• Carregando...
 | Felipe Lima
| Foto: Felipe Lima

Janeiro de 1983: após cinco anos de uma lacuna triste, Curitiba voltava a ter o seu “Festival” de música novamente! Para mim, o timing foi providencial, pois havia participado como adolescente das duas últimas edições dos Festivais Internacionais de Curitiba, promovidos pela Pró-Música de Curitiba e apoiados pelo governo do Paraná, com direção do maestro Schnorrenberg. Em 1983 eu era recém-formado; foi ótimo ter o mês de janeiro para estudar música novamente. A importância destes eventos para mim, como pessoa, artista e professor, foi incalculável – a propósito, tanto a Camerata de Curitiba como a Orquestra Sinfônica do Paraná foram frutos desses festivais.

Esses eventos me ensinaram que férias não são momentos de “esquecer de aprender”, mas de diversificar a formação, como também da disciplina, estudo e prática diária. Lições de vida que a música (e o esporte) oferecem ao jovem em formação. Foi também nesta primeira Oficina de Música que seis jovens curitibanos foram recrutados e contratados para a recém-criada Orquestra Sinfônica da Bahia (eu inclusive, como violoncelista).

No cenário cultural pobre do Brasil, festivais bem gerenciados podem exercer papel fundamental

Titanic

A medida do prefeito Greca, ao cancelar ou adiar a realização da Oficina de Música, bem simboliza do que mais precisamos neste momento: responsabilidade

Leia o artigo de Vitor Puppi, secretário municipal de Planejamento, Finanças e Orçamento

No cenário cultural pobre do Brasil, festivais bem gerenciados podem exercer papel fundamental para a saúde das comunidades onde acontecem. Não apenas a saúde cultural, mas também a saúde mental de milhares de pessoas. Musicoterapia é um exemplo do vasto campo da utilização dos sons para a melhoria da saúde das pessoas e das cidades.

O que festivais devem ser? Eventos com foco educacional, workshops dinâmicos e concertos didáticos com preços acessíveis ou gratuitos. Estes concertos devem manter qualidade artística, mas ser ofertados em espaços urbanos diversificados (inclusive hospitais, asilos e creches, além de praças e auditórios). Festivais precisam utilizar ao máximo mecanismos de incentivo cultural e evitar tornarem-se vulneráveis em épocas de mudanças políticas.

O que festivais não devem ser? Eventos elitizados, com repertório de aceitação duvidosa, com artistas caros e recorrentes, com aulas de instrumentos extintos ou em vias de extinção. Estes devem também priorizar os habitantes locais nas suas inscrições. Já testemunhei grandes desperdícios desse tipo no Brasil.

Em 1993, já como professor da Michigan State University, realizei, durante a Oficina de Curitiba, talvez o primeiro curso de música e computadores (MIDI) no Brasil. Vejo hoje com admiração que esses cursos alcançaram grande magnitude e popularidade. Vale lembrar a vocação de Curitiba na questão da indústria do turismo. Esta, sem dúvida, é voltada para o turismo de eventos, inclusive os de natureza cultural.

A Oficina de Música de Curitiba pode ser mais barata? Sim. Pode ser mais eficiente e eficaz? Sim. Pode deixar de existir? Não! Caro amigo, prefeito Rafael Greca de Macedo: meu voto foi seu. Eu acreditava (e quero continuar acreditando) em sua capacidade, como homem público, de saber da importância da música na formação de uma sociedade mais justa e equilibrada. Por favor, devolva para Curitiba, tão logo possível, a nossa Oficina de Música! A cidade agradece.

Péricles Varella Gomes, PhD em Educação pela Michigan State University, é professor da PUCPR e da Universidade Positivo e fundador da Orquestra Sinfônica do Paraná.
0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]