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Opinião do dia 3

De Eisenhower a Bush

No dia 13 de agosto de l946, o general Dwight Eisenhower, uma das figuras mais gloriosas do século passado, carinhosamente chamado Ike, visitou o Brasil, onde recebeu quatro comendas de nossa hierarquia, sendo festejado e regozijado por toda a população

Durante sua permanência no Rio de Janeiro, foi exaltado como brigadeiro-general, comandante supremo das forças aliadas, herói da Segunda Grande Guerra contra os exércitos do Eixo – Alemanha, Itália e Japão. Mais que isso, presidente dos Estados Unidos de 1953 a 1961, acumulando a seqüência de dois mandatos.

De sua breve estada em nossas plagas, passou para a história um episódio curioso: a saudação de nosso ministro Otavio Mangabeira, político dos mais dignos e talentosos da nação, titular das relações exteriores de Washington Luiz, membro do Congresso Nacional, confrade na Academia Brasileira de Letras e governador da Bahia.

Pois bem. Ao se defrontar com o herói americano, Mangabeira, em postura de genuflexão, beijou-lhe a mão em flagrante registrado pela câmera de Ibrahim Sued, precursor de nosso colunismo social. A maneira do político mais respeitado do governo Eurico Gaspar Dutra sofreu reparos da população que divisou exageros no gesto, enquanto o autor considerava-o plenamente merecido pelo tanto que Ike (1890-1969), fizera pela humanidade.

Após 61 anos de intervalo, novo mandatário norte-americano surge em nossas plagas, criando um ambiente totalmente diverso do antecedente, a mostrar o quanto nos degradamos moral e civicamente. Nossa escória demonstrou um progresso geométrico na produção de quadrilhas de bandidos a protestarem contra a presença de uma autoridade de país amigo, ao qual recorremos nas dores que sentimos e não são poucas. Não sabem esses vândalos que as bandeiras por suas mãos destroçadas e queimadas pertencem a um país ao qual muito devemos na área da educação e saúde por terem aberto as portas de suas universidades para o aprimoramento de nossos médicos e inovado na indústria hospitalar para o equipamento de nossas clínicas. São centenas que de lá retornam evoluídos em suas respectivas carreiras, além de outros tantos que lá se recuperam, caso do presidente João Baptista de Figueiredo em Cleveland.

Ao analisarmos a qualidade das figuras em pauta, começamos a desvendar as pontas do dilema. Outrora, o visitante era o general Eisenhower, herói de uma guerra; hoje é o presidente Bush, vilão de um conflito econômico. Antes o nosso titular chamava-se Eurico Gaspar Dutra, durante muitos anos ministro da Guerra; agora é o Lula da Silva, cujas prendas intelectuais deixo a juízo da nação.

Mas vamos por partes. Antecedendo a toda visita entre governantes, os conselhos de diplomatas se reúnem, combinam as cláusulas, decidem as normas, acertam os baralhos, tudo medido e contado para que o noticiário a propósito não registre uma nota negativa ou pomo de discórdia. Não se esclareceu suficientemente se Sua Excelência veio para amenizar as ousadias de Hugo Chávez, se foi movido por interesses econômicos, ou se por ambas as razões. Sabia-se, entretanto, que não estava em seu programa fazer qualquer concessão que implicasse em baixa para suas cores. Não doaria e não daria. Nem o exemplo do Conde d’Eu, que deu muito de sua bravura na Guerra do Paraguai, conseguiu demovê-lo. Apenas o presidente Lula, que não é muito ligado a protocolos, tirou sua carta da manga e com ela a insistiu rogando a absolvição do imposto de 54 centavos por galão de etanol exportado. Pediu e ouviu um sonoro "não". O homem não é mesmo de dar. Mas o petróleo das refinarias venezuelanas entra com seus milhões de barris mensais isentos de qualquer tributo fronteira adentro. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

Considerando que a razão está na média e não nos extremos, podemos entender que o presidente americano veio para uma visita política e econômica de médio porte e discreto interesse, face ao que somos e ao que tem para se resolver na ordem mundial – seja belicamente, com o Iraque, seja comercialmente; com a China, Rússia, Índia e os demais emergentes que ameaçam as bolsas americanas.

Politicamente, Bush trouxe um fraternal abraço a seus esquecidos parceiros sul-americanos, cuja imagem ora está maculada pelas investidas de Hugo Chávez, a perambular por nossas paragens fazendo áulicos com terríveis açoites nas espáduas de Tio Sam.

Em economia, falou como um comandante de pelotão aos seus soldados, pedindo tudo em troca de nada, conforme havia decidido. Sua intenção é desenvolver universalmente o uso da bioenergia em substituição à gasolina, o que tenta ao estimular o cultivo da cana-de-açúcar nos países sul-americanos, onde medra mais abundante. Seu itinerário incluiu em seguida Colômbia, Guatemala e México.

Uma empreitada para frutificar ao longo de dez anos, sem qualquer interferência em nosso dia-a-dia, com a violência imperando nas ruas, os assaltos castigando nas calçadas, os seqüestros apavorando nos telefones e as extorções falando nas esquinas. Enquanto isso, o presidente escolhe seus ministros ao sabor das conveniências próprias ou partidárias, à medida em que o Brasil marca passo em sua rota para o futuro.

Lauro Grein Filho é presidente da Cruz Vermelha e do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

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