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Educação e saúde mental

  • João Malheiro
 
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Numa sociedade que dispõe de um sistema de valores, a saúde física e mental de seus cidadãos está significativamente bem mais protegida, porque se tem a sabedoria do bem e do mal

É comum ouvir dizer entre educadores e psicólogos que a juventude do século 21 será muito diferente das gerações anteriores. O fato de já nascer “conectada” à rede mundial parece determinar transformações humanas e sociais ainda imprevisíveis. A revolução tecnológica oferece vantagens de comunicação e de informação que proporcionam à criança visão de mundo globalizada, opções de prazer e de lazer muito rápidas e formas de relacionamento mais dinâmicas. É evidente que a carga de informação que ela pode receber diariamente nem sempre contribuirá para a sua formação e sabedoria, pois sua capacidade de aquisição e retenção do conhecimento não se modificou com o crescimento da tecnologia. Ao contrário do que acontece no campo das ciências experimentais, no âmbito da educação não há possibilidade de semelhante acúmulo de conhecimento, pois a capacidade do homem de aprender começa sempre do básico e cada pessoa e cada geração deverão aprender pessoalmente os conteúdos das diversas ciências por meio do processo educacional. Igualmente no campo da moral, os valores do passado que nos chegam pela tradição não podem ser herdados geneticamente, mas têm de ser assumidos e renovados através de uma opção livre e pessoal, o que exige um esforço redobrado.

Outro aspecto que merece destaque são as mudanças no âmbito familiar. Diversos motivos sociais, econômicos e filosóficos foram pressionando os responsáveis pela educação a se afastarem de seus deveres formativos e a delegarem essa tarefa a outras entidades. Infelizmente, essa transferência da responsabilidade para terceiros não costuma ser muito eficiente. Dificilmente uma criança desenvolve uma virtude e acredita num valor moral que aprendeu na escola quando essa formação não ecoa habitualmente na própria família. Nesse momento, os fundamentos éticos costumam ser abalados, e surgem confusões no exercício da liberdade, que trazem sempre transtornos físicos, psíquicos e morais.

O resultado dessas duas mudanças mais profundas – tecnologia e família – podem estar produzindo grandes alaterações afetivas e comportamentais nas novas gerações.

Supõe-se que os inputs sensitivos que uma criança recebe hoje são mais intensos e frequentes que outrora no passado. Se isso se comprova, parece lógico que ela precisa de muito mais cuidados e atenções do que antes. Ora, a criança sempre foi dependente de um adulto para orientar sua afetividade desenfreada, já que esta não goza de racionalidade. Assim, seria de se esperar que, agora, ela necessitasse de muito mais apoio da família. Entretanto essa relação, ao invés de ter crescido de forma proporcional, parece que caminhou no sentido inverso: quanto mais inputs sensitivos foram sendo provocados na afetividade da criança, menos a orientação familiar se fez presente.

O que se tem evidenciado em tantos estudos é que a omissão familiar tem sido substituída pela (des)orientação dos meios de comunicação. Na medida em que os modelos apresentados na tevê ou na internet, em ambientes de entretenimento como novelas, seriados e filmes, são de consumismo, infidelidade, sexo fácil e promiscuidade, a criança e o adolescente foram associando felicidade à conduta errada apresentada, transformando aquela postura antiética em estímulo a imitar.

Diante dessa realidade, vale indagar se esses novos comportamentos apresentados pelos jovens estarão afetando o desenvolvimento correto da sua afetividade. Será que não há alguma relação entre essa exagerada carga sensitiva que os jovens estão recebendo e os desajustes psíquicos cada vez mais comuns entre eles: depressão, solidão, timidez, diversas síndromes, insegurança, imaturidade?

Numa sociedade que dispõe de um sistema de valores, a saúde física e mental de seus cidadãos está significativamente bem mais protegida, porque se tem a sabedoria do bem e do mal. Por outro lado, se o que reina é a diluição dos valores ou sua tergiversação, é possível que essa desordem moral cause desordens de outros âmbitos, como doenças mentais de forma cada vez mais precoce.

Nessa mesma direção estão indo os recentes estudos da psicologia positiva. Os médicos estão descobrindo que é melhor potencializar o aprendizado das virtudes éticas como forma de prevenir algumas enfermidades e retardar a morte nas pessoas mais velhas. As investigações dos últimos dez anos asseguram que os benefícios psicológicos e de saúde física são muito maiores numa vida cheia de sentido e com finalidades transcendentes, do que a que deriva de uma felicidade meramente material e voltada para si.

Concluo que os pais deveriam estar não só preocupados com a proteção física de seus filhos, mas tentar enxergar novos âmbitos nesses cuidados, que quando se descuidam são muito mais dolorosos.

João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ. E-mail: malheiro.com@gmail.com Blog: escoladesagres.org

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