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Tomar e distribuir a fortuna de Elon Musk poderia acabar com a miséria no mundo?

O CEO da SpaceX, Elon Musk. A humanidade insiste em uma narrativa quase mística: a de que basta um indivíduo – geralmente o mais rico do momento – abrir mão de sua fortuna para que os problemas estruturais do mundo desapareçam. (Foto: EFE / EPA / GIAN EHRENZELLER)

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Há um equívoco recorrente no debate público que merece ser dissecado com rigor: a crença de que a riqueza concentrada em poucas mãos seria a explicação última da miséria coletiva – e de que sua redistribuição, por decreto ou doação, resolveria o problema estrutural da pobreza global.

Comecemos por desmontar um mito empresarial revelador. O McDonald’s, contrariamente à percepção popular, não é fundamentalmente uma rede de fast-food. Como demonstra a narrativa cinematográfica sobre Ray Kroc, a empresa é, em sua essência, um conglomerado imobiliário de proporções colossais. Seus hambúrgueres são, na verdade, o instrumento que viabiliza a aquisição estratégica de terrenos em localizações privilegiadas – ativos que se valorizam independentemente do sanduíche vendido no balcão. A genialidade do negócio reside na alocação inteligente de capital, não na qualidade culinária.

Paralelamente, Elon Musk não é, propriamente, um fabricante de foguetes ou automóveis elétricos. Ele é, antes de tudo, um alocador de recursos extraordinariamente eficiente – alguém capaz de direcionar capital, talento humano e tecnologia para setores em que o retorno marginal é exponencialmente maior do que a média do mercado. Essa capacidade de alocação de riqueza é, em si, um bem público: gera empregos, cria cadeias produtivas inteiras, fomenta inovação setorial e produz externalidades positivas que se irradiam por toda a economia.

Como bem ensinou Olavo de Carvalho em seu icônico texto O Bem e o Mal segundo Olívio Dutra: “Um empresário, honesto ou desonesto, está no auge do sucesso quando pode, sem prejuízo de seus investimentos, comprar mansões, iates, carros de luxo, jatinhos, jatões etc. Ele alcança isso quando se torna um megaempresário. Para chegar a esse ponto, ele tem de deixar em seu rastro fábricas, bancos, plantações, jornais, canais de TV e mil e um outros negócios dos quais vivem e prosperam milhares de pessoas”. Elon Musk é um trilionário? Ele deixou outros trilhões de dólares no caminho para que ele pudesse ter o seu trilhão.

Eis uma pergunta incômoda: os Estados-nação existem há milênios. Estruturas de governo, impostos, redistribuição e políticas sociais são tão antigas quanto a civilização organizada. Os silos de grãos serem tributados é coisa mais antiga que a Sé de Braga. Por que, então, a pobreza extrema ainda persiste em vastas regiões do planeta?

A resposta é desconfortável para quem prefere explicações simplistas: não é a ausência de bilionários generosos que perpetua a pobreza, mas sim a ausência de instituições que permitam a livre alocação de capital, trabalho e inovação. Não é coincidência que a Rússia e a China – durante décadas, símbolos de pobreza endêmica sob regimes de planificação centralizada – tenham experimentado saltos extraordinários em seus indicadores de bem-estar precisamente quando se abriram, ainda que parcialmente, a mecanismos de mercado.

Talvez seja hora de abandonarmos a fantasia do salvador unipessoal e voltarmos nossa atenção crítica para as estruturas que, há séculos, determinam se uma sociedade prospera ou permanece estagnada

A China, isolada e literalmente morta de fome sob o maoísmo, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza absoluta após as reformas de Deng Xiaoping, que introduziram incentivos privados e abertura comercial. Não foi a caridade que operou esse milagre econômico; foi a permissão para que indivíduos e empresas alocassem recursos de maneira mais eficiente do que burocracias estatais jamais conseguiriam.

Curiosamente, mesmo diante dessa evidência histórica robusta, a humanidade insiste em uma narrativa quase mística: a de que basta um indivíduo – geralmente o mais rico do momento – abrir mão de sua fortuna para que os problemas estruturais do mundo desapareçam. Cobra-se de Elon Musk, sob a falsa promessa de impostos confiscatórios, que “resolva” a pobreza global, como se sua riqueza pessoal fosse, isoladamente, a variável determinante da equação.

Mas cabe perguntar: enquanto se exige esse sacrifício messiânico de um único indivíduo, o que faz o restante da humanidade para alcançar esse mesmo objetivo? Quantos votam em políticas que destroem a livre iniciativa em seus próprios países? Quantos sustentam, com seu próprio comportamento de consumo e investimento, sistemas econômicos disfuncionais? A exigência de heroísmo individual frequentemente serve como anestesia moral coletiva – um mecanismo psicológico que transfere a responsabilidade sistêmica para um bode expiatório conveniente.

Abre parênteses. Após o anúncio de que Elon Musk havia rompido a barreira do trilhão, os suspeitos de sempre da esquerda, aqui e lá fora, começaram uma ladainha sobre redistribuição. Os senadores americanos Elizabeth Warren e Bernie Sanders deram os seus “dois cents” sobre justiça social etc. Aqui, as deputadas do PSOL Sâmia Bomfim, Erika Hilton e Talíria Petrone deram sua “contribuição inteligente” sobre o que fazer com a fortuna de Musk (incluindo a expropriação, o roubo, puro e simples).

Em comum, todos esses políticos teriam reais dificuldades em sobreviver longe do guarda-chuva do Estado. As políticas brasileiras mencionadas, aliás, são notórias por não terem carreiras ou trabalhos aos quais voltar ao fim de seus mandatos. Ou alguém com honestidade consegue saber em que elas trabalhavam antes de suas eleições? Fecha parênteses.

No plano microeconômico, é fundamental compreender que uma empresa lucrativa e bem gerida promove, organicamente, o bem-estar de múltiplos stakeholders (isto é, todas as partes interessadas e impactadas por sua atividade – funcionários, clientes, fornecedores, acionistas e a própria comunidade ao redor).

A questão verdadeiramente relevante é: quais condições institucionais permitem que recursos sejam alocados de maneira produtiva, gerando riqueza recorrente, e não apenas alívio temporário?

Tomemos o exemplo de uma indústria farmacêutica que desenvolve um medicamento inovador: ela emprega milhares de pessoas – pesquisadores, técnicos, vendedores, motoristas de logística –, cada uma sustentando famílias inteiras. Paga impostos que financiam hospitais e escolas. Oferece, a seus clientes, um produto que prolonga vidas ou acaba com males. Gera dividendos a investidores, muitos dos quais são fundos de pensão que sustentam aposentadorias de milhões de trabalhadores comuns ou servidores públicos.

O mesmo se aplica a uma rede de supermercados, que oferece alimentos a preços competitivos, gerando concorrência que beneficia o consumidor; ou a uma fabricante de automóveis, que sustenta toda uma cadeia de fornecedores – desde produtores de aço até oficinas mecânicas independentes. Cada elo dessa cadeia representa famílias com renda, dignidade e capacidade de consumo, perpetuando um ciclo virtuoso de geração de valor.

Façamos, agora, um exercício aritmético revelador. Suponhamos que Elon Musk doasse integralmente sua fortuna – estimada agora em um trilhão de dólares – para combater a fome global. Imaginemos que isso fosse possível, como se, de forma caricatural, a caixa-forte do Tio Patinhas se abrisse e as moedinhas voassem pelos ares – spoiler: a fortuna de Musk não está num único cofre; está espalhada em foguetes, fábricas de veículos, satélites, escavadoras gigantes, uma rede social etc.

Segundo estimativas do Programa Mundial de Alimentos, o custo para alimentar toda a população em situação de fome extrema gira em torno de 40 a 93 bilhões de dólares por ano. Assim, a fortuna de Musk financiaria, no máximo, alguns anos de combate à fome – supondo execução perfeita, ausência de corrupção, desvios ou ineficiências administrativas, o que jamais ocorre na prática. Vide os líderes do Black Lives Matter, que logo desviaram recursos recebidos em doação para a compra de confortáveis mansões...

Após esse período, esgotado o capital, o problema estrutural permaneceria intocado: a fome retornaria, pois sua causa não é a falta momentânea de recursos, mas a ausência de sistemas produtivos, agrícolas e econômicos sustentáveis nos países afetados. Em contraste, se esse mesmo capital permanecer investido – financiando empresas de tecnologia agrícola, infraestrutura de transporte, energia e inovação –, seu efeito multiplicador ao longo de décadas supera, em ordens de magnitude, o impacto de uma doação pontual, ainda que generosa.

Mas há um detalhe ainda mais grave, frequentemente ignorado nesse tipo de cálculo: no primeiro dia após o término desse período de poucos anos, o problema simplesmente retornaria – porque, durante todo esse tempo, nada foi feito para educar a população beneficiária a construir sua própria economia. A cultura da pobreza, lamentavelmente, não inclui, em sua maioria, o conhecimento sobre geração de renda, empreendedorismo ou autonomia produtiva.

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Arrisco afirmar que essa lacuna não é exclusividade dos países mais pobres: no próprio Brasil, parcela significativa da população constrói sua trajetória de vida em torno do funcionalismo público, de benefícios assistenciais governamentais, ou mesmo de bolsas de pesquisa acadêmica – mestrados e doutorados financiados com recursos públicos –, sem que, ao final desses processos, haja retorno proporcional em inovação, produtividade ou geração de riqueza para a sociedade.

Não é incomum que recém-formados ingressem diretamente no serviço público, sem nunca terem experimentado a lógica da iniciativa privada – e, quando arriscam conciliar as duas frentes, é frequente que a remuneração estatal supere, com folga, os ganhos obtidos no mercado competitivo, criando um incentivo silencioso para que o talento se afaste justamente das atividades produtivas geradoras de valor (assunto para artigo exclusivo de mais fôlego...).

Subjacente a esse fenômeno está um desconhecimento generalizado de noções básicas de microeconomia: conceitos como custo de oportunidade, produtividade marginal, formação de preços, escassez e alocação eficiente de recursos permanecem distantes do repertório da maioria – inclusive daqueles com formação superior. A doação resolveria a fome; não resolveria a pobreza. É o famoso “dar o peixe, mas não ensinar a pescar”.

A questão central, portanto, não é se os bilionários e o solitário trilionário Musk “devem” ou “não devem” doar suas fortunas – decisão que pertence à esfera privada e à consciência individual de cada um (seria até cansativo elencar a filantropia que os bilionários fazem – Cuba e a África subsaariana têm um mercado de filantropia próximo do zero absoluto). A questão verdadeiramente relevante é: quais condições institucionais permitem que recursos sejam alocados de maneira produtiva, gerando riqueza recorrente, e não apenas alívio temporário?

A história econômica recente – da reforma chinesa à abertura russa pós-soviética, passando pelo “milagre” de tantas economias asiáticas – sugere uma resposta consistente: liberdade econômica, segurança jurídica para investimentos e a permissão para que indivíduos talentosos aloquem capital eficientemente são, comprovadamente, mais eficazes na erradicação da pobreza do que qualquer ato isolado de generosidade, por grandioso que seja.

Talvez seja hora de abandonarmos a fantasia do salvador unipessoal e voltarmos nossa atenção crítica para as estruturas que, há séculos, determinam se uma sociedade prospera ou permanece estagnada.

Lílian Schreiner-Módolo é doutora e mestra em Administração pela Universidade de São Paulo, com pós em Docência do Ensino Superior (Laureate) e graduação em Design Industrial pela UFAM. Sócia-fundadora da Editora Arcádia. Jornalista, membro da Mensa Itália, escritora, autora de O Jugo da Histeria no Brasil Ocupado (2021), Teddy Roosevelt para Crianças (2022), Glossário da Superdotação (2024) e A Escola que Não Viu: Como 46 visitas revelaram o que falta nas escolas brasileiras para incluir alunos superdotados; Luiz Augusto Módolo de Paula é advogado, bacharel, mestre e doutor em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da USP e mestrando (Laurea Magistrale) pela Università di Bologna. Jornalista, tradutor juramentado (inglês) e membro efetivo do IASP – Instituto dos Advogados de São Paulo. Escritor, autor de Genocídio e o Tribunal Penal Internacional para Ruanda (Appris, 2014), Resolução de Conflitos em Direito Internacional Público e a Questão Iugoslava (Arraes, 2017), A Saga de Theodore Roosevelt (Editora Lisbon International Press, 2020), O Jugo da Histeria no Brasil Ocupado (2021) e Teddy Roosevelt para Crianças (2022) – os dois últimos editados pela Arcádia Educação e Comércio Ltda. e escritos em parceria com Lílian Cristina Schreiner-Módolo.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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