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Eleições 2026 vão conseguir ir além da polarização?

Candidatos à presidência 2026
Alguns dos pré-candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026 (Foto: Fotomontagem Gazeta do Povo (Dirceu Aurélio/Governo MG | Carlos Moura/Agência Senado | Ricardo Stuckert/PR | Reprodução/Youtube MBL Oficial | Secom-GO))

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Há cerca de 10 meses esbocei neste jornal um diagnóstico para as eleições deste ano: os dois nomes polarizantes nacionais estavam feridos de desgaste sem mais remissão possível e a disputa não seria decidida por uma grande jogada de um ou outro neste xadrez, pois suas peças mais eficazes foram derrubadas ao longo dos anos. Complementei com um prognóstico: os generais do centrão – Kassab, em particular – manobrariam por baixo do tabuleiro para que um candidato, politicamente fraco, porém mais alinhado e dependente do sistema, galgasse finalmente a rampa do Palácio do Planalto. E o nome que me parecia caber melhor nesse perfil era o de Ratinho Junior.

Apesar de todo o hype atual com os números de Flávio Bolsonaro, mantenho aquele diagnóstico. Nem a intervenção americana com as tarifas e contra o judiciário foi capaz de dar vida nova à polarização de forma duradoura. Porém, contrariando meu prognóstico, os generais e almirantes do centrão prosseguiram nesses 10 meses com a postura de sempre: jogar parados, evitando riscos e optando, em todas as circunstâncias, por compor ao invés de se contrapor.

Esperava, sim, que jogassem abertamente contra o bolsonarismo (contra Eduardo e Flávio, em especial) forçando um espaço para a tal da “terceira via” entre os milhões antipetistas, mas, pelas circunstâncias (condenação, prisão e doença do Jair) e pela força do hábito, nada fizeram. A recente candidatura de Caiado, como mais novo expoente dessa “terceira via”, foi uma efeméride irrelevante para a disputa presidencial. Caiado lançou, de fato, sua pré-candidatura a ser ministro de Flávio Bolsonaro, exatamente como fez Simone Tebet em relação a Lula nas eleições de 2022 – e não há nada de errado nisso.

Com o desgaste e a inação dos donos do jogo, abre-se um imenso vácuo de ação política e representatividade. E aqui cabe uma previsão, pouco ousada: nas eleições de 2022, o número de abstenções, votos em branco e nulo foi 66,7% da votação do vencedor presidencial no primeiro turno (Lula) e 62,8% da sua votação no segundo turno; neste ano, certamente ultrapassaremos o patamar de 70% nos dois turnos da eleição, um marco sinistro e desabonador para a legitimidade das instituições e da democracia. São números que falam por si mesmos.

A verdadeira disputa não será entre candidatos, mas de cada candidato contra a gigantesca motivação, em boa parte da população, de não votar em ninguém

Dos outros nomes ventilados como pré-candidatos às eleições, o único com militância própria – e até o próprio partido –, além de posicionamento firme e consistente contra os dois nomes donos da polarização, é Renan Santos. Somando a isso seu crescimento acelerado entre jovens de todas as regiões e o fato de que já desponta em algumas pesquisas em terceiro ou quarto lugar, ainda sob o domo de silêncio constrangido da grande mídia, parece-me natural esperar uma disputa real entre Lula, Flávio, Renan e mais ninguém.

Renan revive o espírito da candidatura de Bolsonaro nas eleições de 2018, o “vamos mudar tudo isso daí, não dá pra ficar nessa vaselina”, mas com propostas mais concretas de ampla reforma urbana visando a desfavelização para desencastelar o crime organizado, guerra total às facções e tratamento jurídico restritivo para faccionados inspirado no Direito Penal do Inimigo do jurista Günther Jakobs (tratar faccionados como terroristas e insurgentes, em essência), desenvolvimento do norte/nordeste com intervenção profunda do poder federal em detrimento dos coronéis locais (um esquecido tema desenvolvimentista, outrora emcampado e depois abandonado pela esquerda e que remete à revolução de 1930), a dinamização agressiva da economia e do mercado de trabalho para superarmos o abismo de improdutividade e defasagem e a substituição gradual do assistencalismo eleitoreiro petista por mutirões de trabalho nas áreas mais pobres.

Ao invés dos apelos genéricos, vazios ao militarismo, discursos abstratos de defesa da família ou contra as instituições e uso de máximas gastas como “bandido bom é bandido morto”, que tanto espaço ocuparam na retórica bolsonarista, Renan formula um conjuto de propostas concretas, específicas, bem delimitidas e pelas quais poderá ser cobrado no futuro. Ao detalhá-las em livro – o Livro Amarelo –, sua candidatura traz algo inédito entre nós, apesar da prática ser padrão no primeiro mundo: um grupo político que explica longamente em papel impresso o que pretende fazer, ao invés de só enunciar sonoramente promessas que o primeiro vento leva.

O ponto mais alto do diagnóstico do Brasil pelo MBL, para mim, é a observação de que nosso maior câncer, nossa ferida mais purulenta e nociva não é o “racismo estrutural”, os incels, redpills e a “cultura do estupro” ou o “neonazifascismo golpista”, como quer a esquerda, ou, por outro lado, o inchaço ineficiente do Estado, o alastramento do crime ou a prostração
econômica, como sempre apontou a direita mainstream (problemas reais aos quais as propostas que citei se direcionam), mas, sim, o mal mais tóxico reside em um âmbito no qual nossos políticos jamais atentaram e se debruçaram: a disfuncionalidade de muitíssimas famílias pobres pela ausência covarde e negligente da figura paterna.

O Brasil talvez seja o único país do mundo – sem guerra declarada – no qual o número de certidiões de nascimento sem o nome do pai cresce todos os anos, segundo dados oficiais. O MBL acerta em identificar aí a verdadeira raiz da explosão de crime que varre todas as regiões, pois meninos pobres sem boas referências masculinas em casa, na escola ou na cultura, chegada a adolescência, buscarão tais referências naqueles que ostentam poder e autoridade onde esses meninos moram: os capitães do tráfico, os “frentes”, que diariamente desfilam, impunes, em frente às casa desses mesmos meninos, sem camisa, peito estufado sob os cordões grossos de ouro, AR-15 erguido no braço, bolso transbordante de notas e o onipresente som de funk ao fundo.

Aplicar a estrutura da educação pública para tratar o drama do abandono parental por meio de programas direcionados a identificar e dar acompanhamento de perto a esses meninos, ao mesmo tempo que os donos dos morros são derrubados, o Estado se faz presente nessas áreas e os propagandistas da cultura do crime são devidamente calados e reprimidos.

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A iniciativa da lei anti-Oruam não possuia como alvo um “estilo musical” por “racismo” e “ódio aos pobres”, sua motivação primeira era e é a proteção dessa “juventude negra e periférica”, como a apelida a esquerda, contra toda uma cultura de aliciadores que vê nesses garotos uma carne disponível e descartável para a engrenagem bilionária, multinacional do tráfico. A guerra à instrumentalização do funk e afins pelo crime deveria ser o artigo número um do ECA e da tal “lei da misoginia” – pois essa mesma cultura objetifica ao último grau meninas pobres menores de idade, as “novinhas” – se tais instrumentos estivessem afinados com a realidade brasileira atual.

E é nesse quadro que o Partido Missão se projeta como uma nova e forte barreira pró-vida no cenário brasileiro, atrelando a manutenção da legislação restritiva em vigor – nas palavras de Renan Santos, uma “clausula pétrea” do
Partido – a uma proposta de acolhida e proteção a essas “vidas negras” (e pardas) que a esquerda luta para que possam ser abortadas no SUS e que a direita mainstream, extarcisista ou filobolsonarista, ignora.

Como serão recebidas pela população, nas eleições deste ano, propostas tão ambiciosas e detalhadas? Provavelmente, e em grande parte, com ceticismo, infelizmente. A mesma erosão da política que permite que um nome periférico como Renan projete-se ao primeiro plano também tolhe seus passos e mantém fechados, para ele, os ouvidos de eleitores que já desacreditam de toda esperança. Como o próprio Renan parece entender, se puder abrir um caminho para o seu nome, não será tanto pelo arado dos bons projetos, mas sobretudo pela espada da polêmica.

A estratégia discursiva vencedora para ele, se é que existe, passa por não tanto se apresentar como a melhor alternativa, mas escancarar a percepção, que já é prevalente, de que não há mais alternativas a serem consideradas a não ser o impulso derradeiro para uma virada de chave radical e definitiva. Foi só assim que Milei chegou lá.

Além disso, sua candidatura nestas eleições será a primeira "nativa digital" em nosso histórico presidencial, a primeira não só cultivada nas redes (como Bolsonaro em 2018), mas antes imaginada, sondada e falada longamente em lives públicas nos canais do MBL ao correr dos últimos anos. É um novo paradigma de construção política entre nós, no qual a parte mais decisiva e delicada da candidatura, sua concepção mesma, não foi costurada em encontros privados em restaurantes de luxo, em gabinetes obscuros e inacessíveis de Brasília, mas conversada informalmente, na ágora virtual, entre interessados, haters, trolls e curiosos.

O contraste entre essa origem de candidatura e os aborrecidos conciliábulos kassabônicos entre Caiado, Leite, Zema, assessores, marketeiros e advogados, por um lado, ou uma candidatura decidida solitariamente na cadeia por um senhor convalescente, por outro lado – é abissal.

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Contudo, ainda que Renan e sua colorida banda de rock alternativo saiam voando pelos céus dardejando o "raio privatizador" – meme fundador da nova direita em 2014 – sobre seus adversários, nem tal feito apagaria o protagonismo do verdadeiro nome destas eleições: Daniel Vorcaro. A bomba Banco Master não elegerá Lula, Flávio ou Renan, mas contribuirá para converter a polarização incendiária de 2014, 2018 e 2022 numa disputa indigesta, desagradável e pouco significativa para a maior parte da população. A verdadeira disputa não será entre candidatos, mas de cada candidato contra a gigantesca motivação, em boa parte da população, de não votar em ninguém.

Dos três eixos que perfazem o triângulo de linhas de tiro entre Lula, Flávio e Renan nas eleições, o único que promete suscitar novas emoções no público é aquele entre Renan e Flávio. Pela primeira vez, um Bolsonaro se confrontará com um adversário da nova direita, um ex-aliado, que não o tachará levianamente de "fascista" ou o imputará "não se importar com os pobres", mas sim o interpelará como traidor e covarde.

Trará ao centro do debate a célebre e extensa "lista de traições" que Jair teria cometido contra os conservadores que o elegeram e o discutível currículo de Flávio como combatente verde-e-amarelo. Neste ponto, o apoio de Flávio ao “garantismo” de Kássio Nunes e sua oposição à CPI Lava-Toga, em 2019, serão lembrados.

Em resposta, Flávio e seus porta-vozes, provavelmente com eco de parte da esquerda na grande mídia, trarão a um público muito maior questões até então internas da direita, que jamais tinham passado na TV aberta, como a questionável opção do MBL pelo voto nulo nas eleições de 2022, seu entusiasmo passado por figuras como João Dória e Michel Temer (que nomeou Alexandre de Moraes), sua breve e malfadada tentativa de aproximação com o PSOL em 2021 (em troca, poucos meses depois, receberam a punhalada pelas costas da cassação, em vários níveis ilegal, do Arthur do Val na Alesp) e a relação variante do Movimento com o governador Tarcísio e o prefeito Ricardo Nunes. Ex-MBLs e atuais adversários do Movimento como Fernando Holiday, Lucas Pavanato e Gabriel Costenaro serão, talvez, convocados pela campanha de Flávio e desfrutarão um instante de visibilidade nacional. E há boa chance de ouvirmos novamente, agora em pleno horário eleitoral, o velho áudio constrangedor de Arthur do Val e o recente, esse macabro e revoltante, de Guto Zacarias.

Contudo, o ponto mais sensível da campanha de Renan nas eleições deste ano são suas várias declarações que soam como futuras autorizações à polícia para execuções extrajudiciais de líderes criminosos. Policiais que se sintam autorizados a executar quem eles considerem “perigoso demais para permanecer vivo”, no instante seguinte, usarão esse mesmo poder para assassinar qualquer um que lhes interesse calar e roubar, se preciso, forjando confrontos e o uso da legítima defesa.

Essa é a velha história dos esquadrões da morte e das milícias cariocas. Renan fará muito bem se se posicionar de forma clara neste ponto à medida que atinge um público para além da bolha direitista. Aliás, é difícil de imaginar que o STF eventualmente engula a decretação presidencial de um “estado de defesa”, como Renan propõe para combater o crime, após uma campanha tecida com essas falas.

Além disso, sua proposta de reintroduzir a pena de morte é incompatível com 150 anos de jurisprudência e história nacionais: a última execução, após o devido processo legal, de civil (um escravo) no Brasil foi em 28 de abril de 1876, antes de Pedro II se recusar a autorizar qualquer nova execução sob seu reinado. As constituições de 1890, 1934, 1946, 1967 e 1988 vedaram textualmente a pena de morte para civis. Como ainda estamos na pré-campanha, suponho que a volta da pena de morte seja, na verdade, apenas uma proposta de longo prazo (hipotética e improvável) do Partido e não efetivamente uma parte da campanha para 2026.

Outro ponto sensível, para parte do eleitorado, é a falta de posição sobre a anistia aos condenados do 8 de janeiro. Renan alegou algumas vezes, nos últimos meses, que este tema não teria a importância candente dada pelo bolsonarismo, que as questões de segurança pública, por exemplo, seriam muito mais urgentes objetivamente e também na percepção da maioria dos eleitores, em especial para a maioria alheia aos focos da polarização.

Ao mesmo tempo, um tema recorrente nas lives de Renan é a ideia de que a luta em conjunto da sociedade para eliminar o crime organizado, com a consequente morte de várias das suas lideranças, selaria um novo pacto social entre nós, uma nova ordem de instituições e de valores forjada no árduo esforço comum para derruir o inimigo comum sanguinário.

Contudo, alguém parece já ter pensado em alguma coisa análoga antes: ao condenar, por um megaespetáculo midiático e judiciário, pessoas de baixa escolaridade, manipuladas por anos, afastadas de suas famílias e redes de apoio, sem poder de Estado, sem armas, sem influência, a penas devidas pelo crime de golpe de Estado – outrora chamado crime de alta traição e punido com tortura pública seguida de execução vexatória –, Alexandre de Moraes e sua corte no pináculo do judiciário já selaram um novo pacto entre juristas, políticos, intelectuais e jornalistas, e até um nome foi aventado para o novo regime: “democracia militante”.

Ao seduzir e cooptar tantos “defensores dos direitos humanos” a chancelar publicamente as penas do 8 de janeiro, uma nova ordem de instituições e de valores já foi estabelecida sobre a anterior. E é tarefa para um novo presidente desfazer e denunciar esse pacto macabro, que, ainda em plena vigência, tem servido e servirá de base para violações de direitos e arbitrariedades cada vez mais cavalares – ou, mais precisamente, 129 milhões de arbitrariedades.

Em outro plano e olhando para 2030, um momento importante da longa marcha pré-presidencial de Nikolas Ferreira será seu posicionamento frente à artilharia Renan-Flávio. E eu aposto que escutaremos um silêncio quase total dos mais significativos.

Em suma, é impossível antecipar o efeito final que tudo isso terá nas eleições, mas, seguramente, a performance de Renan será barulhenta e disruptiva, o que, somado ao geral defesso com os nomes principais e o lamaçal do Master, fará da disputa das eleições este ano, ao invés do dueto ensaiado de vitupérios de 2022 entre dois tenores, uma diafonia fervente e imprevisível face a um público um tanto distraído – como, aliás, costumam ser os shows de bandas alternativas no Brasil.

Guilherme Hobbs é escritor, analista de dados e programador.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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