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Como conflitos globais e eleições afetam o dólar e o real?

Entenda como o dólar reage ao mundo antes de chegar ao bolso. Guerras, eleições, juros e disputas comerciais podem influenciar a economia. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Em um mundo cada vez mais conectado, o preço do dólar deixou de refletir apenas indicadores econômicos. Hoje, uma eleição presidencial, uma escalada militar no Oriente Médio, novas tarifas comerciais entre grandes economias ou mudanças na política monetária dos Estados Unidos podem alterar rapidamente o valor da moeda americana frente ao real. O câmbio tornou-se um dos termômetros mais sensíveis das expectativas globais.

Embora muitos brasileiros associem a alta do dólar apenas ao turismo ou às compras internacionais, a cotação da moeda influencia praticamente toda a economia. Ela afeta o preço dos combustíveis, alimentos, eletrônicos, insumos industriais, custos logísticos e até decisões de investimento de empresas e famílias.

Mas por que acontecimentos geopolíticos, muitas vezes ocorridos a milhares de quilômetros de distância, têm impacto tão direto sobre o real?

A resposta está no comportamento dos investidores. Em momentos de maior incerteza global, o mercado tende a reduzir a exposição a ativos considerados mais arriscados e buscar proteção em aplicações vistas como seguras. Historicamente, o dólar ocupa essa posição por representar a principal moeda de reserva internacional e por ser respaldado pela maior economia do mundo.

Esse movimento é conhecido como “flight to quality”, ou "fuga para a qualidade". Na prática, investidores vendem ativos de países emergentes, como o Brasil, e direcionam recursos para títulos do Tesouro americano e outros investimentos denominados em dólar. O resultado é um aumento da demanda pela moeda americana, que tende a se valorizar frente a moedas como o real.

Em momentos de estresse, preservar patrimônio passa a ser mais importante do que buscar retornos elevados. Como os títulos do Tesouro americano são considerados um dos ativos de menor risco do mundo, investidores globais realocam recursos para esses papéis, aumentando simultaneamente a demanda por dólares. Em última análise, a taxa de câmbio reflete o equilíbrio entre oferta e demanda por dólares. Eventos geopolíticos, decisões de política monetária e mudanças nas expectativas dos investidores alteram esses fluxos de capital entre países, provocando oscilações na cotação das moedas.

Os últimos anos oferecem exemplos claros dessa dinâmica. A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022, provocou uma forte alta nos preços internacionais de energia, fertilizantes e grãos, pressionando a inflação global e aumentando a aversão ao risco. O conflito também levou investidores a buscar ativos considerados mais seguros, fortalecendo o dólar em relação a diversas moedas emergentes, inclusive o real.

Mais recentemente, as tensões no Oriente Médio, envolvendo ataques a instalações estratégicas, ameaças às rotas marítimas no Mar Vermelho e episódios de escalada entre Israel e Irã, reacenderam preocupações sobre a oferta global de petróleo e a estabilidade do comércio internacional. Sempre que cresce o risco de interrupção das cadeias logísticas ou de aumento expressivo no preço da energia, os mercados financeiros tendem a reagir rapidamente, ampliando a volatilidade cambial.

Outro fator que voltou ao centro das atenções é a disputa comercial entre Estados Unidos e China. O aumento de tarifas sobre produtos estratégicos, as restrições à exportação de semicondutores e tecnologias avançadas e as medidas de retaliação adotadas por ambos os países têm elevado as incertezas sobre o crescimento da economia global. Como Estados Unidos e China respondem por uma parcela significativa do comércio mundial, qualquer deterioração dessa relação afeta o fluxo internacional de investimentos, impactando diretamente moedas de países exportadores de commodities, como o Brasil.

Ao mesmo tempo, a política também pesa sobre o câmbio. Em períodos eleitorais, o mercado procura antecipar como diferentes programas econômicos poderão afetar a trajetória da dívida pública, da política fiscal e do crescimento econômico. Alterações nessas expectativas costumam ser rapidamente incorporadas aos preços dos ativos financeiros, incluindo a taxa de câmbio. Em 2026, por exemplo, o calendário eleitoral brasileiro passou a dividir espaço com fatores externos nas análises do mercado, tornando o comportamento do real ainda mais sensível às expectativas dos investidores.

É importante destacar que eleições, por si só, não provocam uma alta do dólar. O que influencia o câmbio é o grau de previsibilidade das políticas que poderão ser adotadas.

Quanto maior a percepção de estabilidade institucional, responsabilidade fiscal e continuidade das regras econômicas, menor tende a ser o prêmio de risco exigido pelos investidores

Naturalmente, o cenário internacional também dialoga com a política monetária americana. Sempre que cresce a expectativa de juros elevados nos Estados Unidos por mais tempo, aplicações em dólar tornam-se mais atrativas. Isso estimula a migração de recursos para o mercado americano e reduz a disponibilidade de capital para economias emergentes. Nos últimos anos, as decisões do Federal Reserve de manter juros elevados para combater a inflação reforçaram esse movimento, fortalecendo o dólar em diversos momentos.

O Brasil, entretanto, não é apenas um espectador desse processo. O país possui fatores internos capazes de suavizar ou ampliar os impactos externos. O diferencial de juros, o desempenho das exportações, o fluxo de investimento estrangeiro, o comportamento das contas públicas e o nível das reservas internacionais ajudam a determinar a intensidade com que o real reage aos choques globais.

Um bom exemplo ocorreu ao longo de 2026. Enquanto o cenário externo permaneceu marcado por conflitos geopolíticos e incertezas sobre o comércio internacional, o mercado também passou a monitorar mais de perto as discussões fiscais e o calendário eleitoral brasileiro.

Em diferentes momentos, a combinação entre juros domésticos elevados, fluxo de exportações e expectativas sobre a política econômica ajudou a reduzir ou ampliar a volatilidade do câmbio, demonstrando que fatores internos e externos atuam simultaneamente na formação da taxa de câmbio.

Esse contexto reforça que a cotação do dólar não responde a um único fator. Ela é resultado da interação entre acontecimentos internacionais, expectativas econômicas e fundamentos domésticos. Um conflito geopolítico pode elevar a aversão ao risco, mas seus efeitos serão diferentes dependendo da situação fiscal brasileira, da política monetária do Banco Central e da confiança dos investidores na economia nacional.

Para empresas que atuam no comércio exterior, essa realidade torna a gestão cambial ainda mais estratégica. Não basta acompanhar a cotação diária da moeda; é preciso entender os fatores que movimentam o mercado e adotar mecanismos de proteção capazes de reduzir a exposição às oscilações.

Em um ambiente global marcado por conflitos, disputas comerciais e ciclos eleitorais cada vez mais relevantes para os mercados, a volatilidade cambial deixou de ser um evento excepcional para se tornar uma característica permanente.

Mais do que tentar prever o próximo movimento do dólar, empresas e investidores precisam desenvolver estratégias que lhes permitam navegar com segurança em um cenário em que decisões tomadas em Washington, Pequim, Moscou, Bruxelas ou no Oriente Médio podem repercutir rapidamente sobre o valor do real.

Entender essa conexão entre geopolítica, economia e câmbio tornou-se uma competência essencial para quem opera em uma economia globalizada.

Em um mercado cada vez mais integrado, acompanhar o câmbio deixou de significar apenas observar a cotação do dólar. Significa compreender como decisões de bancos centrais, conflitos internacionais, eleições e mudanças no comércio global alteram os fluxos de capital que, diariamente, determinam o valor das moedas.

Gustavo Bevilacqua é economista do Banco Braza.

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