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A indústria musical mudou completamente nos últimos cinco anos. A incorporação da inteligência artificial (IA) transformou o processo de criação, o consumo musical e até mesmo a previsão do sucesso de um produto. Mas quais são os limites de suas capacidades? Será uma ferramenta que libertará a criatividade dos artistas ou poderá acabar sufocando-a?
Um artigo publicado na revista Neuronum destaca que a inteligência artificial tem a capacidade de prever quais estilos musicais farão sucesso, qual impacto terão no público e, em seguida, produzir composições semelhantes com base nesses resultados. Isso leva, por um lado, a que mais artistas tenham oportunidades na indústria musical, mas, por outro, abre um debate ético sobre a criação humana.
Tecnologia que elimina barreiras
Um exemplo da incorporação da IA na produção musical é o Flow Machine, um projeto de pesquisa desenvolvido no Sony CSL (Laboratório de Ciência da Computação). Trata-se de um sistema programado para aprender diferentes estilos musicais a partir de grandes bancos de dados, com o objetivo de combiná-los para produzir novas melodias.
O Flow Machine é entendido como uma ferramenta de produção musical assistida por IA, mas que não desconsidera o elemento humano, essencial ao processo criativo. Em 2016, o Sony CSL lançou as duas primeiras músicas criadas pela inteligência artificial: “Daddy’s Car” e “Mr. Shadow”.
Nesse contexto, com um foco mais claro em colocar a IA no centro da produção musical, nasceu a All Music Works, uma gravadora sediada em Málaga, Espanha. Ela foi citada pela Billboard (revista especializada na indústria musical) como uma das primeiras produtoras a incorporar inteligência artificial em seus projetos. A All Music Works se concentra exclusivamente na criação de músicas e artistas gerados por inteligência artificial.
Carlos Zher, fundador da All Music Works, explicou, em entrevista à Billboard, que “este projeto nasceu para romper com as limitações existentes na produção musical”. Foram justamente essas dificuldades que levaram Zher a pesquisar diversas ferramentas de IA para aplicá-las ao processo de produção musical.
Uma das aplicações da inteligência artificial no processo de composição musical é a redução dos custos de produção e do tempo necessário para criar uma música. A IA elimina a necessidade de conhecimento técnico especializado, permitindo que artistas independentes produzam músicas e criem videoclipes com orçamentos reduzidos.
“O que antes era feito com um produtor, muitas pessoas agora conseguem fazer com inteligência artificial para economizar custos”, afirma Cristina Soler, gerente de projetos da gravadora Bonito Sound.
A remoção dessas barreiras pode explicar por que a cena musical atual é marcada pela superprodução. Criar música nunca foi tão fácil. Isso significa que a indústria musical irá se acomodar na mediocridade? Ou será que a inteligência artificial eventualmente superará a criatividade e a qualidade da composição humana?
Qualidade estética e impacto emocional
Um estudo de 2023 publicado pela Universidade de York afirma que a música criada por inteligência artificial é “inferior à música composta por humanos”. O coautor, Dr. Tom Collins, da Escola de Artes e Tecnologias Criativas da universidade, argumenta que as peças musicais compostas por humanos obtiveram pontuações mais altas em seis critérios: coerência da composição musical, prazer estético, repetição ou autorreferência, melodia, harmonia e ritmo.
Outro estudo publicado no arXiv, uma plataforma de pesquisa acadêmica, e conduzido por Kimaya Lecamwasam (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e Tishya Ray Chaudhuri (Myndstream), comparou as respostas emocionais dos ouvintes a músicas geradas por IA e a músicas compostas por humanos.
Embora os participantes tenham considerado as músicas criadas por IA melodicamente superiores, as compostas por humanos tiveram um impacto maior sobre eles e, em última análise, foram as preferidas.
A pesquisa concluiu que a qualidade estética de uma música não equivale ao seu efeito emocional sobre o ouvinte, reforçando a ideia de que a música composta por humanos continua sendo a mais valorizada pelo público.
A necessidade humana de conexão emocional
Para Soler, “é inevitável que a inteligência artificial nos influencie”. “Aos poucos”, ele destaca, “nos acostumaremos com a mudança, assim como fizemos após o surgimento das redes sociais ou de plataformas digitais como o Spotify”.
No entanto, ele concorda com as conclusões do estudo publicado no arXiv: “Isso não vai nos fazer perder nossa sensibilidade”. Em sua opinião, a experiência musical continuará ligada à conexão pessoal buscada em cada canção: “Buscamos nos conectar com a história por trás dela, algo impossível de replicar com inteligência artificial”. De qualquer forma, acrescenta, o uso dessa tecnologia “tornará a criatividade mais valorizada”.
Nesse sentido, os artistas continuarão a estar no centro do processo criativo, e a originalidade permanecerá exclusivamente deles.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: La IA en la producción musical: nuevas oportunidades, viejos límites



