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As eleições de 2026 dificilmente serão vencidas apenas por quem apresentar as melhores propostas para seus Estados e para o país. Também não devem premiar o candidato que entende melhor as engrenagens das plataformas digitais ou consegue ocupar mais espaço no debate público, especialmente no horário eleitoral gratuito. Há algum tempo, esse tipo de vantagem deixou de ser decisivo por si só.
O que vem fazendo diferença é outra coisa: a relação que o candidato consegue construir com quem o escuta. Quando o eleitor não se reconhece minimamente naquela fala, a mensagem passa, mas não permanece. É aí que a jornada do herói começa a fazer sentido fora do cinema. Na política, ela ajuda a organizar histórias que o eleitor consegue entender e acompanhar. Dados importam, mas raramente decidem um voto sozinhos.
Nunca se produziu tanta informação sobre o eleitor. Pesquisas, relatórios e análises se acumulam em ritmo acelerado. Eles ajudam a compreender cenários, mapear rejeições e antecipar movimentos. São úteis. Mas, na prática, não garantem conexão.
Os dados orientam decisões, ajudam a evitar erros grosseiros e ajustam o discurso do candidato. Ainda assim, quando não existe uma narrativa clara, capaz de sustentar esses dados, a comunicação se esgota rapidamente. Sem história, a empatia enfraquece. E, sem empatia, o voto dificilmente se consolida.
Quando Joseph Campbell descreveu a jornada do herói, falava de personagens atravessados por conflitos, dúvidas e falhas. Pessoas comuns, longe da perfeição, que mudam ao longo do caminho. Essa lógica parece dialogar melhor com o momento atual da política. Em um cenário de cansaço, desconfiança e excesso de promessas, o eleitor tem demonstrado pouco interesse por figuras que parecem prontas demais. A imagem do candidato que já chega com todas as respostas costuma soar distante. Em muitos casos, artificial. Há um limite para o quanto um discurso pode parecer impecável. Quando tudo soa excessivamente controlado, a identificação se perde.
Toda eleição mobiliza dimensões profundas da vida coletiva. O eleitor projeta no candidato frustrações, expectativas, medos e desejos. Em certos momentos, busca estabilidade. Em outros, mudança. Nem sempre isso é consciente, mas quase sempre é sentido. Campanhas que ignoram esse campo simbólico podem até ser tecnicamente bem executadas, mas tendem a parecer vazias. Falam corretamente, cumprem protocolos, mas não criam ressonância.
Olhar para o imaginário coletivo ajuda a perceber como um candidato é lido, para além do que ele pretende comunicar. Quando essa camada é ignorada, a mensagem se desalinha da recepção. Estratégia, nesse contexto, não tem a ver com inventar personagens. Isso costuma ser percebido rapidamente. O trabalho real consiste em organizar a história que o candidato já tem, com seus conflitos, limites e aprendizados, de forma coerente com o momento da campanha.
É nesse ponto que dados e inteligência estratégica cumprem um papel importante. Eles ajudam a sustentar o que está sendo dito, a calibrar a narrativa e a evitar dissonâncias evidentes. Sem dados, a história perde consistência. Sem estratégia, vira improviso. Em 2026, não basta ter uma boa história. Ela precisa fazer sentido no tempo certo, dialogar com o clima emocional do eleitor e estar ancorada na realidade. E, principalmente, precisa encontrar alguém disposto a escutar.
Empatia não se constrói por fórmula. Ela surge quando realidade, narrativa e consciência se encontram de forma honesta. Talvez por isso campanhas que fazem sentido tendam a ir mais longe do que aquelas que apenas prometem mais. No fim, a pergunta central não é apenas o que será dito pelo candidato, mas se existe, de fato, uma história a ser contada. E se o eleitor consegue se reconhecer nela. Porque o voto passa pela escuta. E a escuta começa quando há empatia.
Chie Chikazawa é formada em Marketing e lidera a Umma.



