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Em uma época de transformações tecnológicas e sociais em ritmo vertiginoso, o Brasil se encontra diante de uma encruzilhada. De um lado, o abismo do atraso, sustentado por velhos vícios comportamentais; do outro, a possibilidade de se tornar uma nação próspera e desenvolvida. A ponte para atravessar esse abismo não será construída apenas com reformas econômicas ou infraestrutura física, mas sim com a matéria-prima mais nobre que uma nação possui: o capital humano. É imperativo reconhecer que a cultura e a educação não são “acessórios” de luxo, mas os pilares centrais e estratégicos de uma sociedade.
Durante muito tempo, o Brasil se viu refletido no espelho de Macunaíma, a obra-prima de Mário de Andrade. O “herói sem caráter”, símbolo de uma identidade nacional fluida, preguiçosa e sem bússola moral definida, serviu como uma crítica mordaz e necessária ao modernismo de 1922. Não podemos mais nos dar ao luxo de perpetuar essa falta de definição.
Superar Macunaíma significa formar cidadãos que tenham 'caráter' não no sentido moralista, mas no sentido de integridade, propósito e responsabilidade cívica
A educação e a cultura são os antídotos para a falta de caráter coletivo. Enquanto a educação formal fornece as ferramentas cognitivas para a compreensão do mundo, a cultura fornece o pertencimento e a identidade. Uma criança que tem acesso à literatura, à música, à história e às artes desenvolve empatia e senso crítico. Ela deixa de ser um indivíduo isolado para se tornar parte de um todo. Superar Macunaíma significa formar cidadãos que tenham “caráter” não no sentido moralista, mas no sentido de integridade, propósito e responsabilidade cívica.
Talvez o maior obstáculo ao nosso desenvolvimento social seja a perniciosa “Lei de Gerson” – a ideia de que é preciso “levar vantagem em tudo, certo?”. Essa mentalidade corrosiva, que celebra a esperteza em detrimento da ética, é a antítese do desenvolvimento sustentável. A educação de qualidade atua diretamente na desconstrução desse paradigma. Uma educação cidadã ensina que a vantagem individual obtida às custas do coletivo é, na verdade, um prejuízo no longo prazo para todos.
Países com altos índices de bem-estar social, como as nações escandinavas ou o Japão, não o são apenas porque são ricos, mas porque sua cultura e educação valorizam o respeito às regras e ao próximo. Nesses países, a regra é respeitada não por medo da punição, mas por consciência cívica – fruto direto de um sistema educacional robusto. A diferença crucial entre o Brasil e essas nações reside, portanto, em uma cultura de valorização da educação formal como um bem estratégico para toda a sociedade. Em muitos países, o investimento em educação é visto como o alicerce do futuro de uma nação. No Brasil, infelizmente, persiste uma mentalidade que, por vezes, desvaloriza o conhecimento “aprendido nas escolas” em favor da “esperteza das ruas” ou do ganho imediato, uma herança que precisa ser ativamente extirpada.
Para aqueles que ainda duvidam que a educação é o motor da prosperidade, os dados internacionais de avaliação são claros. O Brasil figura nas últimas posições do Pisa. Os resultados mais recentes mostram que uma parcela alarmante dos nossos estudantes de 15 anos não possui competências básicas em leitura e matemática. De acordo com o relatório Education at a Glance 2025, da OCDE, o gasto governamental por estudante da educação básica é de cerca de US$ 3.872, valor significativamente inferior ao observado em países desenvolvidos. Sem educação de base, condenamos nossos jovens a subempregos e perpetuamos o ciclo da pobreza.
Enquanto a Coreia do Sul, que na década de 1960 tinha um PIB per capita similar ao do Brasil, investiu maciçamente em educação e hoje é uma potência tecnológica, nós estagnamos. A diferença não foi sorte nem recursos naturais; foi uma escolha estratégica de prioridades.
A cultura, por sua vez, vai além do entretenimento: ela expressa identidade, história, valores e formas de ver o mundo. No plano econômico, a cultura tem peso considerável. Segundo relatório da Unesco, o setor cultural e criativo representa cerca de 3,1% do PIB mundial e emprega 6,2% da força de trabalho global – números que colocam a cultura como um motor significativo de oportunidades econômicas. No Brasil, toda essa “indústria cultural” movimentou R$ 230,14 bilhões em 2020, superando inclusive o peso de setores tradicionais como a indústria automobilística.
Ler, interpretar, criar, dialogar e identificar significados são habilidades que se reforçam mutuamente entre educação e cultura. Participar de atividades artísticas no contexto escolar, por exemplo, é crucial para o desenvolvimento integral. Contudo, dados apontam desafios reais de acesso à leitura e bibliotecas no Brasil: uma pesquisa internacional reportou que o país perdeu quase 7 milhões de leitores em quatro anos, e o Censo Escolar indica que mais da metade das escolas públicas não dispõe de bibliotecas adequadas – fatores que impactam diretamente na formação leitora e cultural dos estudantes.
Vivemos a era da Inteligência Artificial e da hiperconexão. A educação nos dá a flexibilidade cognitiva para aprender a aprender; a cultura nos dá a criatividade e a humanidade para nos diferenciarmos das máquinas. Investir na formação das nossas crianças, garantindo que elas dominem a linguagem, a ciência e as artes, é uma estratégia de soberania nacional. Sem isso, seremos eternos consumidores de tecnologia alheia.
Educação e cultura são instrumentos estratégicos de desenvolvimento sustentável. A negligência nessas áreas reverbera em desigualdades, baixa produtividade e perda de competitividade global. Investir em professores, bibliotecas, museus, centros culturais, ensino integral, artes e literatura é investir na capacidade de pensar, inovar e transformar.
O mundo está em constante transformação: novas tecnologias, mercados emergentes e desafios sociais exigem um povo capaz de compreender contextos complexos e de reagir com criatividade e ética. Só por meio de uma educação crítica e de uma cultura vibrante poderemos formar indivíduos conscientes de sua história, integrados em sua comunidade e ativos na construção de um país mais justo, próspero e solidário.
Renato de Sá Teles é professor universitário na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutor em Matemática Aplicada.



