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Bem-vindos à era do cérebro defendido: o bem mais escasso hoje no mundo é a confiança

Quando algo se torna infinito, deixa de valer. E o que ficou escasso, brutalmente escasso, foi a confiança. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Faça um teste rápido: pegue seu celular e conte quantas mensagens comerciais você recebeu hoje. O e-mail com “última chance”, a notificação com desconto que expira em oito minutos, o anúncio que jura conhecer você melhor do que sua mãe. Agora responda com honestidade: em quantas delas você acreditou, em quais teve confiança? Pois é. Ninguém mais acredita. E esse é o fato mais importante – e mais ignorado – do mercado de comunicação hoje.

Trabalho há mais de vinte anos com marcas e comportamento humano, e sou psicóloga antes de ser publicitária. Da minha cadeira, o que vejo é uma inversão histórica que a maior parte do mercado ainda não percebeu: a persuasão virou commodity. Com inteligência artificial, qualquer empresa produz mil peças de conteúdo por dia, cada uma tecnicamente “persuasiva”, recheada dos tais gatilhos mentais que viraram religião em curso de fim de semana. O custo de tentar convencer alguém despencou a quase zero.

Só que a economia é impiedosa: quando algo se torna infinito, deixa de valer. E o que ficou escasso – brutalmente escasso – foi a confiança.

A psicologia explica o porquê, e explica há décadas. Desde os anos 1990, a pesquisa sobre o que se chama de “conhecimento de persuasão” mostra que as pessoas aprendem a reconhecer tentativas de convencimento e, ao reconhecê-las, ativam defesas, barreiras à confiança. Some-se a isso um fenômeno ainda mais antigo: a reatância. Quando percebemos que alguém tenta nos empurrar para uma decisão, nossa reação instintiva é resistir, nem que seja só para reafirmar que a escolha é nossa. Complete-se esse quadro com o mecanismo mais básico de todos: a habituação. O estímulo repetido perde efeito. A urgência falsa da terça-feira não assusta mais na quinta.

Numa era em que a máquina falsifica entusiasmo, elogio e até intimidade com perfeição, a única coisa que ela não consegue falsificar é um histórico de palavra cumprida

O consumidor de 2026 é o produto acabado desses três processos rodando em escala industrial há uma década. Ele foi treinado, milhares de vezes por dia, a detectar manipulação. Chamo esse novo interlocutor de cérebro defendido: um cérebro que chega a qualquer mensagem comercial de guarda alta, escaneando o truque antes de ler a oferta. Ele não pergunta mais “isso me interessa?”. Pergunta: “o que estão tentando fazer comigo?”.

E aqui está a ironia que o mercado precisa encarar: a resposta da publicidade a esse cenário tem sido produzir mais. Mais conteúdo, mais automação, mais “personalização” que sabe o primeiro nome do cliente, mas não sabe absolutamente nada sobre ele. É como responder à desconfiança gritando mais alto. Cada peça genérica a mais não é neutra – é um depósito na conta do ceticismo. A marca que inunda o cliente de conteúdo sintético não está construindo presença; está ensinando, mensagem por mensagem, que a própria voz não vale a atenção.

O que funciona diante de um cérebro defendido? A resposta é quase constrangedora de tão pouco glamourosa: aquilo que sempre sustentou qualquer relação humana. Constância. Promessa pequena, cumprida sempre. Admitir o que o produto não faz – porque a franqueza sobre uma fraqueza é o sinal mais crível de honestidade sobre as forças. Falar menos vezes e ter algo a dizer quando fala.

Confiança não se “gatilha”; deposita-se, em parcelas miúdas, ao longo de anos. É lenta para construir e instantânea para destruir – e é exatamente por isso que virou o ativo mais caro do mercado. Tudo o que é raro e difícil de falsificar se valoriza. Numa era em que a máquina falsifica entusiasmo, elogio e até intimidade com perfeição, a única coisa que ela não consegue falsificar é um histórico de palavra cumprida.

Isso não é um manifesto contra a tecnologia – uso inteligência artificial todos os dias na minha operação, e ela é extraordinária para o que é: ferramenta de produção. O problema não é a máquina escrever. É a empresa achar que, porque escrever ficou fácil, a confiança também ficou. São mercadorias diferentes, com preços diferentes, e o mercado está prestes a descobrir isso da maneira mais cara.

É sobre essa fronteira – onde o comportamento humano encontra as marcas, o dinheiro e a tecnologia – que pretendo escrever neste espaço. Sem gatilho, sem fórmula mágica, sem prometer que existe um botão no cérebro do seu cliente esperando ser apertado. Não existe. Existe uma pessoa do outro lado, mais informada, mais cansada e mais defendida do que nunca.

E a primeira lição da psicologia para quem vive de comunicação talvez seja também a última: o consumidor não é bobo. Nunca foi. As marcas que partirem dessa premissa vão prosperar na era do cérebro defendido. As outras vão continuar otimizando o grito – para um público que já aprendeu a não ouvir.

Ligia Gottlieb é psicóloga, publicitária, sócia e CEO da YAD Comunicação & Marketing.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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