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O estelionato político do “pleno emprego” e da fome “moderada”

Subnutrição, fome – ainda que rotulada como “moderada” – e empregos precários não deveriam jamais ser motivo de comemoração. (Foto: Albari Rosa/Arquivo Gazeta do Povo)

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Emprego de qualidade e segurança alimentar são condições indissociáveis e deveriam balizar qualquer política pública séria de desenvolvimento social. No entanto, na gestão pública brasileira, esses conceitos nem sempre servem como parâmetro de eficiência. Narrativas que proclamam um suposto pleno emprego e a superação da pobreza e da fome acabam, muitas vezes, convertendo-se em um verdadeiro estelionato político.

No final de dezembro passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego atingiu 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025 – a menor desde 2012. O dado foi amplamente celebrado pelo governo federal como prova inequívoca de sucesso econômico e social.

A justificativa apresentada apoia-se em padrões internacionais: taxas reduzidas de desocupação seriam compatíveis com situações de pleno emprego, uma vez que algum nível de desemprego é considerado natural em razão da migração voluntária entre postos de trabalho, fenômeno intensificado no pós-pandemia. Para o Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos), por exemplo, o intervalo de pleno emprego situa-se entre 4% e 5%; na Zona do Euro, entre 6% e 7%, segundo o Banco Central Europeu. No Reino Unido, a referência gira em torno de 4% a 4,5%; no Canadá, próximo de 5%.

O que parece simples à primeira vista, contudo, esconde uma realidade muito mais complexa. O mercado de trabalho brasileiro não pode ser analisado de forma mecânica ou comparado diretamente ao de economias desenvolvidas. Taxas semelhantes de desocupação podem refletir realidades completamente distintas. O indicador de desemprego mede apenas quem não trabalha, está disponível e procura emprego; ele não capta a qualidade da ocupação, o grau de informalidade, o subemprego ou o desalento. Assim, o chamado “pleno emprego” pode ser apenas um constructo estatístico – distante da experiência concreta da maioria dos trabalhadores brasileiros.

Subnutrição, fome – ainda que rotulada como “moderada” – e empregos precários não deveriam jamais ser motivo de comemoração. São, antes, um retrato incômodo de fracasso social e um motivo de vergonha

É verdade que o IBGE segue os padrões estabelecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que define conceitos e metodologias utilizadas mundialmente. Ainda assim, o critério de classificação de “ocupado” é, no mínimo, permissivo: basta uma única hora trabalhada na semana – mesmo sem remuneração direta – para que o indivíduo seja considerado empregado. Atividades precárias, informais ou mesmo trocas de trabalho por alimentação ou moradia entram nessa conta. Na prática, uma cesta básica em troca de uma hora de trabalho já é suficiente para inflar artificialmente as estatísticas de ocupação e sustentar a narrativa do pleno emprego.

Além disso, os desalentados – cerca de 2,3% da força de trabalho, formados por pessoas que desistiram de procurar emprego – simplesmente não entram no cálculo do desemprego. Soma-se a isso a taxa de subutilização da força de trabalho, que alcança 13,5%, englobando milhões de brasileiros que sobrevivem de “bicos” ou trabalhos esporádicos, sem jornada regular ou remuneração adequada, mas que ainda assim são contabilizados como ocupados.

Na outra extremidade, a informalidade atinge aproximadamente 40% dos trabalhadores. Trata-se de uma realidade estrutural, associada à baixa escolaridade, ao elevado número de analfabetos funcionais, à fragilidade da educação básica, à baixa produtividade, à elevada carga tributária e à complexidade excessiva para formalizar negócios. Esses fatores empurram milhões de pessoas para ocupações precárias, que entram nas estatísticas como emprego, mas estão muito distantes da noção de trabalho digno.

Os próprios dados do IBGE, quando analisados em profundidade, ajudam a explicar por que o desemprego parece tão baixo, mas revelam um quadro muito menos comemorável: subemprego elevado, informalidade persistente e uma dependência crescente de programas de transferência de renda que distorcem os números e sustentam uma narrativa oficial ufanista. Na prática, trata-se de um estelionato político que se soma a outra construção retórica: a de que o Brasil teria saído do mapa da fome.

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Essa narrativa colide frontalmente com os dados da insegurança alimentar. A subnutrição atinge cerca de 2,5% da população; a insegurança alimentar grave, 3,4%; e a chamada insegurança alimentar moderada, 13,5%. Somadas, essas categorias alcançam quase 20% dos brasileiros – mais de 41 milhões de pessoas. Chamar de “moderada” uma condição em que o acesso aos alimentos é severamente limitado não a torna aceitável. Trata-se de fome, com efeitos diretos sobre o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças e consequências duradouras para a sociedade.

Subnutrição, fome – ainda que rotulada como “moderada” – e empregos precários não deveriam jamais ser motivo de comemoração. São, antes, um retrato incômodo de fracasso social e um motivo de vergonha à luz de qualquer parâmetro mínimo de dignidade humana e justiça social.

Eli Moreno é consultor corporativo e de políticas sociais sustentáveis.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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