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A madrugada de 3 de janeiro não apenas selou o destino de Nicolás Maduro, levado sob custódia americana para Nova Iorque. Ela escancarou as fragilidades da diplomacia brasileira e revelou a ausência de um sistema estratégico de antecipação e resposta em Brasília. Enquanto forças especiais dos EUA agiam em Caracas, o silêncio inicial e a reação improvisada do Itamaraty expuseram uma verdade incômoda: o Brasil, apesar de suas ambições globais, não estava preparado.
Já em maio de 2025, uma operação sigilosa dos EUA removeu, em poucas horas, cinco opositores de Nicolás Maduro que estavam refugiados na Embaixada da Argentina em Caracas – então administrada pelo Brasil após o rompimento das relações diplomáticas entre Buenos Aires e Caracas. O episódio funcionou como um ensaio público da capacidade operacional norte-americana. Diante desse precedente, causa surpresa que o Itamaraty não tenha se preparado para uma ação de maior escala, desta vez dirigida contra o próprio Maduro.
A pergunta que se impõe é direta: se os EUA podem desmontar um regime vizinho em horas, qual é, afinal, o peso real do multilateralismo brasileiro?
O reconhecimento apressado de Delcy Rodríguez como autoridade interina foi um claro sinal de fragilidade. Ao fazê-lo, Brasília abandonou a prudência histórica da Doutrina Estrada – que visa evitar o uso do reconhecimento como arma política – e adotou um alinhamento reativo aos fatos consumados por Washington.
A pergunta que se impõe é direta: se os EUA podem desmontar um regime vizinho em horas, qual é, afinal, o peso real do multilateralismo brasileiro? A resposta é dura: assistimos a botas estrangeiras agirem em nossa fronteira sem consulta, sem coordenação regional e sem que tivéssemos capacidade de dissuasão.
A instabilidade na Venezuela é hoje um risco direto à segurança brasileira – do fluxo migratório à integridade das eleições presidenciais de 2026. O episódio de Caracas deve servir como um choque de realidade. O Planalto precisa urgentemente de uma blindagem institucional, que passe pela modernização da inteligência estratégica e por uma política externa pragmática.
Isso exige mover as peças no tabuleiro regional e global. A relação com a China não pode se limitar ao comércio de soja e minério; deve incluir diálogos de defesa e segurança cibernética que elevem o custo de ações unilaterais na região. Paralelamente, é urgente reativar e modernizar mecanismos de segurança coletiva sul-americanos, como a Unasul, hoje esvaziada. A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) e o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) precisam sair do papel e se tornar instrumentos operativos de dissuasão e inteligência.
Sem uma estratégia clara para lidar com uma hegemonia dos EUA em declínio, o Brasil corre o risco concreto de se tornar irrelevante na geopolítica das grandes potências. Construir resiliência é agora o último recurso para o Brasil evitar a irrelevância estratégica. A questão que fica é: o Palácio do Planalto já tem seu bunker? Porque a próxima crise pode bater à nossa porta sem aviso.
Hélder Ferreira do Vale é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Bahia (UFBA).



