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Para diversos setores produtivos, a água é um insumo indispensável. Indústrias químicas, alimentícias, metalúrgicas, farmacêuticas e uma série de outras atividades dependem diretamente de sua disponibilidade para manter suas operações. Quando há restrições de captação, aumento de custos ou instabilidade no abastecimento, o impacto se reflete rapidamente na produção.
Esse cenário tem levado empresas a rever a forma como tratam a gestão hídrica. Durante muito tempo, a água foi vista sobretudo como um recurso disponível e relativamente previsível. Hoje, em um contexto de maior pressão sobre os recursos naturais, ela passa a ocupar um espaço crescente nas discussões estratégicas.
Mais do que discursos bonitos sobre sustentabilidade, o que fará a diferença para o futuro do planeta é a maneira como as empresas usam, tratam e devolvem a água à natureza
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. De acordo com dados do World Resources Institute (WRI), cerca de metade da população mundial enfrenta escassez severa de água em algum período do ano, enquanto ao menos 25 países já operam sob condições de estresse hídrico extremo, consumindo mais de 80% de seus recursos renováveis disponíveis.
Para o setor produtivo, esse quadro reforça a necessidade de incorporar a gestão da água às estratégias de longo prazo. A questão deixa de ser apenas o cumprimento de normas ambientais e passa a envolver eficiência operacional, segurança das cadeias produtivas e gestão de riscos.
Nesse processo, grandes consumidores de água têm papel particularmente relevante. Indústrias e grandes empreendimentos concentram volumes expressivos de captação e também são responsáveis por parcela significativa da geração de efluentes. A forma como estruturam seus sistemas de tratamento, monitoramento e reaproveitamento influencia diretamente no equilíbrio ambiental e na disponibilidade de recursos nas regiões onde operam.
Cada vez mais há o entendimento de que iniciativas como o tratamento adequado de efluentes e o reúso de água podem contribuir para reduzir riscos operacionais e ampliar a eficiência das operações.
Projetos estruturados de reúso permitem transformar efluentes em recurso, diminuindo a dependência de fontes externas de abastecimento e reduzindo o consumo de água potável. Dependendo das características do processo produtivo e das tecnologias empregadas, esse tipo de solução pode reduzir significativamente o volume de água captado pelas empresas.
Além dos ganhos operacionais, essas iniciativas dialogam diretamente com a agenda ESG, que vem orientando cada vez mais decisões corporativas e investimentos. No campo ambiental, a eficiência hídrica contribui para preservar mananciais e reduzir a pressão sobre os recursos naturais. No aspecto social, a gestão responsável da água ajuda a evitar a competição direta entre uso industrial e abastecimento da população. Já no campo da governança, políticas claras de monitoramento, tratamento e reúso fortalecem o cumprimento da legislação ambiental e ampliam a transparência na gestão de indicadores.
Em tempos de aceleração das mudanças climáticas, é preciso mudar radicalmente a forma como as empresas lidam com a água. Se durante décadas ela foi tratada como um bem garantido, hoje, em um cenário de maior pressão sobre sua disponibilidade, é preciso encará-la como um fator de eficiência, resiliência e competitividade. Afinal, mais do que discursos bonitos sobre sustentabilidade, o que fará a diferença para o futuro do planeta é a maneira como as empresas usam, tratam e devolvem esse recurso à natureza.
Fernando Carvalho, diretor-presidente da Opersan, é pós-graduado em controladoria pela Fundação Getulio Vargas, com MBA em gestão empresarial pela Kelley Business School e pela Fundação Instituto de Administração.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







