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Quase dois anos após a maior enchente da história do Rio Grande do Sul, o retrato da reconstrução é constrangedor: nenhuma obra de recuperação de estradas e pontes foi entregue. Não é discurso de oposição, não é exagero de rede social. É dado oficial, fornecido pelo próprio governo ao levantamento do jornal Correio do Povo. Quarenta e oito obras previstas, bilhões anunciados, discursos emocionados e zero resultado concreto para a população.
O governo divulga que já “investiu três bilhões de reais” na reconstrução após a enchente. Mas investimento que não vira obra concluída é só número em planilha, é propaganda e marketing. Estradas continuam esburacadas, pontes seguem interditadas, comunidades permanecem isoladas e a economia do interior segue pagando a conta da incompetência administrativa. Falar em bilhões é fácil; difícil é entregar.
A mesma tragédia, duas respostas completamente diferentes: de um lado, o poder público travado; do outro, a sociedade organizada entregando soluções palpáveis em tempo recorde
A verdade é que, 21 meses depois do desastre, 60% dos projetos ainda estão no papel. Muitos sequer saíram da fase de estudos. Enquanto isso, o governador percorre o estado em campanha antecipada, vendendo uma imagem de gestor eficiente, como se o Rio Grande do Sul estivesse reconstruído. Não está. O discurso não resiste a cinco minutos de realidade nas rodovias estaduais.
O contraste é revoltante: de um lado, famílias que perderam tudo com a enchente, produtores rurais com dificuldade para escoar a produção, cidades que ainda convivem com desvios improvisados. Do outro, um governo que prefere pandeiro e anúncios a enfrentar a burocracia, acelerar licenças, cobrar resultados e transformar promessa em obra entregue.
Nem mesmo o argumento da “complexidade técnica” se sustenta. Desastres exigem liderança, prioridade e senso de urgência. Outros estados e países enfrentaram tragédias semelhantes e reconstruíram muito mais rápido. Aqui, o que se vê é lentidão, falta de gestão e um governador que canta melhor do que governa, além de um vice que quer ser governador, mas anda mais preocupado em fazer vídeo para o TikTok do que em cobrar execução real das obras.
O Rio Grande do Sul não precisa de mais marketing político. Precisa de um governo que funcione. Que entregue ponte de verdade, asfalto de verdade, solução de verdade. A reconstrução pós-enchente deveria ser a grande prioridade desta gestão. Virou apenas peça de discurso eleitoral.
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E é justamente nesse ponto que o contraste com a iniciativa privada escancara ainda mais a ineficiência pública. Enquanto o governo se perdia em anúncios e burocracia, entidades empresariais e organizações civis arregaçaram as mangas e fizeram acontecer. O programa Reconstrói RS, articulado por instituições como o Instituto Ling, a Federasul e o Instituto Cultural Floresta, entregou resultados concretos. Foram 57 projetos de infraestrutura executados em 29 municípios, com obras de contenção, drenagem, pontes, pavimentação e saneamento já concluídas. Além disso, foram destinados R$ 20 milhões para um fundo de estímulo à retomada econômica, apoiando pequenos e médios empreendedores, educação e saúde nas regiões atingidas.
Tudo isso sem a máquina estatal, sem discursos grandiosos e sem palanque. Apenas com gestão, cooperação e foco em resolver problemas reais. A mesma tragédia, duas respostas completamente diferentes: de um lado, o poder público travado; do outro, a sociedade organizada entregando soluções palpáveis em tempo recorde. A comparação é incômoda, mas necessária.
A solução para esse impasse é simples e passa pelas urnas. O Estado precisa virar a página. Precisa de um governo que trate infraestrutura como assunto sério, com metas claras, cronogramas cumpridos e respeito ao dinheiro público. Não dá para continuar nas mãos de quem anuncia bilhões e entrega nada.
Tiago Albrecht é vereador de Porto Alegre e líder da Bancada do NOVO.



