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“Cada vocação verdadeira inicia no encontro com Jesus, que dá alegria e uma esperança nova.” Papa Francisco
Considerando o contexto do itinerário vocacional, motivado desde os congressos vocacionais do Brasil, entende-se que o discernimento inclui esse processo e se torna um marco na vida do jovem. É um tempo de novas descobertas e de aprofundamento sobre si mesmo, focando o autoconhecimento, a autocompreensão, a autoaceitação e a superação pessoal. Nesse sentido, a animação vocacional pode ser um espaço para favorecer ao jovem esse caminho de discernimento.
Inspirado pela Jornada Mundial da Juventude ocorrida em 2023, o Papa Francisco nos ajudou a entender o quanto é importante o desenvolvimento de um bom discernimento em vista de nossas escolhas vocacionais. Afirma o Santo Padre que "o mais importante, porém, é que cada jovem ouse semear o primeiro anúncio na terra fértil que é o coração doutro jovem". A realização de um discernimento vocacional deve levar em consideração o tempo em que vivemos, o contexto social, eclesial e cultural, os desafios e as circunstâncias que impactam diretamente nossas vidas. Nesse processo, instalam-se como necessários o diálogo aberto, a confiança em alguém que possa nos acompanhar, a presença de qualidade e a escuta atenta e cuidadosa.
O discernimento vocacional é um canal de relação com as juventudes. É necessário estar suficientemente sensível para poder perceber os sinais desafiadores. Todavia, é preciso também perceber os novos fenômenos com que o tempo atual nos interpela nas realidades das juventudes. O discernimento vocacional deve ser, necessariamente, um compromisso de vida, que nos ajuda na vivência de itinerários e processos que conduzam os jovens no caminho do amadurecimento, favorecendo experiências de escuta, conduzindo o jovem na partilha e no desenvolvimento humano.
O ser humano e o conhecimento por meio das mídias sociais
Hoje o ser humano tem acesso ao conhecimento de onde ele estiver e aprende/ensina utilizando os mais diversos recursos tecnológicos. O lugar em que esse conhecimento acontece é o "espaço virtual de aprendizagem", no qual são inseridos os conteúdos, as salas de bate-papo e os fóruns virtuais. Na era digital, as novas tecnologias interferem no jeito de pensar e agir e oferecem diversas possibilidades de comunicação que permitem, entre outros benefícios: interação, agilidade, dinamicidade do processo de aprendizagem, uso de diversos tipos de recursos tecnológicos, aproximação, apesar da distância geográfica, e possibilidade de acesso atemporal.
Vivemos, portanto, um tempo privilegiado para lidar com o discernimento vocacional, que, por sua vez, não deve se prender somente ao ato da vocação específica, mas ao sentido de vida e à forma como desejamos viver neste tempo novo. Sobretudo pelo discernimento vocacional, aprendemos, com os jovens e na experiência com eles, a sentir o quanto podemos crescer juntos.
O discernimento vocacional acontece progressiva e simultaneamente em três âmbitos. Antes de tudo, é preciso despertar para a dimensão humana da vocação. Nosso primeiro chamado é para viver, ser pessoa, cultivando aqueles valores que caracterizam o ser humano enquanto tal. O segundo âmbito diz respeito à dimensão cristã da vocação. Trata-se de despertar para a vivência do compromisso batismal, para o exercício fiel da missão que nasce a partir do batismo que recebemos.
Com muita facilidade, tendemos a logo transformar pessoas em padres, irmãos, frades e freiras, sem antes nos perguntarmos se tais pessoas são, de fato, cristãs. É fundamental que o discernimento vocacional apresente Jesus Cristo ao jovem. O terceiro âmbito, enfim, refere-se à dimensão eclesial da vocação. É preciso despertar para a concretização do compromisso batismal.
Fazer as pessoas perceberem que não é possível serem cristãs de forma "genérica", mas somente abraçando compromissos concretos, serviços específicos dentro da comunidade.
O discernimento leva os jovens ao desejo de aprofundar e continuar o processo. Muitos apresentarão de imediato o desejo de seguir Jesus a partir de uma vocação específica. É fundamental, no entanto, que o discernimento trate de verificar se os sinais vocacionais são indicadores de um verdadeiro chamado da Trindade. O processo de discernimento, tendo presente a pedagogia usada por Jesus nos Evangelhos, questiona as motivações, sonda as intenções, alerta para a radicalidade e a seriedade da opção.
Como nos anima o Papa Francisco, devemos acreditar e ter esperança nas juventudes. Percebê-las como sinal de esperança e de força em nossa fé é um marco e um estímulo para que busquem o discernimento. O discernimento, por sua vez, deve ser um tempo especial em que muitos jovens desenvolvem a elaboração do seu Projeto Pessoal de Vida, bem como buscam o sentido de sua vida. Por isso, urge em nossos corações a esperança que sustenta a animação vocacional, capaz de manter processos, projetos e ações que vitalizam nossas comunidades eclesiais e, consequentemente, fazem a diferença na vida de muitos jovens.
Podemos pensar concretamente em alguns passos que enriquecem o tempo de discernimento e suscitam vitalidade, sustentando ânimo nas juventudes em nossa vida e missão.
- A certeza de que todo ser humano recebe uma vocação. Deus chama a todos. Ninguém fica de fora dos planos de Deus. Desde o nosso nascimento, Ele nos ampara, nos modela, nos conduz a uma missão e nos sustenta. Para que cada jovem vivencie o discernimento, é necessária a percepção sobre o chamamento de Deus em sua vida, abertura às orientações, oração e escuta atenta. Os jovens são desafiados a vivenciar um caminho que os levará a muitas descobertas pessoais e amadurecimentos.
- Fazer o Reino de Deus prosperar. Jesus, em sua trajetória de vida, constantemente lutava pelo crescimento do Reino (Mt 6,33). O Reino de Deus é o lugar da esperança, onde encontraremos amor, igualdade, respeito, paz, harmonia, transformação, liberdade e saúde. O discernimento vocacional, por sua vez, deve, por meio de suas ações, estimular as juventudes para esse caminho, independentemente da opção de vida que elas escolhem.
- Contribuir para uma sociedade cada dia mais justa e fraterna. Esse é um passo fundamental que sustenta o jovem em sua opção quando há discernimento vocacional. É uma consequência natural dos passos anteriores, mais especificamente ajudando os jovens a descobrirem e abraçarem suas vocações.
O discernimento vocacional verdadeiro é aquele que tem por objetivo colocar-se, antes de tudo, a serviço da vida. Antes de ajudar a descobrir sua vocação específica na Igreja, o discernimento vocacional procura favorecer o desenvolvimento da pessoa em sua totalidade, para que ela tenha vida e vida plena e, assim, possa ser verdadeiramente humana. Por isso, estimados jovens, para entregar-se ao processo de discernimento e acompanhamento vocacional, é necessário "olhar para si mesmo com os olhos de Deus", ser capaz de enxergar-se com amor, paciência, cuidado, ternura, delicadeza e, sobretudo, atenção ao seu desenvolvimento e amadurecimento. Essa é a esperança maior que perpassa o processo de discernimento vocacional.
O caminho do discernimento é fundamental e pedagógico. Necessita ter profunda espiritualidade, capaz de estimular os jovens a construir valores fundamentais em suas vidas. Esse é o diferencial que o discernimento vocacional pode ofertar à sociedade e à Igreja. Portanto, continuemos a sonhar juntos e a empreender o melhor de nós, perseverando na transformação do discernimento em nossas vidas.
Ir. Márcio Henrique Ferreira da Costa é religioso Irmão marista, cearense, formado em Teologia, Pedagogia e Psicologia. Atua em Fortaleza (CE) como formador da etapa do Postulado (processo formativo dos jovens que desejam ser Irmãos maristas). Escritor dos livros Discernimento vocacional: estratégias, subjetividades e encantamento (2019); e Despertar para a vocação: identificação, consciência e encanto (2024), ambos pela editora Paulinas.



