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E as pesquisas erraram de novo: urnas desmentem previsões de institutos a cada eleição

Apenas um dos principais institutos apontou Flávio Bolsonaro (PL) numericamete à frente de Lula (PT). Episódio aumenta pressão sobre pesquisas eleitorais.
Apenas um dos principais institutos apontou Flávio Bolsonaro (PL) numericamete à frente de Lula (PT). Episódio aumenta pressão sobre pesquisas eleitorais. (Foto: Fotos: Andre Borges/EFE; Sebastiao Moreira/EFE. Montagem: Gazeta do Povo com ChatGPT)

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Seis dos sete institutos que divulgaram pesquisas presidenciais na reta final apontavam Lula à frente no primeiro turno. Quem terminou em primeiro foi Flávio Bolsonaro, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, com 100% das urnas apuradas. Todos os sete erraram para o mesmo lado. Flávio teve mais votos do que qualquer um deles previa: um ponto a mais que no Gerp, seis a mais que no Real Time Big Data, quase quatro na média. Com Lula, o erro foi de cerca de um ponto, ora para cima, ora para baixo. Erro que vem do acaso cai para os dois lados. Quando sete pesquisas erram na mesma direção, e só com um dos candidatos, o nome é viés.

Não foi surpresa para quem olhou o histórico. Três dias antes da eleição, publiquei neste espaço um artigo com essa hipótese, baseado apenas em pesquisas registradas e resultados oficiais de 2018, 2022 e 2024. Se um pesquisador sozinho, sem equipe nem verba, pôde apontar o risco, há algo errado quando institutos com décadas de experiência e milhares de entrevistas não o corrigem.

Os números da véspera mostram o tamanho do erro. O Datafolha dava 45% a 42% para Lula (registro no TSE BR-01708/2026). A Quaest, 46% a 45% (BR-02197/2026). A AtlasIntel, 47% a 44,1% (BR-00999/2026). O PoderData, 45% a 43% (BR-03519/2026). A CNT/MDA, 47,8% a 42,1% (BR-04756/2026). O Real Time Big Data, 46% a 41% (BR-09503/2026). Só o Gerp trazia Flávio na frente, por 46% a 44% (BR-00509/2026).

E não é a primeira vez. Em 2018, o Datafolha da véspera dava 40% dos votos válidos a Jair Bolsonaro (BR-01584/2018). Ele teve 46,03%. Em 2022, dava 36% (BR-00245/2022). Ele teve 43,20%. Agora dava 42% a seu filho, que teve 47,03%. São três eleições presidenciais seguidas com erros de seis, sete e cinco pontos, sempre para baixo e contra o mesmo campo político.

O problema se repetiu nos estados. A Quaest divulgou na véspera pesquisas para governador em 26 unidades da Federação, todas com margem de erro de dois pontos. Em 16 delas, quem terminou em primeiro ficou a mais de três pontos do número publicado. Em dez, a mais de quatro, o dobro da margem. Pela regra dos próprios institutos, isso só deveria ocorrer em uma de cada vinte pesquisas.

No Rio de Janeiro, todos os grandes institutos davam Eduardo Paes (PSD) com folga sobre Douglas Ruas (PL): 46% a 38% no Datafolha (RJ-01334/2026), 49% a 40% na Quaest (RJ-03032/2026), 48,6% a 39,8% na AtlasIntel (RJ-02601/2026) e 47,9% a 34,4% no Paraná Pesquisas (RJ-07095/2026). Ruas terminou em primeiro, com 49,27%, contra 42,76% de Paes.

No Paraná, Sergio Moro (PL) se elegeu no primeiro turno com 50,10%. Tinha 43% na Quaest (PR-05119/2026), 44,7% na AtlasIntel (PR-05944/2026) e 40% no Real Time Big Data (PR-04002/2026). No Rio Grande do Sul, Zucco (PL) teve 58,05%. A Quaest lhe dava 52% (RS-08922/2026) e a AtlasIntel, 48,3% (RS-01974/2026).

Houve erro também no sentido contrário. Na Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT) superou as pesquisas, com 55,72%. A Quaest lhe dava 52% (BA-02224/2026) e a AtlasIntel, 51,5% (BA-05671/2026). O Paraná Pesquisas chegou a apontar ACM Neto à frente, por 50,3% a 48,4% (BA-03273/2026). No Distrito Federal, Datafolha (DF-00905/2026) e Quaest (DF-04089/2026) davam 53% a Celina Leão (PP), o suficiente para elegê-la no domingo. Ela teve 49,93% e vai ao segundo turno.

Nos estados, o erro mais comum foi subestimar quem lidera, de qualquer partido. Na disputa presidencial, o erro tem lado. Nos dois casos há um padrão, e padrão não é acaso. Nenhum instituto escapa. O Paraná Pesquisas foi o único a acertar em cheio a votação de Moro, com 50,1% (PR-02701/2026), e errou a de Ruas em quase quinze pontos.

Há explicações inocentes. Parte dos eleitores de candidatos menores da direita migrou para Flávio nos últimos dias. Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury somavam dez pontos no Datafolha e tiveram pouco mais de sete. Eleitores de direita talvez respondam menos a pesquisas. Mas o que se repete por três eleições deixa de ser surpresa e vira defeito conhecido, que os institutos não corrigiram nem explicaram. A margem de erro de dois pontos, repetida em toda manchete, promete uma precisão que as urnas desmentem a cada eleição.

Isso importa porque pesquisa não é só retrato. Orienta voto útil, doações, alianças, cobertura da imprensa e preços no mercado financeiro. Um candidato que aparece nove pontos atrás na véspera entra no domingo como derrotado. Pesquisa também é produto comercial, encomendado por emissoras e entidades empresariais ou pago pelo próprio instituto, caso de ao menos duas das sete presidenciais da reta final.

Quando o erro se repete na mesma direção, contra o mesmo campo, por três eleições presidenciais, a suspeita de favorecimento político deixa de ser paranoia. Não tenho evidência de que algum instituto manipule resultados, e os dados estaduais não apontam para um partido só. Mas esse é o problema: ninguém de fora tem como saber. A dúvida entre falha de método e má-fé só existe porque os dados são fechados.

A lei já exige bastante. A resolução 23.600 do TSE obriga os institutos a registrar quem contratou a pesquisa, quanto ela custou, de onde veio o dinheiro, como a amostra foi montada e qual foi o questionário. Desde 2024, entregam também um relatório completo, que só se torna público depois da eleição. As planilhas das entrevistas só podem ser vistas por partidos, candidatos e Ministério Público, mediante pedido à Justiça Eleitoral.

Falta o essencial: a base de dados das entrevistas, sem a identificação dos entrevistados; o peso dado a cada resposta; quantas pessoas se recusaram a responder; e o que foi feito com os indecisos. Tudo isso deveria sair junto com a pesquisa, para que qualquer pessoa possa refazer as contas.

É o que as boas revistas científicas exigem de qualquer estudo: dados abertos, para que outros possam conferir. Um número capaz de mover votos, alianças e dinheiro não pode seguir regra mais frouxa que a de um artigo acadêmico. Não se trata de censurar pesquisas nem de punir quem erra. Errar faz parte de medir. Trata-se de impedir que se erre no escuro. O TSE pode fazer isso por resolução, e o Congresso, na Lei das Eleições.

Em artigo anterior, concluí que havia motivo para perguntar se as pesquisas subestimam a direita, mas não para presumir a resposta. A resposta chegou. Agora são os institutos que devem explicações.

Gabriel Cepaluni é cientista político, professor associado da UNESP, autor de Capitalism and Development (Cambridge University Press, 2026) e tem trabalhos publicados no American Journal of Political Science, Political Analysis e Nature.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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