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Crise no ensino de matemática ameaça o futuro do país

A crise crônica da matemática no Brasil aprofunda desigualdades e trava a inovação; tratá-la como estratégia nacional é vital ao futuro econômico. (Foto: George Becker/Pexels)

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O cenário do ensino de matemática no Brasil não é um problema recente, mas uma crise crônica e estrutural que, se não for enfrentada com a seriedade estratégica que merece, comprometerá de forma irreversível o desenvolvimento econômico, a competitividade e a capacidade de inovação do país.

Dados de avaliações nacionais e internacionais, aliados à análise de modelos de sucesso global, revelam um quadro de estagnação e profundas desigualdades. Longe de ser apenas uma questão pedagógica, a proficiência em matemática surge como pilar fundamental da prosperidade nacional, sendo tratada como ativo estratégico por países que lideram o progresso global.

O Brasil encontra-se em patamar preocupante. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022, o país obteve apenas 379 pontos em matemática, permanecendo muito abaixo da média de 472 pontos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essa defasagem não é um mero detalhe estatístico: ela expressa uma lacuna estrutural na formação de nossos estudantes, com consequências diretas para o futuro da sociedade e da economia nacional.

O problema se agrava quando observamos os níveis de proficiência. Menos da metade dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançou o nível mínimo esperado em matemática. Em escala nacional, o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2024 confirma a crise: em 2021, apenas 3,7% dos alunos da 3ª série do ensino médio da rede pública tiveram aprendizado adequado na disciplina — o menor índice desde 2017.

A dificuldade se manifesta desde cedo. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2021 indicam que apenas 37% dos estudantes do 5º ano e 15% do 9º ano do ensino fundamental atingem o nível esperado.

A desigualdade também é gritante, refletindo-se entre zonas urbanas e rurais (3,8% contra 1,9%) e entre os mais ricos e os mais pobres (6,9% contra 1,5%). Essas disparidades não apenas limitam o potencial individual dos estudantes, mas alimentam um círculo vicioso de exclusão socioeconômica.

Estudantes de famílias de baixa renda — justamente os que mais precisam da educação como ferramenta de mobilidade social — são os que têm menor acesso a um ensino matemático de qualidade. Esse desequilíbrio perpetua desigualdades estruturais e impede o país de aproveitar plenamente seu capital humano.

A análise regional reforça o quadro preocupante. Enquanto estados das regiões Sul e Sudeste apresentam indicadores ligeiramente melhores, o Norte e o Nordeste enfrentam déficits que comprometem suas perspectivas de desenvolvimento econômico regional.

Isso resulta em um Brasil de múltiplas velocidades, fragmentando a coesão nacional e desperdiçando talentos em escala continental

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Por outro lado, a análise dos modelos educacionais de países que lideram o ranking do Pisa oferece um roteiro claro. O sucesso não surge por acaso, mas como fruto de projetos de longo prazo que colocam a educação como prioridade nacional.

A estratégia passa pela valorização e capacitação do professor, com formação rigorosa, salários atrativos e sistemas permanentes de atualização profissional. Além disso, o domínio da matemática é enfatizado já no ensino primário, criando uma base sólida para todo o percurso acadêmico.

A matemática é motor decisivo do Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, estudo da Fundação Itaú, com apoio do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), revelou que atividades diretamente ligadas à matemática respondem por cerca de 4,6% do PIB. Embora expressivo, o número empalidece diante dos 15% a 18% que a matemática representa no PIB de países desenvolvidos, como Reino Unido, França e Holanda.

Essa diferença colossal não é apenas estatística: é a medida de um potencial inexplorado. Se o Brasil conseguisse elevar seu desempenho e valorizar a matemática no mesmo patamar das nações avançadas, poderia acrescentar até R$ 1,3 trilhão à economia, segundo estimativas do estudo.

Profissionais com forte domínio da matemática e do raciocínio lógico são crescentemente valorizados no mercado global, alcançam salários mais altos e contribuem de forma decisiva para setores estratégicos e de alta tecnologia, como inteligência artificial, análise de dados, finanças quantitativas, engenharia de ponta e desenvolvimento de software. São áreas que impulsionam inovação, produtividade e competitividade.

No entanto, a baixa proficiência em matemática da força de trabalho brasileira torna-se um gargalo para o crescimento econômico e para a atração de investimentos em setores de alto valor agregado.

É imperativo que o Brasil reconheça a matemática como pilar inegociável de seu desenvolvimento sustentável e da construção de uma sociedade mais justa e próspera. Investir de forma consistente na melhoria do ensino, da educação básica ao ensino superior, adotando práticas internacionais bem-sucedidas, valorizando professores e promovendo uma cultura de apreço pela matemática não é apenas uma questão pedagógica: é uma estratégia econômica e social vital.

A implementação de um Plano Nacional de Excelência em Matemática deve ser entendida não como mais uma política educacional, mas como um projeto de nação capaz de reposicionar o Brasil entre as principais economias do conhecimento. Cada ano de inação significa não apenas a perpetuação das desigualdades, mas a perda irreversível de competitividade em um mundo cada vez mais dependente de competências matemáticas.

Somente por meio de uma mobilização nacional, tratando a matemática como questão de soberania e de desenvolvimento estratégico, o Brasil poderá construir um futuro mais próspero, inovador e competitivo.

Um futuro no qual o potencial de nossos jovens seja plenamente realizado e a matemática se torne, de fato, uma ferramenta poderosa de transformação social, econômica e de empoderamento individual. O momento de agir é agora — nossa posição no cenário global do século XXI depende das decisões que tomarmos hoje.

Renato de Sá Teles é professor universitário na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutor em Matemática Aplicada.

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