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Artigo

De milagres e espetáculos

O filósofo Karl Marx atestou em uma de suas obras clássicas, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, que a história tenderia a se repetir. A primeira vez, como tragédia; a segunda, como farsa. Premonitório ou não, o adágio consagrado pelo pensador alemão encontra na história da economia brasileira um de seus mais eloquentes testemunhos. Conquanto nada tenham apresentado de trágico ou farsante, dois dos mais festejados períodos de crescimento econômico observados no Brasil contemporâneo guardam entre si semelhanças expressivas, as quais não apenas extrapolam o misticismo dos referidos epítetos como dificilmente poderiam ser delegadas ao acaso.

A analogia entre o período consagrado na literatura econômica como "milagre econômico" (1968-1973) e o autodenominado "espetáculo do crescimento" da segunda metade dos anos 2000 revela ensinamentos que não devem ser desprezados pelo próximo ministro a assumir a pasta da Fazenda em 2015.

O primeiro pilar de sustentação do robusto crescimento do PIB verificado em ambos os períodos remete às reformas institucionais levadas a cabo nos respectivos governos anteriores. As medidas contidas no Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg) ensejaram as condições para a forte aceleração da atividade econômica observada posteriormente. Medidas restritivas e impopulares – tais como uma abrupta redução do déficit público, uma reforma tributária regressiva e uma política de arrocho salarial – conseguiram assentar a inflação em patamares condizentes com as expectativas do empresariado e, principalmente, dos consumidores. Além disso, um cenário externo simpático ao financiamento das economias ditas do Terceiro Mundo moldou a conjuntura em que se assistiu às mais altas taxas de crescimento estatisticamente registradas no país.

Cenário de similitude inquietante pôde ser observado a partir de meados da década passada. Em primeiro lugar, a estabilização monetária viabilizada pelo Plano Real responde por parcela evidente do desempenho econômico do período imediatamente posterior. Deve-se conferir a outras medidas de alcance comparável, também, o êxito do crescimento recente. O ajuste nas contas públicas via Lei de Responsabilidade Fiscal e o ganho de produtividade decorrente da privatização de setores-chave da economia nacional não devem ser negligenciados. Por fim, a mesma docilidade com que o mercado internacional brindou o generalato no início dos anos 1970 presenteou o atual governo por quase uma década. Se não mais através do financiamento do déficit em transações correntes especificamente, agora pelo aumento vertiginoso da demanda (e dos preços) das principais commodities exportadas pelo Brasil.

Em comum, o corolário inevitável a ambos os casos: a sucumbência da magia ao primeiro óbice externo. Tratou-se, este, do enredo observado tanto após o choque do petróleo de 1973 quanto no decorrer da crise financeira internacional deflagrada em 2008.

Não se pode minimizar, porém, o mérito daqueles que operaram os respectivos casos, com alguma licenciosidade, de "sucesso". Refutar os avanços sociais alcançados pelos quase 12 anos da gestão atual é mais que negar o óbvio. Trata-se de falsear a realidade histórica. O maniqueísmo em que se transformou a arena política do Brasil redemocratizado não serve a nenhum interesse, salvo o dos próprios protagonistas.

O que se deve almejar, contudo, é a certeza de que o desenvolvimento extrapola o simples manejo expansionista dos instrumentos de política econômica de curto prazo. A exportação de soja e minério de ferro para a Ásia e a venda de refrigeradores e motocicletas para a classe média em ascensão não pode ser o escopo maior da sétima economia do planeta. Crescimento sustentado requer maturidade, ousadia e, principalmente, sacrifícios. Se não os exigisse, qualquer aventureiro bem-intencionado já o teria feito. A tecnocracia lulopetista que o diga.

Política econômica é assunto demasiadamente sério para ser tratado à base de malabarismo amador. Basta à puerilidade marota do crescimento eleitoreiro. Ou jamais abandonaremos a alcunha pouco alvissareira de "Peter Pan dos trópicos".

Ivan Salomão é professor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

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