor ao Ocidente
Em Munique, Rubio ministrou uma aula de história, relembrando a era da Guerra Fria e como, após a queda do Muro de Berlim, a Europa Ocidental e Oriental foram reunificadas. Em seguida, exaltou as virtudes da civilização e da cultura ocidentais, da qual os Estados Unidos fazem parte. Sua defesa do legado europeu chegou ao ponto de elogiar o Estado de Direito, as universidades e a revolução científica.
Essas declarações podem parecer um tanto incomuns vindas de um membro do governo Trump, dadas as tensões internas na sociedade e na política americanas. Ainda assim, Rubio continuou a elogiar o legado cultural europeu, com referências explícitas a Mozart e Beethoven; Dante e Shakespeare; Michelangelo e Leonardo; os Beatles e os Rolling Stones.
Ele também se entregou a uma exploração estética da grandeza do passado, relembrando os afrescos da Capela Sistina e as torres da Catedral de Colônia.
Rubio demonstrou a mesma emoção ao se referir, na história americana, a figuras escocesas e irlandesas, bem como aos colonizadores alemães, franceses e espanhóis que contribuíram para o nascimento e a expansão de seu país. Por fim, reconheceu com orgulho sua herança como descendente de italianos e espanhóis que emigraram para o Novo Mundo no século XVIII.
Críticas à globalização
Contudo, essas referências elogiosas ao passado contrastam fortemente com as críticas dirigidas aos países ocidentais pelos erros cometidos no processo de globalização.
Rubio denunciou como perigosa a ilusão de que estávamos testemunhando o fim da história com o triunfo da democracia liberal e a expansão dos laços forjados pelo comércio.
Foi um erro ter esquecido os interesses nacionais e fomentado o livre comércio irrestrito, o que, entre outras consequências, levou à desindustrialização e ao controle das cadeias de suprimentos por outras potências. Na visão de Rubio, a globalização enfraqueceu a Europa. No entanto, os Estados Unidos, graças ao governo Trump, estão reagindo e abrindo caminho para que o Ocidente, e a Europa em particular, recupere sua força.
É muito provável que, neste ponto do discurso, os líderes europeus presentes não tenham percebido referências concretas à segurança e à defesa, e alguns podem até ter se perguntado o que os Estados Unidos realmente pretendem defender.
A esse respeito, Marco Rubio enfatizou que “os exércitos não lutam por abstrações, mas por um povo, uma nação e um modo de vida”. Parece que o secretário de Estado pretendia estabelecer uma ligação entre as forças armadas e a defesa da civilização ocidental.
Além disso, pode-se questionar o que o político quis dizer com abstrações, embora provavelmente tenha se referido ao oposto, ou seja, ao interesse nacional, sempre figurando em primeiro lugar entre os objetivos do governo Trump. Mas não é menos verdade que conciliar interesses nacionais opostos sempre foi complexo, algo que, mais cedo ou mais tarde, contribui para minar alianças.
Apesar de tudo, Rubio insistiu que não é objetivo nem desejo dos Estados Unidos romper o vínculo transatlântico, embora haja inúmeras manchetes sugerindo que seu fim está próximo.
Pelo contrário, afirmou que os americanos querem uma Europa mais forte, e não enfraquecida, porque dessa forma “responderemos e deteremos as forças que hoje ameaçam aniquilar a civilização, tanto na Europa quanto na América”.
Não há menção explícita dessas forças no discurso; portanto, não se pode afirmar que sejam outras potências. É muito provável que essas forças sejam ideologias ou correntes de opinião, e não tanto uma ameaça militar. Deve-se acrescentar que seriam forças que contribuem para o declínio do mundo ocidental, visto que Marco Rubio afirmou que “nós, americanos, não temos interesse em ser os guardiões polidos e ordeiros do declínio controlado do Ocidente”.
Essa percepção cultural contrasta com a da grande maioria dos países europeus, que enxergam uma ameaça militar concreta por parte da Rússia de Putin após a invasão da Ucrânia. De fato, durante a sessão de perguntas e respostas após seu discurso, o secretário de Estado afirmou simplesmente que não sabia se os russos estavam falando sério quando disseram que queriam acabar com a guerra na Ucrânia.
A reivindicação da Europa
O discurso de Marco Rubio contrastou fortemente com o do chanceler Friedrich Merz, que foi muito mais explícito em questões de segurança e defesa e representou uma reafirmação do papel da Europa, e da Alemanha em particular, na nova era das grandes potências.
Merz falou com franqueza incisiva, especialmente para enfatizar que a velha ordem mundial desapareceu: "Essa ordem, por mais imperfeita que tenha sido em seu auge, não existe mais em sua forma original".
Merz demonstrou um pragmatismo semelhante ao do primeiro-ministro canadense Mark Carney em Davos, no sentido de que a Europa deve confiar em suas próprias forças e diversificar suas parcerias com outros países. Não se trata de resignar-se à inevitabilidade dos acontecimentos, mas de contribuir para moldar a realidade.
Merz defendia a existência de um pilar europeu forte e autônomo dentro da OTAN, e que o exército alemão se tornasse o mais poderoso da Europa
No entanto, Merz rejeitou reações drásticas: "Não me convence o apelo, por vezes excessivamente instintivo, para que a Europa simplesmente abandone sua relação com os Estados Unidos".
Merz defendeu a existência de um pilar europeu forte e autônomo no seio da OTAN, bem como o objetivo de tornar o exército alemão o mais poderoso da Europa, posição que já ocupa há muito tempo. O destacamento de uma brigada alemã com cerca de 5.000 soldados para a Lituânia, no âmbito do compromisso da OTAN com os países bálticos, é digno de nota.
Em seu discurso, Merz enfatizou que as políticas de segurança e competitividade caminham juntas no mundo atual. Marco, por outro lado, referiu-se à OTAN como uma aliança historicamente bem-sucedida, mas fez apenas menções genéricas à ligação transatlântica.
Além disso, o chanceler alemão lembrou os limites do poder dos EUA quando age unilateralmente. Isso pode evocar a fracassada intervenção americana no Iraque, apesar da coalizão de países voluntários. É possível que Merz e outros líderes políticos suspeitem que o governo Trump possa um dia usar essa tática com alguns aliados europeus, mesmo que isso contribua para minar a OTAN e esvaziá-la de seu propósito.
Por outro lado, Merz salientou que a Europa deve procurar parceiros em outros países, mesmo que os valores e interesses nem sempre sejam os mesmos, mencionando especificamente o Canadá, o Japão, a Índia, o Brasil, a África do Sul e os Estados do Golfo.
Preocupação americana em relação à Alemanha
É importante notar que o discurso de Friedrich Merz provavelmente suscitará algumas preocupações sobre a Alemanha nos Estados Unidos. Um exemplo disso é o artigo "A Próxima Hegemonia da Europa", publicado na revista Foreign Affairs (março-abril de 2026), da cientista política Liana Fix.
O artigo evoca memórias da Alemanha expansionista do século XX e expressa o temor de que o partido AfD possa chegar ao poder, levando à saída da Alemanha da OTAN e da UE, e simultaneamente desencadeando um revanchismo contra seus vizinhos.
Contudo, a autora parece ignorar o fato de que o sistema eleitoral alemão não permite que nenhum partido obtenha maioria absoluta. Uma coalizão desse tipo seria necessária, mas atualmente é impensável. Mesmo assim, Fix destaca que os destinos da Alemanha e da Europa estão interligados.
Em última análise, o discurso de Merz é mais realista do que o discurso civilizacional de Rubio. Ambos concordam em não querer romper o vínculo transatlântico, embora não concordem totalmente sobre a melhor maneira de preservá-lo.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Rubio y Merz en Múnich: lecciones de civilización y realismo



