O que fez de Lula esse fenômeno político e eleitoral nunca antes visto neste país? A resposta foi dada por James Carville, estrategista americano de marketing político, na campanha de Bill Clinton contra Bush pai: "The economy, stupid!"
A acreditar nas pesquisas, a eleição presidencial está liquidada e o presidente Lula elegerá sua candidata, afirmando-se como o maior líder popular e eleitoral de todos os tempos no Brasil. Comparado com ele, Getú lio Vargas é um vereador de interior em matéria de populismo. E a histórica esperteza dos mineiros, como Benedito Valadares, José Maria Alkmin, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, perdeu seu lugar na história política brasileira para o lulismo, que consegue conviver com enormes contradições entre os diversos grupos que apoiam seu governo sem permitir que nenhum deles assuma uma posição de hegemonia.
O governo Lula consegue ser conservador na política fiscal, apoiando a ortodoxia das taxas de juros do doutor Meirelles e do Banco Central, ao mesmo tempo em que afaga o "desenvolvimentismo" do ministro Mantega e do BNDES e desfere condenações indignadas contra a exploração do capitalismo transnacional e a iniquidade da economia de mercado. Aprovou o 3.º Programa Nacional de Direitos Humanos, que, com uma penada burocrática atropelou as discussões sobre temas polêmicos e explosivos como o aborto, a revisão da lei da anistia, a liberdade da imprensa, a retomada de propriedades rurais invadidas etc. Mas quando começou a reação contra o programa, Lula afirmou que havia assinado sem ler, e rapidamente assegurou aos interlocutores de peso da Igreja, dos militares e dos barões da imprensa que não havia razões para tanta afobação. O ministro dos Direitos Humanos insinuou que iria se demitir, previsivelmente não se demitiu porque ninguém é de ferro, o programa foi para as prateleiras e a vida continuou.
Na área externa, Lula cortejou a companhia dos ricos em Davos e a intimidade do companheiro Obama na Casa Branca, enquanto que a trinca Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia exsudava terceiromundismo, abraçando-se com Chávez, Zelaya e os irmãos Castro. Quando Lula resolveu, influenciado pela "tchurma" transpor sua "política externa" (argh!) para as regiões realmente críticas do mundo, como o Oriente Médio e se abraçou a Ahmadinejad e à teocracia totalitarista iraniana, viu logo que a briga era de cachorros grandes não dispostos a dividir território com novatos bem-intencionados. Voltou a pontificar na America Latina onde as coisas são mais fáceis.
O que fez de Lula esse fenômeno político e eleitoral nunca antes visto neste país? A resposta foi dada por James Carville, estrategista americano de marketing político, na campanha de 1992 de Bill Clinton contra Bush pai: "The economy, stupid!", "a economia, seu burro!". Carville criou a frase para que ele próprio e os chefes da campanha presidencial de Clinton se concentrassem em lembrar aos eleitores que Bush pai era um grande líder internacional, mas que a economia doméstica americana ia de mal a pior. Portanto era importante dizer aos eleitores que prestígio internacional não enche panela e que a economia era o que realmente importava.
Lula pode utilizar a frase exatamente por razões opostas: de onde vem tanta popularidade? "Da economia, seus burros!". Para todos, a economia brasileira reservou boas notícias nos últimos anos: trabalhadores viram seu mercado crescer e os salários reais também; bancos nunca ganharam tanto dinheiro; comércio e indústria vendem como nunca; multinacionais conseguem aqui os lucros que escassearam no Primeiro Mundo, investidores se deliciam com taxas altíssimas de juros, as lideranças sindicalistas e as ONGs têm amplo e pouco fiscalizado acesso aos cofres do governo, o assistencialismo cresce permanentemente...
Não adiantará aos idiotas da objetividade, como os apelidou Nelson Rodrigues, chamar a atenção para o sucateamento da infraestrutura, o contínuo inchamento da máquina estatal, os fiascos da política externa, a truculência da militância petista, a sangria dos juros ou a falência da medicina e a mediocridade da educação públicas brasileiras. Quem governa o sentimento nacional atualmente "é a economia, seus burros".
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUCPR.



