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Crise dos combustíveis: qual seria o preço justo?

Num mercado livre, o preço nos revela a escassez relativa do bem ou serviço ofertado

  • Lucas G. Freire
 | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
 
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Nos últimos dias, o preço do combustível passou a ser o tema mais discutido Brasil afora. Os caminhoneiros protestam porque o alto preço do combustível diminui a sua vantagem nos negócios, o que joga um balde de água fria no seu setor de atuação. Pedem que o governo estipule um preço mais amistoso. Já a população reclama que, nos poucos lugares onde ainda se encontra gasolina, o preço do combustível é “injusto”. O tino para negócios que leva o comerciante a cobrar um preço mais alto passou a ser visto como imoral da noite para o dia. Pelos comentários na mídia e nas redes sociais, tenho visto que pouca gente entende mesmo o que é um preço e qual é o seu papel na economia. A verdade: não existe preço injusto se vendedor e comprador estão de acordo.

Esse debate, por sinal, já é bem velho. Ainda na idade média, o teólogo Henrique de Hesse, “o Velho”, (1325--1397) defendeu a ideia de que o governo deveria controlar os preços das mercadorias comuns. A razão por trás disso era que, na sua visão, cada tipo de pessoa teria um chamado divino para ocupar um lugar determinado na sociedade. Se fosse possível comprar e vender ao preço de mercado, a mobilidade social acabaria destruindo essa forma de se organizar a vida. Por isso, caberia ao governo determinar que cada vendedor cobrasse um preço pré-fixado que fosse congruente com sua posição na sociedade, e que a preservasse perpetuamente.

Defendendo outro ponto de vista, São Bernardino de Siena (1380-1444) escreveu, em seus sermões sobre o comércio, que o “preço justo” de uma mercadoria é a estimativa do quanto ele vale no mercado. O valor não seria determinado pelo status do vendedor. O preço justo deveria ser livre para flutuar por conta da oferta disponível da mercadoria. Nem mesmo o custo de produção afetaria diretamente o preço.

Não existe preço injusto se vendedor e comprador estão de acordo

Ao defenderem o controle de preços, tanto os caminhoneiros insatisfeitos com o impacto da alta do petróleo no mercado global como o consumidor que se indigna com o preço “injusto” cobrado pelo vendedor no posto de gasolina parecem adotar a posição do primeiro pensador medieval, rejeitando a opinião do segundo. No entanto, é Bernardino que enxerga melhor o papel de um preço na economia.

Preço é informação. É um sinal. Num mercado livre, o preço nos revela a escassez relativa do bem ou serviço ofertado. Ele também nos dá uma dica sobre o quanto aquele bem ou serviço é valorizado pelas pessoas que o demandam. As decisões sobre comprar e vender precisam de uma base, e é exatamente essa base de decisão que o sistema de preços nos fornece.

Esta greve é uma tentativa por parte dos caminhoneiros de se imunizarem dos efeitos do sistema de preços. A alta dos combustíveis teria um impacto no preço dos fretes. Algumas pessoas deixariam de contratar o serviço de transporte, ou arranjariam uma alternativa. Alguns caminhoneiros teriam de deixar esse setor de atividade por não conseguirem lidar eficientemente com a nova realidade. O poder dos caminhoneiros existe por conta de decisões que foram tomadas no passado remoto e que agora tornam outros meios de transporte de cargas, como as ferrovias, menos viáveis. Isso pode mudar. Mas, por ora, os caminhoneiros seguem pela via fácil da interferência no sistema de preços, usando o poder de barganha que têm.

Leia também: O que a greve dos caminhoneiros ensina sobre a infraestrutura do país (artigo de Bernardo Guimarães e Heloísa Caggiano, publicado em 28 de maio de 2018)

Opinião da Gazeta: O tamanho dos custos (editorial de 30 de maio de 2018)

O consumidor de gasolina que se depara com um posto indisponível, sem combustível, deve saber que o produto acabou não somente por causa de falta de suprimento, mas também porque aquele posto estimou mal a escassez relativa da gasolina, cobrando um preço mais baixo. O comerciante que cobrou dez reais por litro (ou mais) enxergou melhor o aumento da demanda pelo combustível em relação à oferta. Não chego a dizer que ele deveria ser condecorado com uma medalha de herói nacional. Porém, ao cobrar um preço mais fiel à situação de emergência, ele fez o potencial comprador de gasolina pensar duas vezes se precisa mesmo esgotar o combustível daquele posto ou não. Esse motorista não é obrigado a comprar e o comerciante não é obrigado a vender o combustível. O preço justo, mesmo numa situação atípica assim, é aquele acordado entre comprador e vendedor.

O consumidor que pede que o governo puna esse comerciante, achando que de repente o negócio dele se transformou numa instituição de caridade, deve refletir melhor. Em primeiro lugar, foi exatamente a distorção dos preços de mercado por ação governamental que gerou o problema que levou à greve. Aumentar o que causou o problema não vai resolvê-lo. Em segundo lugar, há outras formas de baratear o combustível que podem evitar esse problema no futuro. Um monopólio (como é o caso da Petrobras) tende a cobrar preços mais caros. Uma empresa estatal (como é o caso da Petrobras) tende a desperdiçar recursos, o que eventualmente se reflete em preços que prejudicam o consumidor.

Uma combinação de desregulação do setor petrolífero com sua abertura completa à iniciativa privada é o caminho mais natural para termos um “preço justo” que agrade tanto a caminhoneiros como ao restante da população.

Lucas G. Freire é pesquisador no Centro Mackenzie de Liberdade Econômica e colaborador do Instituto Monte Castelo.

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