Em esquife de ouro, como Michael Jackson, ou em um despojado caixão de pinho, como o Papa João Paulo II, nossa estação de chegada será a mesma nessa vida
Calcula-se que 1 bilhão de pessoas assistiram ao memorial a Michael Jackson pela tevê nos quatro cantos do mundo. Antes de qualquer outra coisa, a homenagem lembrava o samba "Fita Amarela", de Noel Rosa: "Os inimigos que hoje falam mal de mim vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim...". Que família amorosa e que amigos leais... pelo menos na esperança de arrancar alguma coisa do falecido...
Com aquela mistura de talento para a organização, sentido de marketing e oportunismo comercial inimitável que distingue os norte-americanos, a morte do popstar supremo se transformou num espetáculo belíssimo sob o ponto de vista cênico e um alto negócio sob o comercial. Michael Jackson está faturando agora mais do que nos últimos anos, em que viveu um progressivo esquecimento na área do show business. Independentemente de todo o comercialismo ostensivo e agressivo, temos de tirar o chapéu para o espetáculo em si, que tinha tudo para cair na mais absoluta vulgaridade. Missa de corpo presente vá lá, mas organizar um espetáculo musical com um defunto em um caixão de ouro na plateia tem tudo para dar errado. E não deu.
A glamourização da morte, aliás, é uma especialidade americana. O romancista inglês Evelyn Waugh escreveu um de seus melhores livros sobre a tanatologia comercial nos Estados Unidos, The Loved One, O Ente Querido na tradução brasileira da sua versão em filme. O ambiente em que o livro se passa seria, coincidentemente o Cemitério de Forest Lawn, em Los Angeles, onde Michael Jackson foi preparado para o sepultamento (digo preparado pois ninguém sabe, ao certo, se foi enterrado, cremado ou se estão aguardando instruções). Velórios nos Estados Unidos duram vários dias e não têm a carga emocional dos países latinos. São eventos cuidadosamente preparados, com horários certos para congregar amigos, parentes, colegas de escritório ou de trabalho. Após os enterros, há jantares para os convidados e se o morto for irlandês, é provável que o jantar acabe em uma imensa bebedeira. Entre um e outro desses momentos de lembrança, o defunto é discretamente recolhido e guardado na casa funerária até a próxima reunião. Com aquele espírito prático que também é característico da cultura ianque, algumas cidades têm capelas drive-through para que se possa prestar homenagens fúnebres sem sair do carro. Karla Holloway, em seu livro Passed On (Falecido) menciona capelas funerárias em Atlanta e Chicago (Los Angeles também tem uma) em que o amigo entra com seu carro em um corredor como os do McDonalds, para na frente de uma vitrine com cortinas cerradas, aperta um botão e as cortinas se abrem para que ele possa ver o digamos homenageado, devidamente composto, maquiado e iluminado de maneira favorável. Após essa rápida inspeção, depositará um cartão de visitas em uma caixinha ou assinará eletronicamente um livro de condolências. Isso feito, engrenará a primeira e partirá certo de haver cumprido o dever social e afetivo.
Entre nós não há nada parecido mas um dia chegaremos lá. Hoje em dia se produz na Suíça diamantes com as cinzas de seu ente querido. A tecnologia é de altíssima sofisticação e o trabalho é bastante caro. E não apenas caro e sofisticado como em alguns casos, arriscado, pois com o nível de criminalidade que temos, as pessoas não estarão livres de perder os diamantes nas mãos de ladrões. Pensando levar um brilhante de valor comercial, os ladrões acabam levando seu parente.
Tudo isso para que? Em esquife de ouro, como Michael Jackson, ou em um despojado caixão de pinho, como o Papa João Paulo II, nossa estação de chegada será a mesma nessa vida. Para os que não acreditam na eternidade da alma, até pode fazer diferença, mas para os que acreditam, a pompa fúnebre é apenas um último sinal de vaidade tola antes de se tratar de coisas mais valiosas e mais duradouras.
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUCPR.



