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Até pouco tempo ausente do vocabulário popular, geopolítica é hoje tema recorrente nas conversas mais prosaicas e pauta obrigatória em eventos empresariais. Alimentado diariamente pelo noticiário sobre conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, sobre tarifas comerciais, terrorismo e as crescentes tensões no Mar do Caribe – além dos ataques aos cristãos na Nigéria e Etiópia, estes com menor cobertura da grande mídia –, o frisson atual é uma boa oportunidade para buscar fontes relevantes que elevem o conhecimento público sobre a rica, ilustrada e complexa arte da diplomacia.
Poucos autores podem lançar mais luz sobre este momento histórico, com tanta seriedade e consistência, quanto Henry Kissinger (1923–2023), judeu alemão refugiado nos Estados Unidos desde 1938. Intelectual, empresário e diplomata – um dos maiores especialistas em geopolítica da história –, serviu como Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional nas gestões de Richard Nixon e Gerald Ford.
Consultor estratégico de empresas como American Express, Coca-Cola, Heinz, Daewoo e Volvo, formou-se em Harvard, onde concluiu o doutorado em Relações Internacionais. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1973 pelo cessar-fogo no Vietnã.
Kissinger foi, ao mesmo tempo, um estrategista visionário e calculista, que transformou a diplomacia em uma arte de engenharia do poder – sempre buscando a ordem no mundo real, ainda que, digamos, ao custo de certas ilusões morais. Sua obra é vasta e sofisticada, e nesta resenha destaco o livro que resolvi revisitar nas últimas semanas. A velha edição que tenho de Diplomacy andava empoeirada e mereceu um pano úmido antes de me deslumbrar, pela segunda vez, com as suas mais de oitocentas páginas.
A diplomacia, em sua visão, é a arte de construir estabilidade em meio às tensões e embates – e não pela eliminação do conflito, elemento essencial da natureza humana
Em Diplomacy (1994), Kissinger reconstrói quatro séculos de história internacional com o olhar de quem participou, nos bastidores, de algumas das mais decisivas negociações da geopolítica século XX. Sua tese central é que a ordem mundial nunca nasce de boas intenções ou de retóricas morais, mas do equilíbrio entre poder e legitimidade.
Nesta obra magistral, ele opõe dois paradigmas fundamentais da geopolítica e da diplomacia: de um lado, o realismo europeu, consolidado por Richelieu, Metternich e Bismarck, baseado na prudência, na proporção e no equilíbrio entre potências; de outro, o idealismo americano, inaugurado por Woodrow Wilson, guiado pela fé moral na democracia e em princípios universais.
Crítico das singularidades que os Estados Unidos atribuíram a si mesmos ao longo de sua história, Kissinger observa que o país acabou produzindo duas atitudes contraditórias em relação à geopolítica. A primeira é a crença de que os EUA servem melhor aos seus próprios valores pelo aperfeiçoamento interno da democracia, agindo como um farol para o mundo; a segunda, a convicção de que seus valores os obrigam a lutar por esses princípios em toda parte.
Assim, dividido entre a nostalgia por um “passado imaculado” e o anseio por um “futuro perfeito”, o pensamento diplomático norte-americano acabou oscilando entre o isolacionismo e o intervencionismo, embora, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a realidade da interdependência global tenha prevalecido.
Kissinger nota que o paradigma europeu busca estabilidade – porém sem preservar a alma das nações –, enquanto o americano busca inspirar o porvir, mas sem estratégia. Para ele, o estadista ideal é aquele que compreende o mundo como ele é, e não como gostaria que fosse: alguém capaz de equilibrar poder e princípios, força e legitimidade. Essa é a essência de sua visão.
Ao revisitar Diplomacy – infelizmente, a edição brasileira publicada pela Saraiva em 2012 está esgotada –, é impossível não enxergar o reflexo de suas teses nas tensões geopolíticas atuais entre Estados Unidos, China e Rússia, na perigosa fragmentação da Europa ou na ineficácia das instituições multilaterais. A leitura de Kissinger nos ensina que as potências não desaparecem; apenas mudam de forma. A diplomacia, portanto, não é um ofício para produzir discursos, mas uma arte para administrar o inevitável.
Nos dias que correm, qualquer rede social tornou-se palco para análises geopolíticas improvisadas. Nesse cenário, Diplomacy nos devolve a profundidade, a sofisticação e a paciência intelectual que o tema exige. É um lembrete de que compreender o mundo não se faz a golpes de manchetes, mas por meio de método, seleção criteriosa de fontes, estudo dedicado, certa erudição e perspectiva histórica.
Ao reler Kissinger, fica evidente o abismo que separa a análise geopolítica realista e bem-informada dos comentários apressados e militantes que hoje dominam o noticiário. A imprensa tradicional, em sua ânsia por visibilidade e influência, muitas vezes abandona os fatos e o rigor interpretativo – e o público, cada vez mais desorientado, confunde narrativas com realidade.
Por isso, mais do que nunca, devemos retornar à alta cultura, às vezes já empoeirada na estante. Num tempo em que muitos se informam por textos curtos e vídeos rápidos – muito mais do que por livros longos e vigorosos –, a leitura de Diplomacy é um ato de resistência intelectual. Não se trata de concordar com Kissinger: suas decisões políticas podem ser polêmicas, mas seu repertório espetacular e sua inteligência estratégica são incontornáveis.
O exercício diário da busca por fontes sérias, densas e clássicas é, ao menos para mim, a única forma de acompanhar a história que se desenrola diante dos nossos olhos com discernimento.
Claudio Cardoso tem pós-doutorado em Comunicação Empresarial. Atua em programas de inovação no mercado financeiro e de comunicação estratégica no setor de energia. É autor de “A Comunicação no Comando”.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



