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Muitos já ouviram falar de uma estratégia bastante conhecida nas corridas de longa distância: o uso do chamado coelho. Trata-se de um corredor que é colocado na prova para impor um ritmo forte desde o início, chamar a atenção dos demais competidores e forçar uma queda no tempo médio da maratona ou desgastar os adversários. Pode não parecer, mas esse recurso ajuda a entender o lançamento de nomes alguns nomes como pré-candidatos a presidente.
Fazendo um paralelo com esse conceito esportivo, estabeleci o que chamo de “estratégia do coelho” aplicada a um projeto eleitoral. Essa estratégia consiste em lançar, de forma antecipada e calculada, um nome como potencial candidato, com o objetivo de atrair o foco das críticas, das resistências e dos ataques da oposição. Esse nome passa a concentrar sobre si o desgaste político, enquanto o verdadeiro candidato é preparado para o momento decisivo. Dessa forma, quando chega o tempo certo – o equivalente ao sprint final –, o candidato principal encontra um terreno muito menos hostil, com menor resistência, menos rejeição acumulada e maior capacidade de penetrar em clusters estratégicos do eleitorado.
A “estratégia do coelho” aplicada a um projeto eleitoral consiste em lançar, de forma antecipada e calculada, um nome como potencial candidato, com o objetivo de atrair o foco das críticas, das resistências e dos ataques da oposição
Quem poderia afirmar, há dois meses, que Flávio Bolsonaro seria um candidato competitivo para a eleição presidencial de 2026? Praticamente ninguém. Até cerca de dois anos atrás, não se falava em outro nome que não Jair Messias Bolsonaro, que, pelo seu histórico político e eleitoral, aparecia como o candidato natural da direita. Toda a mídia e todo o sistema de oposição, liderado pelo PT, concentravam sua artilharia exclusivamente no pai Bolsonaro. Isso se intensificava pelo fato de Jair Bolsonaro representar uma figura que desafiava o próprio sistema político estabelecido há décadas no país – um sistema que influencia profundamente os rumos das decisões econômicas e políticas brasileiras.
Há cerca de um ano, surge um novo “coelho” nessa corrida: Eduardo Bolsonaro. Visto por muitos como o filho mais preparado para suceder o pai, deputado federal mais votado da história do Brasil, com mais de um milhão e meio de votos, fluente em idiomas, com boa postura institucional, pautas claras e reconhecimento internacional – inclusive do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Eduardo, por decisão própria, assumiu uma postura política que o colocou naturalmente na condição de novo coelho da corrida eleitoral de 2026. Com isso, passou a atrair grande atenção, sendo intensamente atacado pela esquerda, por parte da mídia e por articulações de bastidores do sistema. Seu nome passou a ser testado em pesquisas e discutido como possível candidato à Presidência, concentrando novamente o foco da oposição. E no dia 5 de dezembro de 2025, surge Flávio Bolsonaro.
Ele não era percebido como um nome de forte expressão nacional, nem pela ala bolsonarista e muito menos pela população em geral. Sempre esteve associado à figura do pai, muitas vezes citado apenas em contextos explorados pela mídia para atingir Jair Bolsonaro. Também era criticado por setores da direita por não adotar posturas extremadas, por dialogar com diferentes atores políticos e por transitar com desenvoltura entre campos diversos no Senado – o que o afastava do estereótipo do “candidato potencial”.
Por essas razões, nem a direita mais ideológica, nem a mídia, nem a classe política tradicional o enxergavam como alguém com viabilidade real para disputar a Presidência da República. Agora, porém, as pesquisas começam a mostrar claramente sua competitividade, o que tem causado surpresa. Quem pensou essa estratégia? Foi o acaso? Foi apenas circunstância?
Com a saída de cena dos dois “coelhos” – Jair e Eduardo –, Flávio pode chegar à reta final da corrida presidencial e o sprint decisivo. Ele herda o capital político do pai, demonstra desenvoltura, defende as bandeiras da direita. Quem, há apenas dois meses, imaginaria o surgimento de seu nome como candidato? Não se trata de mera coincidência ou acaso, mas uma estratégia sofisticada.
Pedro Coelho, doutor em Recursos Naturais, mestre em Estatística e graduado em Matemática, é consultor do Grupo 6 Sigma.



