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O esvaziamento da importância do pai na sociedade contemporânea
| Foto: Unsplash

Me lembro bem do momento em que meu filho completou cinco dias de nascido e o levei ao posto de saúde para fazer o "teste do pezinho". Na época, falei para a minha esposa esperar na porta da sala enquanto eu segurava nosso filho para a enfermeira furar seu calcanhar, pois muitas mães têm apreensão de ver o "sofrimento" do filho nesses exames. Meu garoto nem chorou, apenas fez "hmmmm" e voltou a dormir. Falei orgulhoso pra todo mundo que estava na fila de espera que ele é corajoso e fiquei imaginando tudo que vou ensiná-lo. E creio que esse é o maior sonho e receio de todo pai: como ensinar o filho a ser um homem.

Como Luigi Zoja nos ensina, existe uma cena especialmente tocante no poema épico Ilíada, onde lemos sobre a guerra de Tróia, que nos fala muito sobre a paternidade, ensino, valor dos filhos e casamento. Em um determinado momento, o herói Heitor retorna da batalha e procura sua esposa que, ao vê-lo, suspira de felicidade ao saber que ele está bem, mas implora para que ele não retorne para lutar, pois teme que ele possa morrer. Heitor diz que também tem esse medo e que no fundo do coração acredita que a cidade cairá ante o implacável ataque grego, mas que aprendeu a vida toda a ser forte, e que precisa estar na batalha, pois todos esperam que ele esteja, para lutarem lado a lado. E que, acima de tudo, quando todos forem pegos, ele só pode aceitar que levem sua esposa quando ele estiver morto depois de fazer tudo que poderia para salvá-la. Eles discutem, não conseguem se entender. Ela não compreende o dever dele, e ele não pode satisfazer a necessidade dela.

Se antes o pai era visto como essencial para a criação dos filhos, aquele que o transformaria em um homem, agora ele passou a ser encarado como uma figura descartável, um mero assessório.

Nisso seu filho, Astyanax, entra no quarto e começa a chorar de medo ao não reconhecer seu pai, porque Heitor estava com sua armadura, sujo de sangue, com seu intimidador elmo com crina de cavalo. Em uma análise psicanalítica vemos que os símbolos que valor e honra (armas e armadura) estavam justamente sendo aquilo que separava pai e filho naquele momento. A lembrança da matança que participara há pouco e a disposição melancólica com que falava com sua esposa era perigosa para sua relação paterna. Heitor então sorri para a esposa, que até então chorava, retira sua armadura, e pega seu filho em seus braços, levantando-o, fazendo o menino sorrir.

Vamos analisar essa cena tendo em mente que o símbolo materno que permeia os séculos é a imagem da mãe amamentando a criança enquanto olham-se de forma tenra. Essa é a expressão da maternidade reconhecida universalmente. Enquanto o pai tem sua simbologia no ato inspirado nessa cena de Heitor, herói da guerra de Tróia, e seu filho, quando ele ergue a criança e diz: "Que Zeus e os demais deuses façam que este meu filho seja forte, e que um dia ao voltar da batalha possam dizer 'ele é mais forte que seu pai!' ". Este ato simbólico de erguer o filho é a representação universal da paternidade.

Mas hoje a realidade é que esvaziamos o significado e a importância do pai em nossa sociedade. Se antes o pai era visto como essencial para a criação dos filhos, aquele que o transformaria em um homem, agora ele passou a ser encarado como uma figura descartável, um mero assessório, que seria capaz de fazer muito pouco pelos filhos. Mas, então, como um pai pode orientar seu filho hoje como sempre foi no decorrer da história humana? Com convívio.

Claro que a paternidade envolve lições e orientações, mas se existe algo que aprendemos ao olhar para Heitor e Astyanax é que a paternidade é essencialmente sobre convívio. Tudo irá partir da qualidade dos laços afetivos e emocionais entre pai e filho. Um pai afetuoso e envolvido na criação desenvolve a masculinidade de seu filho de forma muito mais eficaz que meramente estimulá-lo a um comportamento literalmente masculino.

Criamos meninos e meninas de formas diferentes, tendemos a ser mais carinhosos com meninas e mais exigente com meninos e realmente deve ser dessa forma. Entretanto, meninos também precisam sentir-se amados e cuidados para desenvolverem o comportamento heterossexual correto. O cuidado do pai com o filho é a chave para a ligação e identificação. Os meninos identificam-se muito mais com o pai e com o comportamento masculino se o pai for recompensador e afeiçoado com ele. "Você fez muito bem", "estou orgulhoso de você", "você é meu campeão!" são frases que fazem muito pelo desenvolvimento dos meninos e os colocam no caminho certo da vida.

Dessa forma, quais são os males que a ausência paterna pode causar no desenvolvimento saudável de meninos e meninas? A ausência paterna está relacionada com uma série de problemas comportamentais, dentre eles, os meninos cujos pais são ausentes tendem a exibir uma forma pensar mais feminina, pouca masculinidade, possuem maior dependência e menor agressividade, quando comparados a meninos que cresceram com o pai presente. Quando pensamos que ele foi criado pela avó, isso não é de forma alguma um preconceito, mas uma análise de um dado da realidade, pela total diferença comportamental. De forma que você cria uma "geração canguru", que se recusa a sair de casa e enfrentar a vida. Além de que, meninos criados sem o pai tendem a ser vistos tendo comportamento afeminado, criando vários problemas relacionais, principalmente os de ordem amorosa.

Preciso fazer uma pausa aqui para esclarecer uma questão: quando digo que é ruim que homens tenham um comportamento de mulher, não estou dizendo que o comportamento feminino seja em si ruim, como as feministas querem me acusar. O problema é o comportamento deslocado de seu lugar de origem e próprio. Por exemplo, quando eu digo para um adulto que ele está agindo como uma criança, ele entende isso como ofensa. Mas não por achar que o comportamento infantil seja ruim por si mesmo, mas porque está deslocado de seu local próprio: a infância.

Uma criança agindo como criança é bom, uma mulher agindo como mulher é bom. Mas deslocar esses comportamentos para fora de seus locais próprios é ruim. Por isso, homens agindo como mulheres será ruim, da mesma forma que mulheres (ou homens) agindo como crianças também será.

Mas continuando sobre os problemas da ausência paterna, precisamos entender que os pais são mais envolvidos no desenvolvimento sexual dos filhos e filhas que a mãe. E isso tem um desdobramento muito claro quando observamos que meninos sem presença paterna têm menos sucesso no ajuste heterossexual que aqueles que possuíam pais. Outro corpo de evidências sugere que problemas com papéis sexuais nos meninos com problemas de identidade sexual têm correlação com a ausência física ou com o distanciamento psicológico do pai na juventude.

Uma mulher emocionalmente sadia espera encontrar num homem determinadas atitudes, mas homens assim são incapazes de suprir essa necessidade, pois eles não sabem o que é o comportamento másculo natural. São aqueles homens atrapalhados quando tentam fazer algo que todos esperam que homens saibam fazer.

Antigamente tínhamos seriados televisivos como Papai Sabe Tudo que sedimentavam na sociedade a importância do pai ao reforçar uma imagem de liderança amorosa e segura, mas com o advento do progressismo e de toda ideologia pós-família, uma onda de desconstrução da figura paterna teve início, e que cobra um terrível preço na saúde emocional nos meninos de hoje. O que precisamos fazer é voltar a enxergar o pai como figura essencial como sempre foi no passado. Ou então serão os meninos que irão sofrer cada vez mais com essa ausência.

Felippe Chaves é marido, pai, professor, escritor, palestrante. Ensinando meninos a tornarem-se homens. Fundador da Fúria e Tradição.

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