
Ouça este conteúdo
Guerra por procuração é quando duas potências evitam o choque direto e transferem a disputa para terceiros. Na geoeconomia, os instrumentos são sanções, tarifas, crédito, controle tecnológico e acesso a cadeias produtivas. O Brasil entrou nessa dinâmica da Nova Guerra Fria em razão de fatores estratégicos como mercado grande, recursos naturais e peso regional. Serve de campo de disputa e de prêmio.
Nesse sentido, Washington aplicou tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros após a investigação nos termos da Seção 301. A investigação tratou de comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. A explicação meramente econômica, ou seja, a de proteger setores americanos, explica parte da medida. Mas a seleção do conjunto dos temas se relaciona ao fator geopolítico dessa questão, porque o acesso ao mercado dos Estados Unidos virou instrumento de pressão na busca por alinhamentos com outros países dentro da rivalidade norte-americana com a China.
Procurar a China como resposta à pressão americana está se tornando alinhamento estratégico contra Washington para o atual governo. Nesse ponto, o país arrisca mais retaliações, menos acesso a mercados, capitais e tecnologias ocidentais e aprofunda uma dependência
Pequim reagiu. Xi Jinping declarou apoio ao Brasil contra interferências externas e propôs cooperação em inteligência artificial, satélites, fertilizantes e minerais críticos. Em tese, nessa relação, o Brasil ganha mercado, capital e respaldo diplomático. A China ganha alimentos, energia, minérios, escala e um parceiro com influência na América Latina.
Porém, considerando a dinâmica geoeconômica da Nova Guerra Fria, o cálculo chinês pode ser outro. A própria China anunciou que pretende "importar sem depender", com mais produção interna, mais fornecedores e menos vulnerabilidade em áreas como soja e proteína animal. O agronegócio brasileiro sente essa política de forma direta. Em 2026, Pequim decidiu impor uma cota sobre a carne bovina brasileira abaixo do volume exportado no ano anterior, e o que passar desse limite paga 55% de tarifa adicional.
Pequim pode, portanto, ampliar a relação política com Brasília e, ao mesmo tempo, trabalhar para depender menos do que o Brasil vende. Também pode recompor as compras agrícolas nos Estados Unidos se uma trégua com Washington lhe render vantagem, pois mercado conquistado durante a guerra tarifária não vem com garantia permanente.
Para as empresas, a consequência prática é tratar a geopolítica como variável de gestão de risco. Exportadores que concentram destinos estão expostos e precisam diversificar no atual cenário. Investidores precisam olhar tarifas, dependência tecnológica e concentração de clientes antes de decidirem. Cadeias de suprimentos que nunca foram testadas em um cenário de ruptura ou redirecionamento comercial continuam sendo uma incógnita.
VEJA TAMBÉM:
Para o Estado brasileiro, o cálculo é mais complicado. Procurar a China como resposta à pressão americana está se tornando alinhamento estratégico contra Washington para o atual governo. Nesse ponto, o país arrisca mais retaliações, menos acesso a mercados, capitais e tecnologias ocidentais e aprofunda uma dependência que a própria China trata de evitar do lado dela.
Portanto, autonomia e soberania não se conquistam na Nova Guerra Fria trocando uma vulnerabilidade por outra. Elas vêm de negociar com os dois lados e de transformar a rivalidade entre eles em capacidade produtiva, poder de barganha e segurança econômica.
Lucas Rodrigues Azambuja é doutor em Sociologia e professor no Centro Universitário IBMEC-BH.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



