Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Opinião do dia 2

Dependência e independência

Na semana em que comemoramos a Independência do Brasil, fazemos uma pergunta: quanto estamos dependentes ou independentes. No contexto país, o processo de independência ocorrido há 184 anos foi motivado por uma série de acontecimentos internos e externos. Nessa época, séculos 17 e 18, o mundo entrava em ebulição com novas ondas que iriam mudar radicalmente a humanidade. A Revolução Industrial na Inglaterra e principalmente as idéias do liberalismo econômico e dos princípios do iluminismo deram as bases para o movimento de libertação dos Estados Unidos da América (1776) e a Revolução Francesa em 1789.

Já no Brasil, em 1808 dom João VI resolveu abrir os portos brasileiros às "nações amigas", nos inserindo no contexto internacional e iniciando, sem saber, o "rompimento dos grilhões coloniais" com Portugal que, nessa época, era governado pelo marechal Beresford, responsável pela expulsão dos franceses do solo português.

As atitudes de dom João VI e sua permanência no Brasil, custeada pela metrópole, provocaram indignação dos portugueses, que, aproveitando a vinda de Beresford ao Rio de Janeiro, eclodiram uma revolta, forçando dom João VI a voltar para Portugal. Uma junta provisória convocou as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, e, graças à sua intransigência, precipitou uma série de fatos que obrigaram os brasileiros a optar por sua independência.

Entidades organizadas da época, como a imprensa, a maçonaria e a aristocracia rural brasileira, percebendo as intenções da Corte portuguesa, encaminharam a independência do Brasil com o cuidado de não afetar seus privilégios. Em 1822, dom Pedro, que estava em São Paulo às margens do Riacho Ipiranga, após a leitura das cartas que davam conta dos intentos de Portugal bradou: "É tempo... independência ou morte... estamos separados de Portugal". Chegando ao Rio de Janeiro, em 14 de setembro, foi proclamado Imperador Constitucional do Brasil.

Partindo desse contexto histórico, que tanto nos orgulha e nos faz comemorar, podemos afirmar que o povo brasileiro conseguiu conquistar a sua independência? Consegue exercitar o seu livre-arbítrio consciente de construção de um futuro forte e promissor? Do "grito da independência" para cá, passamos pela Proclamação da República em 15 de novembro de 1989, entramos no século 20 na rabeira da revolução industrial, diga-se de passagem, "a passos de cágado", comungamos com duas grandes guerras mundiais e conflitos internos, entramos na revolução tecnológica a "fórceps" e estamos tentando colocar nossa cabeça na era do conhecimento.

Passaram-se quase 200 anos e continuamos dependentes da velha cantilena dos políticos, de uma educação sem qualidade, de um programa de saúde que não nos dá saúde, da falta de uma infra-estrutura moderna que permita tornar o país mais competitivo nesse mundo globalizado, de um modelo político sem ética, egocêntrico e voltado aos seus interesses, da alta carga tributária resultante da incompetência do Estado, do assistencialismo que corrompe a alma do brasileiro e o coloca no status de incompetente, da velha herança da corrupção, de uma máquina de governo que nos consome em todos os sentidos, da volatilidade de nossa economia, da vontade dos países ricos e dominantes em tecnologia e poder, do interesse de uma minoria, da falta de perspectivas, de emprego e renda decente, de segurança, em fim dependentes de um Projeto de País que não existe.

O que temos para comemorar? Onde está nossa independência? Somos um país livre, soberano, rico e pobre ao mesmo tempo. Temos o direito de ir-e-vir e com uma Constituição que nos garante a cidadania e a nossa liberdade. Somos uma nação que se orgulha do seu tamanho e dos seus sonhos, que tem muitos projetos, mas que não consegue executá-los, ou por que não é do interesse de poucos ou, ainda, por que se perdem na burocracia do Estado devorado pelos "dragões da incompetência", da corrupção e da falta de cobrança da nossa mania de esquecer rapidamente deles. Perdemos assim nossas esperanças e ameaçamos nossa verdadeira independência que um grupo de brasileiros em 1822 sonhou construir.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.