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Dos emergentes asiáticos ao Golfo Pérsico: a nova ponte do capital em 2026

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A análise econômica permite mapear trajetórias potenciais, ajudando a preparar agentes para cenários possíveis e fornecendo bases mais sólidas para o processo de tomada de decisões. (Foto: Unsplash)

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Durante anos, a narrativa dominante sobre crescimento global parecia previsível: Estados Unidos, Europa e China ocupavam o centro da discussão. Hoje, esse mapa explica apenas parte da história. Um novo eixo vem surgindo, e ele passa pelos emergentes asiáticos e pelo papel crescente do Golfo Pérsico como plataforma de capital e logística.

A Índia talvez seja o símbolo mais evidente dessa transição. Além de crescer de forma consistente, o país carrega uma vantagem estrutural. Conforme a ONU, desde 2023 a Índia superou a China e tornou-se a nação mais populosa do planeta, com média de idade próxima de 28 anos, enquanto a China já se aproxima dos 40. Em economia, idade importa: juventude significa consumo, força de trabalho e capacidade de expansão futura.

Essa diferença demográfica se traduz em trajetória econômica. Segundo o FMI, a economia indiana cresceu acima de 7% em 2024, enquanto boa parte das economias avançadas mal superou 2%. As projeções continuam indicando um ciclo favorável.

Vietnã e Indonésia avançam por caminhos complementares. O Banco Mundial mostra que o Vietnã se consolidou como destino natural de realocação industrial e, em dez anos, mais do que dobrou as suas exportações, superando a marca de 370 bilhões de dólares. Já a Indonésia ocupa posição singular na transição energética. De acordo com o US Geological Survey (USGS), o país concentra mais de 40% da produção mundial de níquel, mineral crítico para baterias e armazenamento de energia. Isso amplia a sua relevância geopolítica e o seu poder de barganha.

Os emergentes asiáticos produzem indústria, consumo e crescimento. O Golfo organiza capital, governança e velocidade. Um lado gera energia econômica. O outro cria a ponte para que ela circule

Filipinas, Bangladesh, Malásia e Tailândia completam esse mosaico. Em diferentes intensidades, reforçam manufatura, serviços e logística e, de forma recorrente, crescem acima das economias desenvolvidas.

O ponto central é que esse movimento aparece nos números agregados. Conforme estimativas do FMI e do Banco Mundial, enquanto a economia global deve crescer algo próximo de 3% em 2026, a região Ásia-Pacífico tende a avançar cerca de 4,1%. No Sul da Ásia, o ritmo é ainda mais intenso, próximo de 5,8%, sustentado por Índia, Bangladesh e vizinhos. Trata-se de diferença estrutural de velocidade. É nesse contexto que o Golfo Pérsico se torna peça-chave.

Crescimento, por si só, não basta. Ele precisa de financiamento, infraestrutura e rotas. Os países do Golfo se prepararam deliberadamente para assumir esse papel. Os fundos soberanos da região administram, somados, mais de 4 trilhões de dólares, direcionando capital para infraestrutura, tecnologia, energia e ativos estratégicos em várias geografias mundiais.

As economias do Gulf Cooperation Council (GCC) também caminham em ritmo acima da média global. De acordo com a Oxford Economics, as projeções indicam crescimento próximo de 4,4% em 2026, apoiado na produção de energia e, cada vez mais, na expansão de setores não petrolíferos.

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Dubai é talvez o exemplo mais visível dessa reorganização. Segundo dados da DP World e da UNCTAD, o porto de Jebel Ali movimenta mais de 13 milhões de TEUs (contêineres) por ano, o que consolida o Golfo como corredor logístico estratégico. Ao mesmo tempo, o emirado funciona como intermediário sofisticado entre capital e projetos, combinando ambiente regulatório competitivo com proximidade geográfica com a Ásia, África e Europa.

Investidores utilizam o Golfo para estruturar veículos, diversificar risco e ganhar alcance internacional. Empresas asiáticas utilizam o mesmo eixo para financiar expansão fora de seus mercados domésticos. A relação é complementar. Os emergentes asiáticos produzem indústria, consumo e crescimento. O Golfo organiza capital, governança e velocidade. Um lado gera energia econômica. O outro cria a ponte para que ela circule.

Tratar esse processo como algo passageiro seria um equívoco. Ele não elimina os centros tradicionais, mas redistribui relevância e redefine as rotas pelas quais o capital se move. Há riscos e volatilidade, como em qualquer fase de transição. Ainda assim, os números indicam uma mudança estrutural: uma parcela crescente do crescimento global está sendo produzida e financiada por esse eixo entre Leste e Golfo.

Para o investidor brasileiro, a mensagem é direta. Globalizar patrimônio deixou de ser defesa e passou a ser participação ativa nas novas frentes de crescimento. Significa entender onde a capacidade produtiva está nascendo, onde o capital está se organizando e como essas regiões se conectam.

O mapa não está apenas mudando. Ele já mudou. Continuar olhando apenas para os mesmos lugares pode significar assistir, mais uma vez, às grandes transformações de fora do seu portfólio de decisões e investimentos.

Charluan Gamballe, gestor de investimentos internacionais, é CEO da GCS Capital.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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