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Gigantesco desafio para as escolas, em especial as privadas

  • PorJacir Venturi
  • 17/04/2020 18:35
Gigantesco desafio para as escolas, em especial as privadas
| Foto: Albari Rosa/ Arquivo Gazeta do Povo

Satisfeitas as necessidades humanas básicas segundo a hierarquia da Pirâmide de Maslow – respiração, alimento, sono, excreção, sexo –, na sequência advêm outras, como segurança, saúde e educação. A saúde é um bem essencial, de tal sorte que Napoleão Hill afirma que “se você tem saúde, jamais diga que a vida não lhe deu uma oportunidade”. A educação, por sua vez, não só propicia estratégias e oportunidades para a ascensão social, mas também nos coloca em trilhos civilizatórios.

Ademais, há hoje muita insegurança quanto ao mundo pós-coronavírus, com recessão econômica e possíveis conturbações sociais. O cenário mundial que atualmente vivenciamos é singular, sendo a pandemia não apenas sanitária, mas também socioeconômica, com impactos deletérios que evidentemente atingirão as escolas. Especificamente neste segmento, este vírus paralisou até o momento as aulas presenciais em 188 países, afetando 1,5 bilhão de estudantes, o que corresponde a 89,5% do total de alunos no mundo, conforme dados da Unesco, órgão da ONU responsável por esse monitoramento.

A pandemia da Covid-19 promove tantas incertezas e volatilidades que poucas atividades econômicas deixarão de sofrer impactos dilacerantes, conquanto toda a crise gera oportunidades. Como me disse o reitor de uma universidade: Crise? Tire o S, crie! E, como a necessidade é a mãe da inovação, o momento é oportuno para a tão debatida e necessária transformação digital de nossas escolas, que em geral ainda pouco se diferenciam daquelas de 50 anos atrás. “Essa crise terá efeitos perenes sobre a forma de aprender (...) criando novos hábitos e comportamentos, tanto nas famílias quanto nas instituições de ensino” – bem complementa o experiente diretor de uma rede de ensino, Paulo Arns Cunha.

E mais do que vultosos investimentos em tecnologias, elas necessitam de uma intensa capacitação de professores e gestores para que o processo ensino-aprendizagem possa agora ter sequência na modalidade a distância, até que possamos retornar à normalidade. E o uso destas ferramentas também traz o benefício de induzir nos estudantes o desenvolvimento da fluência digital, uma das mais importantes competências do mundo contemporâneo.

Assim, as direções de escolas têm pela frente um trabalho de Hércules, com a difícil missão de minimizar o impacto da paralisação das aulas presenciais e, consequentemente, reorganizar o calendário letivo, implementar o ensino em plataformas digitais, atendendo aos anseios das famílias com suas legítimas e diversas necessidades. E, no caso das escolas particulares, administrar a queda da arrecadação com poucas possibilidades de redução de custos. Muito pelo contrário, a implantação de meios e tecnologias de informação e comunicação, em um curto espaço de tempo, implica numa exacerbação nas despesas.

Por estes e outros fatores, é momento de nossos políticos não atrapalharem a boa relação entre famílias e escolas privadas, pois inoportunos são os projetos de lei apresentados em várias casas legislativas, que propõem a imposição de uma redução linear nas mensalidades escolares. É evidente que toda escola deve reconhecer a gravidade da perda do poder aquisitivo de muitos lares, mas isso deve ser resolvido mediante negociação com cada instituição, cada família, caso a caso. Um porcentual fixo e generalizado, como tem sido proposto, não vai atender uma parte das famílias por ser um índice insuficiente, enquanto há outras famílias mais capitalizadas que, com um pouco de aperto, suportariam a manutenção do valor contratado. É justamente o que o próprio Procon recomenda: o diálogo deve ser o instrumento primordial para a construção de um acordo que seja bom para ambos os lados. Uma redução exagerada e compulsória no valor das mensalidades pode cravar a insolvência de não poucas escolas, com impactos econômicos e sociais que vão complicar ainda mais a crise que enfrentamos.

Afinal, as instituições de ensino da livre iniciativa, compostas de colégios, faculdades e universidades, empregam 1,7 milhão de profissionais e atendem quase 15 milhões de alunos, o que corresponde a 17% das matrículas da educação básica e 74% das faculdades. No Paraná, são quase 2 mil escolas particulares com cerca de 730 mil matrículas. Cumpre destacar que, em Curitiba, a subdivisão é praticamente equânime nas três redes, pois na educação básica um terço delas está em escolas estaduais, um terço nas municipais e um terço nas particulares.

O segmento das escolas particulares é altamente concorrencial e com grande capilaridade, pois está presente em todos os municípios, em todos os bairros das grandes cidades. Umas das maiores riquezas de um país está na pluralidade de suas escolas – sejam elas públicas, particulares, confessionais, comunitárias, laicas. E isso ocorre mesmo sendo um segmento com alta tributação, pois cerca de um terço do valor da mensalidade é destinado ao Fisco. Via de regra, outras nações não aplicam tributo algum sobre a escola privada, pois se entende que está desonerando o Estado.

No momento em que vivemos, temos um compromisso ainda mais necessário, imperativo: trabalhar, lutar por uma educação de qualidade, não importa se pública ou privada, um divisionismo retrógrado, antipatriótico que só faz perdedores. Há muito que nos une, pouco que nos divide. Não é enfraquecendo a escola particular que se fortalecerá a pública, e sem escola pública de qualidade jamais seremos uma nação com justiça social. Cabe, agora ainda mais do que nunca, o espírito de cooperação.

“A escola é a nova riqueza das nações. Passou a valer mais que a fábrica, o banco, a fazenda” – faz-se oportuno Peter Drucker, renomado consultor americano. A nossa matéria-prima é a mais nobre que existe na face da Terra: nossas crianças, adolescentes e jovens. Somos educadores e, como educadores, não temos o direito de ser medianos. Cabe-nos o dever da busca incessante pela qualidade de ensino, em qualquer contexto, mesmo que haja nuvens borrasquentas no céu.

Jacir J. Venturi foi professor e diretor de escolas públicas e privadas, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Paraná (Sinepe/PR) entre 2012 e 2016, e é membro do CEE/PR como representante das escolas privadas do Paraná.

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Comentários [ 5 ]

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    Julio K. Inafuco

    ± 0 minutos

    Sempre com muita sensibilidade, discernimento, criticidade, provocações e originalidade, prof. Jacir traz importantes dados e reflexões. Mas, em particular neste artigo, o convite à cooperação e à lembrança de que "não temos o direito de ser medianos", nos inspira a fazermos agora e sempre, o nosso melhor. Obrigado prof. Jacir e meus cumprimentos a todos os professores.

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  • C

    Correia

    ± 14 horas

    Como professor, posso afirmar sem ressentimentos que dentro de todos esses casos que assolam o mundo nesse momento, as escolas de uma forma geral estão de uma forma compulsória, tendo que se reinventar, onde o tradicional era visto como único meio de educação, agora vemos a necessidade de adaptarmos ao meio tecnológico....obviamente que o buraco é mais embaixo...pois dentro dessa reinvenção necessita a capacitação de professores dentro dessa temática tecnológica( pois alguns dos educadores se encontram 20, 30 anos na profissão) e claro, não sendo culpa deles, reproduzem o que a escola clássica, basta vermos os modelos reproduzidos desde do século 18...

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  • L

    LAURO LUIZ LEONE VIANNA

    ± 2 dias

    Excelente e oportuno artigo, Prof. Jacir!!! Importante preservar as escolas, sejam particulares ou públicas. Que os governantes se preocupem em bem gerir as escolas públicas, e adaptá-las ao pós Covid, e não interfiram nas relações entre pais e alunos e direções das escolas privadas, para não atrapalhar esse importante setor da Educação sobre o qual pouco entendem. A única providência que os governantes podem tomar nesse período de pandemia, é reduzir a pesada carga tributária sobre as escolas particulares, de forma a reduzir proporcionalmente as mensalidades... Mas, isso com certeza, nem lhes passa pela cabeça, pois teriam que reduzir o custo do governo...

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  • A

    Angelica

    ± 2 dias

    Nunca me ative ao detalhe que 1/3 do valor das mensalidades é destinado a impostos. Triste. Tenho dois filhos em escola particular, de uma rede de ensino que se vende como tecnológica. Decretaram adiantamento das férias de inverno logo nas duas primeiras semanas de quarentena. Lógico que era para se prepararem para o ensino a distância. Para nossa surpresa, comunicaram a não obrigatoriedade do que está sendo enviado aos alunos. Parece mais para “encher linguiça” nesse tempo em que ninguém sabe até quando vai a quarentena. Atividades fracas, que podem ser desenvolvidas em menos de uma hora. Por outro lado, entendo que não esperavam ter que ensinar durante quatro horas ao vivo, via internet.

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    1 Respostas
    • C

      Correia

      ± 14 horas

      Exato...boa parte da renda dentro da escola é destinado as cargas tributárias, onde os que tem poder da caneta, não se mostram interessados em mudar isso.... A respeito de escola tecnológica...eu como professor, te afirmo, não existe...pois se vermos do ponto de vista vertical( do MEC para as secretarias estaduais) ninguém ao certo sabe explorar com eficiência esse campo tecnológico aliado a educação....agora nos últimos anos que começamos a discutir isso( conhecida como educação 4.0)....como dica, sempre se atente pais a conhecerem o projeto politico pedagógico da escola, lá estará mais claro sobre o que realmente a escola possa oferecer a seus filhos

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