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A excelência da odontologia brasileira não aconteceu por acaso

Falar de odontologia não é falar apenas de dentes. É falar de saúde, autoestima, alimentação, comunicação, desenvolvimento infantil, envelhecimento saudável e qualidade de vida. (Foto: Jonathan Borba/Unsplash )

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Quando pensamos em áreas nas quais o Brasil conquistou reconhecimento internacional, raramente a odontologia aparece entre as primeiras lembranças. No entanto, há décadas o país ocupa uma posição de protagonismo que desperta respeito nos principais centros científicos do mundo.

Hoje, o Brasil reúne o maior contingente de cirurgiões-dentistas do planeta, com mais de 450 mil profissionais em atividade. Mais do que isso, consolidou uma das comunidades científicas mais produtivas da área da saúde, com universidades reconhecidas internacionalmente, intensa produção acadêmica e profissionais que ocupam posições de destaque em instituições de ensino e pesquisa em diferentes países.

Nenhuma dessas conquistas aconteceu por acaso. A odontologia brasileira construiu sua reputação sobre uma combinação pouco comum de fatores: formação acadêmica consistente, pesquisa científica, capacidade de inovação, forte cultura de atualização profissional e, sobretudo, uma prática clínica que aprendeu a integrar tecnologia sem perder de vista aquilo que realmente importa: o paciente.

Ao longo das últimas décadas, acompanhamos uma transformação profunda da profissão. A odontologia tornou-se cada vez mais precisa, previsível e conservadora. Recursos como planejamento digital, scanners intraorais, impressão 3D, biomateriais, cirurgia guiada e, mais recentemente, a inteligência artificial ampliaram nossa capacidade diagnóstica e terapêutica de forma extraordinária.

O maior patrimônio da odontologia brasileira continua sendo o conhecimento construído por seus profissionais. É a capacidade de interpretar evidências científicas, tomar decisões clínicas responsáveis e compreender que cada paciente é único

Mas seria um equívoco imaginar que o protagonismo brasileiro decorre apenas da incorporação dessas tecnologias. A tecnologia, por si só, não produz excelência. Ela amplia a capacidade de quem está preparado para utilizá-la.

O maior patrimônio da odontologia brasileira continua sendo o conhecimento construído por seus profissionais. É a capacidade de interpretar evidências científicas, tomar decisões clínicas responsáveis e compreender que cada paciente é único. Nenhum software substitui o julgamento clínico. Nenhum algoritmo substitui a ética. Nenhuma inteligência artificial é capaz de reproduzir a experiência adquirida ao longo de anos de prática, estudo e convivência com pessoas.

Talvez esse seja justamente o maior diferencial do cirurgião-dentista brasileiro: a habilidade de combinar ciência, técnica e sensibilidade clínica. Esse perfil também ajuda a explicar outra característica muito própria da nossa profissão: a valorização da educação continuada. O diploma nunca foi encarado como ponto final. Congressos, cursos de aperfeiçoamento, especializações, mestrados e doutorados fazem parte da rotina de milhares de profissionais que compreendem que o conhecimento científico evolui diariamente e exige atualização permanente.

Essa cultura de aprendizado contínuo aproximou universidades, instituições de ensino, sociedades científicas e prática clínica, criando um ambiente extremamente favorável ao desenvolvimento da odontologia nacional.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que convivemos com desafios relevantes. O Brasil que forma alguns dos melhores profissionais do mundo também enfrenta desigualdades importantes na qualidade da formação oferecida por parte das instituições de ensino superior. O crescimento acelerado do número de cursos, associado a modelos de assistência que, em determinados contextos, priorizam a produtividade em detrimento da qualidade, exige atenção permanente das entidades de classe, das instituições de ensino e dos próprios profissionais.

Essa realidade, no entanto, não diminui nossa excelência. Ao contrário, reforça a necessidade de defendê-la. Fortalecer a educação continuada, valorizar a prática baseada em evidências, investir em pesquisa científica e preservar princípios éticos são compromissos indispensáveis para manter o Brasil na posição que conquistou.

Também precisamos ampliar o acesso da população à saúde bucal de qualidade. Afinal, falar de odontologia não é falar apenas de dentes. É falar de saúde, autoestima, alimentação, comunicação, desenvolvimento infantil, envelhecimento saudável e qualidade de vida. A boca nunca esteve separada do restante do organismo, e a ciência comprova isso de forma cada vez mais consistente.

O futuro da profissão será inevitavelmente mais digital, mais integrado e mais tecnológico. A inteligência artificial, por exemplo, já transforma diagnósticos, planejamentos e fluxos clínicos. Mas nenhuma inovação eliminará aquilo que sempre definiu a boa odontologia: a capacidade humana de acolher, interpretar, decidir e cuidar.

A tecnologia continuará evoluindo. O conhecimento também. Cabe a nós garantir que ambos caminhem na mesma direção. Foi assim que a odontologia brasileira conquistou reconhecimento internacional. E é assim que continuará sendo referência para as próximas gerações.

Sérgio Vieira, cirurgião-dentista, mestre e doutor em Dentística e especialista em Dentística, Periodontia e Radiologia, é presidente da Associação Brasileira de Odontologia – Seção Paraná (ABO-PR) e docente da UniABO-PR.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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