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O FBI, a Fifa e a ligação de Trump: a geopolítica do futebol dentro e fora das quatro linhas

Artilheiro dos EUA na Copa, o atacante Folarin Balogun poderá pode enfrentar a Bélgica mesmo tendo sido expulso na partida anterior. (Foto: BENJAMIN FANJOY/EFE/EPA)

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Folarin Balogun foi expulso na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia e, pelo regulamento, cumpriria suspensão automática. Não cumpriu. Depois de um telefonema de Donald Trump a Gianni Infantino, a Fifa invocou o artigo 27 de seu Código Disciplinar, liberando o artilheiro americano para as oitavas de final. Oficialmente, o presidente americano apenas "pediu uma revisão", e a entidade jura que nenhuma influência externa pesou na decisão.

A federação belga, adversária da vez, protestou, lembrando que todos os outros cartões vermelhos do torneio geraram suspensão automática. Mas o recado do episódio é claro: em um Mundial disputado em casa, uma ligação da Casa Branca pode flexibilizar uma regra válida para todos.

Quando o presidente de um país pega o telefone para falar com o líder da Fifa, fica evidente que as regras traçadas dentro das quatro linhas tendem a se ajustar aos interesses de quem tem força para desenhar o mapa do lado de fora

Isoladamente, seria apenas mais uma polêmica no futebol. No contexto da última década, é a face visível de um reordenamento de forças que atravessa o esporte e a política internacional.

Entre 2010 e 2018, a Fifa levou seus mundiais seguidamente a três países dos Brics: África do Sul, Brasil e Rússia. Na prática, chancelou o momento de ascensão do grupo, convertendo o maior evento esportivo do planeta em vetor de soft power para potências emergentes e associadas à China, afastando-se do tradicional eixo de influência euro-americano. Para um Estado que conhece o poder do esporte como extensão da geopolítica, esse movimento não passaria despercebido.

É sob esse prisma que a operação do FBI, em 2015 – o "Fifa Gate" –, ganha contornos mais amplos. Para além do combate à corrupção, a ação do Departamento de Justiça funcionou como um movimento de reposicionamento de poder: ao desarticular uma cúpula diretiva que flertava abertamente com o eixo emergente, os Estados Unidos redirecionaram a bússola da entidade de volta ao Ocidente. O resultado concreto foi a Copa de 2026 na América do Norte, no ano em que o país celebra os 250 anos de sua independência. Eis a defesa pura e lógica de interesses nacionais transbordando para o esporte mais popular do mundo.

O telefonema em favor de Balogun é apenas mais um desdobramento natural desse processo, e a proximidade entre Trump e Infantino não é episódica. Em dezembro de 2025, a Fifa criou um autodenominado "Prêmio da Paz" e o concedeu, em sua primeira edição, ao presidente americano – em meio ao conflito dos Estados Unidos com o Irã e poucas semanas antes da operação militar que capturou Nicolás Maduro na Venezuela. O mesmo Trump deve subir ao palco para entregar a taça ao campeão em 19 de julho, rompendo a tradição de que essa honraria coubesse apenas ao dirigente máximo do futebol.

Tudo isso retrata o modus operandi da atual administração. A política externa pautada pela autocontenção e pelo idealismo do "paz e amor" ficou no passado; hoje, o poder americano se projeta de forma direta e tangível. A mesma lógica que atua nos bastidores do futebol manifesta-se em ações contundentes no tabuleiro global – de intervenções militares à pressão aberta sobre nações e instituições.

O ponto não é julgar Washington sob uma lente moral, mas reconhecer a natureza do sistema internacional: nações soberanas agem para proteger seu espaço e maximizar sua influência. A Copa do Mundo de 2026 é a grande vitrine esportiva dessa retomada de poder. E, quando o presidente de um país pega o telefone para falar com o líder da Fifa, fica evidente que as regras traçadas dentro das quatro linhas tendem a se ajustar aos interesses de quem tem força para desenhar o mapa do lado de fora.

Maurício F. Bento, graduado e mestre em Economia, é conselheiro do Instituto de Formação de Líderes de Brasília.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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