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A atual crise não se restringe ao diesel; ela é, fundamentalmente, política e energética. Desde o início das tensões comerciais na era Trump, o Brasil demonstrou um despreparo crônico para lidar com instabilidades externas. Internamente, o cenário se agravou com escolhas políticas que isolaram o país, mantendo o governo distante da realidade global e preso a narrativas anacrônicas.
Enquanto os sinais de que a crise no Oriente Médio não cederia eram claros desde fevereiro, o Ministério de Minas e Energia parece mais focado em articulações eleitorais regionais do que no iminente desabastecimento de diesel. Essa desconexão com a urgência do problema se estende às cúpulas do Legislativo e aos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. Enquanto isso, o agronegócio – único setor que cresce apesar dos entraves governamentais – torna-se a principal vítima da escassez de combustível, especialmente o diesel.
A fragilidade do nosso sistema é tamanha que nem mesmo uma solução mágica resolveria o problema. Suponhamos que a crise do diesel cessasse hoje e uma montadora vendesse 5 milhões de carros elétricos a preços simbólicos: a crise apenas mudaria de nome. Ou mesmo os mesmos carros a gasolina/álcool, só mudaria o nome novamente. O Brasil não possui infraestrutura de rede para suportar essa demanda de diesel. O foco do governo em metas internacionais e na COP 30 ignora o básico: o saneamento e o acesso pleno à energia para uma população que ainda sofre com a insegurança de infraestrutura.
Estamos no limiar da era da Inteligência Artificial, em que o consumo de energia não apenas “vai disparar”, mas já atingiu níveis recordes. Data centers, os “cérebros” da IA, demandam uma carga elétrica massiva e constante, e o Brasil permanece à margem dessa corrida. Nem o governo federal nem as gestões estaduais – incluindo a capital federal – apresentam programas robustos de expansão energética ou capacitação tecnológica para atrair esses investimentos. Sem energia excedente e barata, a IA passará ao largo do Brasil.
O objetivo deste artigo é alertar futuros candidatos ao Executivo: energia deve ser prioridade estratégica, não apenas uma nota de rodapé. Energia é o motor de tudo. Sem um planejamento sério que entenda que a solução vai muito além de “encher o tanque”, continuaremos assistindo ao mundo avançar enquanto o Brasil permanece no escuro.
Horácio Lessa Ramalho, cientista político, com MBA pela FGV em Relações Institucionais, é mestrando em Economia pelo IDP Brasília.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







