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Congressistas eleitos precisarão de coragem para discutir as regras do jogo

Eduarda Campopiano (PL-SP), Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) também mostraram seu apoio a Flávio Bolsonaro. Eles foram os candidatos mais votados do país no primeiro turno das eleições.
Eduarda Campopiano (PL-SP), Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG): os candidatos mais votados do país no primeiro turno das eleições. (Foto: Marcos Neves Jr/Divulgação/Equipe Lucas Pavanato)

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Uma onda passou pelas urnas brasileiras neste domingo. Ainda que Lula tenha sido reeleito, o avanço da direita foi evidente na composição do Congresso Nacional, na Câmara e no Senado. Mas talvez seja cedo – e simplista – interpretar o resultado apenas como uma vitória deste ou daquele partido ou candidato. Há algo acontecendo abaixo da superfície, e talvez seja justamente isso que os políticos, inclusive os vencedores, deveriam se preocupar em compreender.

Uma parcela importante da sociedade brasileira parece estar dizendo que não está satisfeita com o sistema político e institucional como ele funciona hoje. E essa insatisfação não necessariamente se resume a uma preferência ideológica. Existe uma cobrança mais ampla por representação, eficiência, transparência e, sobretudo, por instituições que façam sentido para quem está do outro lado delas. Porque trocar os jogadores não significa, necessariamente, mudar o jogo.

Há alguns anos, assistimos a uma transformação silenciosa na relação entre o cidadão e o poder. A tecnologia e, principalmente, as redes sociais democratizaram enormemente o acesso à informação. Durante muito tempo, poucas instituições faziam a intermediação entre os acontecimentos e a sociedade. O cidadão recebia a política interpretada por jornais, rádios e televisões. Esse mundo acabou.

Isso não significa que o novo seja necessariamente melhor. As redes sociais também trouxeram desinformação, superficialidade, radicalização e a curiosa sensação de que todos sabemos tudo sobre qualquer assunto. Mas trouxeram também algo que alterou profundamente a relação entre sociedade e poder: luz.

Democracias precisam de instituições fortes. Mas instituições fortes não significam pessoas intocáveis, estruturas imunes à crítica ou poderes que não possam ser questionados pela sociedade. Talvez seja esse um dos recados mais importantes que saíram das urnas

Hoje, uma fala feita em Brasília pode chegar ao celular de milhões de brasileiros poucos minutos depois. Uma votação pode ser acompanhada. Um documento público pode ser consultado. Uma contradição pode ser recuperada. Uma promessa antiga pode reaparecer quatro anos depois. Os políticos podem falar diretamente com seus eleitores. Mas seus eleitores também podem falar sobre eles, questioná-los e cobrá-los. O poder continua poderoso. O que mudou foi a possibilidade de observá-lo.

Alguns resultados eleitorais talvez sejam símbolos dessa transformação. Em Minas Gerais, Cleitinho construiu grande parte de sua comunicação pelas redes sociais e chegou ao governo no primeiro turno. Nikolas Ferreira, aos 30 anos, ultrapassou três milhões de votos para deputado federal e percorreu o país apoiando outras candidaturas. São trajetórias diferentes, mas carregam algo em comum: aprenderam a conversar diretamente com parcelas enormes da sociedade, reduzindo a dependência dos antigos intermediários da comunicação política.

Isso não significa que popularidade digital seja sinônimo de capacidade para governar. Administrar Minas Gerais é infinitamente mais complexo do que produzir um vídeo que alcance milhões de pessoas. A rede pode ajudar alguém a chegar ao poder; não administra o poder por ele.

Talvez esse seja justamente o próximo teste. Agora precisamos descobrir se aqueles que chegaram serão capazes de alterar as estruturas que criticaram ou se acabarão simplesmente aprendendo a utilizá-las. O poder, afinal, não deixou de existir. Mas ficou muito mais difícil exercê-lo no escuro.

Foi exatamente essa inquietação que nos levou, no Instituto Destino Brasil, a escrever o livro 12 NÓS. Ao longo do trabalho, identificamos alguns dos grandes nós que impedem o Brasil de avançar: educação, saúde, segurança, trabalho, infraestrutura, tributação, produção e meio ambiente, entre outros. Mas, ao chegarmos ao décimo segundo nó, percebemos que ele atravessava praticamente todos os anteriores. Chamamos de O Estado e suas instituições.

O Brasil construiu, ao longo de sua história, uma enorme estrutura de poderes, órgãos, fundos, cargos, tribunais, conselhos, partidos, empresas públicas, mecanismos orçamentários e burocracias. Grande parte dela nasceu a partir de alguma justificativa legítima e, em muitos casos, cumpre funções indispensáveis.

A pergunta que raramente fazemos é outra: aquilo que foi criado continua sendo necessário? Funciona? Quanto custa? Entrega à sociedade aquilo que deveria entregar? E, principalmente, quem controla quem exerce o poder dentro dessas estruturas? Não estamos falando em destruir instituições. É exatamente o contrário.

Democracias precisam de instituições fortes. Mas instituições fortes não significam pessoas intocáveis, estruturas imunes à crítica ou poderes que não possam ser questionados pela sociedade. Talvez seja esse um dos recados mais importantes que saíram das urnas. A sociedade não parece querer simplesmente novos ocupantes para os mesmos espaços. Quer respostas. Quer eficiência. Quer instituições que sirvam à sociedade, e não o contrário.

E essa cobrança não desaparecerá com o fim da campanha. Talvez essa seja uma das maiores mudanças produzidas pela democratização da informação: o cidadão não precisa mais esperar quatro anos para observar quem elegeu. Pode acompanhar, questionar e cobrar todos os dias. Os políticos precisam compreender essa nova realidade.

Mais do que uma disputa entre esquerda e direita, governo e oposição, situação e mudança, existe uma oportunidade para discutir o próprio funcionamento do Estado brasileiro. Fundos partidários e eleitorais, emendas parlamentares, cargos em comissão, estruturas dos poderes, burocracia, transparência, responsabilidade fiscal, competência de cada ente da Federação, mecanismos de controle e prestação de contas. Não para enfraquecer o Estado. Para fazê-lo funcionar melhor.

A sociedade mostrou que consegue mudar os jogadores. Agora precisamos descobrir se os novos jogadores terão coragem de discutir também as regras do jogo. Porque ondas eleitorais passam. As transformações que as produzem podem permanecer.

Ademar Batista Pereira é presidente do Instituto Destino Brasil.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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