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O início do ano letivo e a educação pós-industrial

Que as escolas permitam mais liberdade aos alunos para que eles desenvolvam seus conhecimentos intuitivos, flexibilizem os currículos e as grades para permitir que os estudantes persigam seus objetivos e deixem de subestimar o conhecimento prático e o senso comum (Foto: Element5 Digital/ Unsplash)

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Com o início do ano letivo, tornam-se comuns, em qualquer instituição de ensino do país, alguns desabafos entre os educadores. Quem é ou conhece algum professor, de ensino básico ou superior, já deve ter escutado comentários acerca da sobrecarga de trabalho, do mau desempenho das novas gerações e das incertezas do período de atribuição de aulas. Para além disso, deparam-se com as dúvidas sobre as turmas que abrirão (ou não) no semestre à frente, com a torcida para que aqueles alunos com boa performance no ano passado continuem nos projetos desse ano e sobre o impacto, positivo ou negativo, que a inteligência artificial terá nas aulas.

Com um quarto de hora a mais de conversa, e passados os desabafos mais imediatos, o assunto no círculo de docentes volta-se a um futuro mais distante: “por quanto tempo o atual modelo de escolas e faculdades sobreviverá?” Há inúmeras formas de refletir sobre essa temática, desde críticas à centralização do MEC, passando por avaliação das gestões estaduais até os aspectos emocionais e psicológicos das novas gerações. Porém, o que se vê de mais urgente por detrás dessas conversas – e que muitas vezes é ignorado – é a dúvida sobre a função e o objetivo da educação institucional nos dias de hoje.

Que as escolas permitam mais liberdade aos alunos para que eles desenvolvam seus conhecimentos intuitivos, flexibilizem os currículos e as grades para permitir que os estudantes persigam seus objetivos e deixem de subestimar o conhecimento prático e o senso comum

Uma vez que as escolas de ensino básico são colocadas contra a parede pelas propostas do ensino domiciliar, que o investimento no ensino superior é pressionado pelo baixo custo do EAD e que a utilidade dos cursos de internet e mentorias desafia as pós-graduações, é no início do ano letivo e durante o planejamento do semestre que recai sobre os docentes o peso de um sistema que não entrega o que promete.

Aproximadamente desde a década de 80 no Brasil – que é quando os educadores retomamos debates ocorridos nos anos 50 e 60 –, costuma-se dizer que o objetivo da educação é “formar um cidadão crítico”, que não atue em ofícios manuais, mas sim com o conhecimento capaz de mudar a realidade. Depois de cerca de 45 anos de formação desse tipo de cidadão, não parece que nossas instituições educacionais respondam de forma satisfatória aos questionamentos de seus agentes. Pelo contrário, o escritor e pesquisador Matthew B. Crawford, ao analisar a relação entre escola e mercado no contexto americano, em seu livro Shop Class as Soulcraft [Aula de Oficina Como Artesanato da Alma, em tradução livre] (2009), aponta para o desequilíbrio das matrizes curriculares. As escolas, relacionando-se com as demandas do mercado, passaram a separar as habilidades referentes ao “pensar” do conhecimento proveniente do “fazer”.

Assim, o autor aponta para o surgimento dos “trabalhadores do conhecimento”, aqueles que, em tese, estariam aptos a mudar a realidade da sociedade. O cidadão crítico prometido, vivendo em um futuro “pós-industrial”, sairia das escolas e faculdades na figura do “gestor”. Afastado da produção, teria a responsabilidade de coletar o conhecimento tradicional, simplificá-lo em regras, leis e fórmulas e aplicá-las aos colaboradores operacionais. O trabalho mental, que antes também fazia parte da operação, passa a ser concentrado em algum líder de departamento de planejamento. O efeito disso é que, desde a passagem do taylorismo para o fordismo, os trabalhadores com talentos múltiplos e, portanto, com alto custo de manutenção, vêm sendo substituídos por colaboradores menos habilidosos, resilientes à competição fabril e a salários mais baixos.

Com base nessa mudança, os ditos “trabalhos do futuro” estariam, assim, garantidos àqueles que possuíssem a capacidade de lidar com ideias e questões abstratas, ensinadas pelas escolas e faculdades, enquanto os empregos manuais tenderiam a perder valor. Contudo, como salienta Crawford, vender abstrações não é o mesmo que ensinar a pensar e, não se realizando a promessa do futuro pós-industrial em que os ofícios manuais não seriam tão valiosos, a formação curricular educacional vem, a cada ano, mostrando o quão distante está das demandas reais da sociedade.

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Tal dilema é mais bem observado quando um aluno ingressa no mercado de trabalho após se formar em qualquer etapa do sistema de ensino. Desde a matrícula em uma escola à seleção de vagas, eles são ensinados que autoconhecimento é, principalmente, observar seus aspectos demográficos e cognitivos. Submetem-se aos testes de personalidade, de necessidades socioeconômicas, vocacionais, de QI e a tantos outros que tendem a categorizar os ingressantes de acordo com os propósitos das instituições. Porém, essas variáveis restritas mascaram o fato de que os alunos e futuros colaboradores não tomam suas decisões baseadas nesses propósitos ou métricas, mas sim naquilo que Crawford chama de “disposições gerais”, os propósitos, os objetivos e as vontades próprias de cada indivíduo.

Quando essas disposições são atendidas ou um caminho mais próximo delas é oferecido, rapidamente as instituições de ensino esvaziam-se e a qualidade dos cursos cai. As IE, sem revisar as variáveis, penalizam o corpo docente, baixam a qualidade dos cursos e inserem novas disciplinas que buscam cumprir aquelas mesmas categorias restritivas. As empresas, ainda que tenham desenvolvido indicadores um pouco melhores, passam a ter carência de colaboradores habilidosos e a investir em funcionários de curto prazo em vez de longo, gerando alta rotatividade.

Na visão de Matthew B. Crawford, o que está em questão no final das contas é o descompasso dos currículos educacionais com os objetivos pessoais e individuais dos estudantes. Soma-se a isso, ainda, um possível mau direcionamento do mercado a respeito de quais habilidades espera dos formados. Enquanto as escolas valorizam os conhecimentos universais – que o autor chama de algorítmicos – acima do conhecimento intuitivo e prático, as empresas oscilam entre demandar gestores com conhecimento universal e cobrar instinto e proatividade de operadores.

Em um período em que se discutem os impactos da IA na educação e no mercado, escutar-se-á, por fim, entre os professores, que “é natural que os alunos cursem uma graduação atrás da outra enquanto buscam se conhecer” ou que “nós devemos ensinar habilidades emocionais e sociais para os alunos, pois é isso que demanda o mercado”. Porém, o texto de Crawford sugere talvez outra reflexão para o início de ano. Que as escolas, e por tabela as faculdades, permitam mais liberdade aos alunos para que eles desenvolvam seus conhecimentos intuitivos, flexibilizem os currículos e as grades para permitir que os estudantes persigam seus objetivos e deixem de subestimar o conhecimento prático e o senso comum – que também são fontes de aprendizado intelectual. Dessa forma, lançando mão da visão do autor, talvez possamos começar o ano refletindo sobre como formar, antes de pensadores críticos, pessoas autônomas mais competentes em realizar escolhas pessoais de acordo com suas disposições individuais.

Rodolfo Nogueira da Cruz é historiador e professor universitário. Autor dos livros "Escritos para ordenar o clero no reino de Castela" e "O Confessional e A Exposição da Missa de D. Afonso de Madrigal, o Tostado".

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