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O Brasil passou a tratar o endividamento como parte natural da vida financeira, e esse talvez seja o sinal mais preocupante da crise atual. O problema não está apenas no número de pessoas com contas em atraso, mas na naturalização de um orçamento permanentemente comprometido. Quando milhões de famílias precisam recorrer ao cartão de crédito, ao empréstimo ou à renegociação para atravessar o mês, a dívida deixa de ser exceção e vira mecanismo de sobrevivência. Esse modelo sustenta o consumo no curto prazo, porém corrói renda, segurança e capacidade de planejamento.
Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, o país registrava mais de 77 milhões de consumidores inadimplentes em 2025, enquanto levantamento da Serasa, repercutido pelo InfoMoney, apontou que o Brasil chegou a 9 milhões de CNPJs negativados em abril de 2026. Esses dados mostram que a crise não está restrita às famílias.
Ela atravessa também micro e pequenas empresas, que operam com margens apertadas, pouco fôlego de caixa e acesso limitado a crédito saudável. Quando o consumidor se endivida, compra menos. Quando a empresa se endivida, investe menos, atrasa fornecedores, reduz contratações e reforça o mesmo ciclo de fragilidade econômica.
Enquanto o Brasil continuar confundindo acesso ao crédito com inclusão financeira, seguirá empurrando famílias e negócios para uma prosperidade aparente, financiada por dívidas que cobram caro demais
O custo do crédito é um dos motores dessa engrenagem. No Brasil, errar no uso do cartão de crédito ou do cheque especial não é apenas uma falha de planejamento, mas quase uma sentença financeira. Dados do Banco Central, divulgados em 2026, mostraram que os juros do rotativo do cartão ainda estavam acima de 400% ao ano.
Nesse ambiente, uma dívida pequena pode crescer mais rápido do que a renda de quem tenta pagá-la. A promessa de consumo imediato vira perda de controle, e a renegociação muitas vezes apenas troca uma dívida impagável por outra um pouco mais administrável.
Também seria confortável reduzir tudo à falta de educação financeira. Ela pesa, sem dúvida, porque grande parte da população nunca foi preparada para lidar com orçamento, juros compostos, reserva de emergência e decisões de crédito. Entretanto, essa explicação isolada é insuficiente.
O consumidor não decide em um ambiente neutro. Ele vive cercado por oferta de crédito rápido, parcelamentos longos, limites pré-aprovados e estímulos permanentes ao consumo. A expansão de bancos digitais e fintechs ampliou o acesso financeiro, o que foi positivo, mas também tornou mais fácil confundir limite disponível com renda real.
A situação fica ainda mais grave porque o endividamento avança mesmo em períodos de melhora do emprego e da renda. Isso revela uma falha estrutural no modo como famílias e empresas organizam suas finanças. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, 80,9% das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida em abril de 2026, o maior patamar da série histórica. Ou seja, não basta ganhar mais se toda a renda adicional for absorvida por parcelas, juros e compromissos assumidos antes de qualquer planejamento.
Romper esse ciclo exige mais do que campanhas pontuais de renegociação. O país precisa tratar o crédito como infraestrutura econômica, não como anestesia social. Isso passa por uma concessão mais responsável, pela redução sustentável do custo do dinheiro, pelo fortalecimento financeiro das pequenas empresas e pela educação financeira aplicada à vida real, não apenas a cartilhas abstratas.
Enquanto o Brasil continuar confundindo acesso ao crédito com inclusão financeira, seguirá empurrando famílias e negócios para uma prosperidade aparente, financiada por dívidas que cobram caro demais. O verdadeiro avanço será quando o crédito voltar a ser ferramenta de crescimento, e não o último recurso de quem já está sem margem para errar.
Paulo Bittencourt, graduado em Engenharia Naval e em Ciências Sociais e mestre em Negócios Internacionais, é estrategista-chefe da MZM Wealth e possui mais de 35 anos de experiência no mercado de capitais.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



