Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

Fim da jornada 6×1: Brasil é país pobre tentando legislar como se fosse rico

O Brasil não precisa de uma proposta de redução da jornada de trabalho. O Brasil precisa de uma proposta de aumento de produtividade e, consequentemente, da renda. (Foto: Albari Rosa/Arquivo Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

A esquerda brasileira não acredita em produtividade. Não acredita em capital. Não acredita em responsabilidade econômica. Acredita, isto sim, em decreto. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do fim da jornada 6x1 é a tradução perfeita dessa mentalidade. O Brasil é um país pobre tentando legislar como se fosse rico. E isso nunca terminou bem em lugar nenhum do mundo. Vamos aos fatos:

O trabalhador brasileiro produz, em média, cerca de 18 dólares por hora trabalhada. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o valor é superior a 60 dólares. Ou seja, produzimos menos de um terço do que os países desenvolvidos. Mesmo assim, a esquerda quer reduzir jornada mantendo o custo, como se produtividade fosse mero detalhe ideológico. Ora, isso não é justiça social. É desprezo pela mais básica aritmética.

Se não, vejamos. Reduzir a jornada semanal obrigando empresas a manter salários equivale, na prática, a um aumento imediato de custo trabalhista entre 15% e 25%, dependendo do setor. Em um país onde a margem líquida média das pequenas e médias empresas (PMEs) gira entre 3% e 7%, essa conta simplesmente não fecha. E mais de 70% dos empregos formais do Brasil estão em empresas desse porte. Negócios que não têm acesso fácil a crédito, que não conseguem repassar custo rapidamente e que não têm escala para absorver choque regulatório.

Historicamente, o resultado de toda rigidez trabalhista é sempre o mesmo: menos emprego formal e mais informalidade. Hoje, o Brasil já tem cerca de 40 milhões de trabalhadores na informalidade. Toda política que encarece o trabalho formal empurra mais gente para fora da CLT. Isso não é conjectura liberal. É dado empírico das últimas décadas.

Trabalho digno não nasce de menos trabalho. Nasce de mais valor gerado por hora. O resto é discurso para militância universitária e tragédia para quem fecha folha de pagamento todo mês. Não, essa PEC não é avanço social

Setor por setor, o estrago é previsível. No varejo, supermercados, farmácias e shoppings operam com turnos contínuos. O fim da escala 6x1 significaria mais contratações obrigatórias ou pagamento sistemático de horas extras. O resultado será redução de horário de funcionamento, fechamento de lojas e menos vagas. Na indústria, a consequência é a perda de competitividade. Com custo unitário maior, a produção migra ou simplesmente deixa de ser feita.

O Brasil já representa menos de 1,5% da indústria global e segue encolhendo. Essa PEC acelera o processo. Nos serviços – especialmente alimentação, hotelaria, saúde e logística –, o efeito é catastrófico. São setores intensivos em mão de obra, com baixa automação no curto prazo. O que surge é informalidade, pejotização precária e subemprego. Exatamente o oposto do que a esquerda diz combater. Ou seja, na prática, pune-se exatamente a quem se quer proteger.

Mas a verdade é que essa PEC não é sobre trabalhadores. É sobre ideologia. É a velha narrativa marxista mal reciclada: o empresário como pecador, o lucro como pecado. Como se empresas existissem para cumprir função social abstrata, e não para gerar valor econômico real.

O detalhe que esses ideólogos esquecem é que sem lucro não há investimento, sem investimento não há produtividade e sem produtividade não há salário digno. Isso é economia básica. Basta olhar além das fronteiras: nenhum país ficou rico reduzindo trabalho antes de aumentar produtividade. Nenhum. Os países que hoje discutem jornadas menores primeiro acumularam capital, tecnologia, educação e eficiência. O Brasil quer o bônus sem fazer o ônus.

VEJA TAMBÉM:

Essa mentalidade é a mesma que destruiu a Argentina, empobreceu a Venezuela e mantém o Brasil preso ao crescimento medíocre há quarenta anos. A esquerda vende a ilusão do conforto imediato e entrega desemprego no médio prazo. Sempre foi assim.

Trabalho digno não nasce de menos trabalho. Nasce de mais valor gerado por hora. O resto é discurso para militância universitária e tragédia para quem fecha folha de pagamento todo mês. Não, essa PEC não é avanço social. É mais um ataque ideológico com o objetivo de tentar moldar a economia real na fôrma de teorias anacrônicas e superadas. E, como sempre, quando tudo der errado, a esquerda culpará o mercado.

Tallis Gomes, empresário, é fundador e presidente do G4 Educação.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.