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Educação 5.0 vai da tecnologia ao afeto

Na educação, o cuidado emocional é tão essencial quanto a competência cognitiva. Sem eles, a aprendizagem perde alma. (Foto: Albari Rosa/Foto Digital/Gazeta do Povo)

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A mensagem do papa Leão XIV durante o Jubileu do Mundo Educativo ecoou como um chamado à redescoberta do sentido mais profundo da educação. Enquanto a tecnologia avança a passos largos e algoritmos moldam comportamentos, ele nos recorda que “a educação une as pessoas em comunidades vivas e organiza as ideias em constelações de sentido”. Essa visão dialoga diretamente com a urgência de uma educação integral, que reconhece o ser humano em todas as suas dimensões – intelectual, emocional, espiritual e social.

Hoje, temos acesso ao conhecimento instantâneo, mas o sentido do aprender precisa ser redescoberto. Formar apenas mentes preparadas para o mercado é insuficiente; é urgente formar corações abertos à empatia, à solidariedade e à transcendência. A verdadeira educação não se limitaria à transmissão de conteúdos, mas cultivaria a capacidade de compreender o outro, de cuidar da casa comum e de agir com propósito. Educar é, sobretudo, um ato radical de esperança.

Seria ingênuo romantizar a tecnologia como panaceia. A Unesco alerta: apesar de seu potencial, a tecnologia hoje acentua desigualdades, pois metade dos estudantes do mundo ainda não tem acesso adequado às ferramentas digitais

Ao afirmar que “vocês não são apenas destinatários da educação, mas seus protagonistas”, o Papa convida os aprendizes a assumirem o papel central do processo educativo. Esse protagonismo é a espinha dorsal da Educação 5.0 – um modelo que entende o estudante como autor do próprio aprendizado, alguém que constrói conhecimento com significado e se reconhece parte ativa na transformação do mundo. Ser protagonista é questionar, propor, criar, errar e recomeçar – em um movimento constante de descoberta e contribuição.

Entretanto, protagonizar não significa caminhar sozinho. Exige uma comunidade educativa que acolha, inspire e conduza com sabedoria. O educador torna-se mentor, guia, parceiro de jornada. O cuidado emocional é tão essencial quanto a competência cognitiva. Sem eles, a aprendizagem perde alma.

Outro ponto central da mensagem papal é o uso ético e humanizado da tecnologia. “Sirvam-se dela com sabedoria e não permitam que a tecnologia se sirva de vocês”, adverte o pontífice. Nesta sociedade hiperconectada, com telas ocupando o centro da atenção e a inteligência artificial redefinindo as fronteiras do saber, a educação precisa garantir que o humano permaneça no centro. A tecnologia deve ser instrumento de inclusão, criatividade e empatia – nunca substituto do vínculo humano.

A educação 5.0 nasce dessa síntese: a tecnologia a serviço da vida, da solidariedade e da cooperação. É a educação que prepara para um mundo em rede, mas enraizado em valores; que forma cientistas conscientes, empreendedores éticos, líderes compassivos e cidadãos planetários. Uma educação que não apenas ensina a programar máquinas, mas a programar futuros com justiça e sentido.

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Em diversas partes do mundo, esse modelo já ganha forma concreta. O Colégio Donaduzzi, no Oeste do Paraná, alia metodologia personalizada com aprendizado baseado em resolução de problemas reais. Outras escolas reforçam esse caminho: a Steve Jobs School (Holanda), onde os alunos decidem o que estudar; a Bath Studio School (Reino Unido), que simula o mundo do trabalho; La Cecilia (Argentina), com currículo livre em contato com a natureza; o Ørestad Gymnasium (Dinamarca), que rompe com salas de aula tradicionais; e a Ritaharju School (Finlândia), onde a escola é parte viva da comunidade.

Porém, seria ingênuo romantizar a tecnologia como panaceia. A Unesco alerta: apesar de seu potencial, a tecnologia hoje acentua desigualdades, pois metade dos estudantes do mundo ainda não tem acesso adequado às ferramentas digitais. Neil Selwyn, da Universidade Monash (Austrália), critica a “compulsão à tecnologia” e aponta seu uso como questão de poder, controle e conflito. No Brasil, Martins (2019) chama atenção para a superficialidade cognitiva do uso tecnológico sem reflexão pedagógica. O ensino remoto durante a pandemia escancarou isso.

A crítica maior é tratar a tecnologia como ferramenta neutra, dissociada da mediação humana. Em vez de reinventar a escola, corremos o risco de repetir velhas práticas em nova embalagem. Educar para o futuro exige discernimento: menos deslumbre tecnodigital, mais consciência pedagógica. A tela não pode substituir o encontro. O link não pode apagar o vínculo.

O papa Leão XIV fala de uma “educação desarmante e desarmada”, capaz de criar igualdade e crescimento para todos. Desarmar, nesse contexto, é abrir o coração, renunciar à indiferença e cultivar o diálogo. É a pedagogia da paz, da escuta e da presença. Uma educação que não teme o diferente, mas o reconhece como parte essencial da nossa humanidade compartilhada.

Educar, afinal, é um ato de esperança. É acreditar que cada ser humano traz em si uma centelha de transformação. Em um tempo de crises múltiplas – ambientais, sociais e espirituais –, a educação precisa ser esse farol que ilumina caminhos e reacende a fé no futuro.

Como disse o papa, “a educação nos ensina a olhar para o alto”. Olhar para o alto é reconhecer que aprender é, também, um gesto de transcendência. É compreender que o conhecimento, quando movido pelo amor e pela fé, pode ser força criadora de um mundo mais justo, sustentável e humano.

A educação 5.0, assim, não é apenas um modelo pedagógico – é um compromisso civilizatório. Um convite para que escolas, universidades, parques tecnológicos e comunidades educativas se tornem espaços de encontro, criatividade e fraternidade. Onde o saber científico se una à sabedoria do coração. Onde o progresso tecnológico caminhe de mãos dadas com a dignidade humana. Onde aprender continue sendo o mais belo ato de esperança.

Paulo Roberto Cordeiro Rocha, vice-presidente da Biopark Educação, é mestre em Gestão de Empresas pela Fundação Dom Cabral e coautor de dois livros da Academia Europeia de Alta Gestão.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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