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O impacto estratégico da nova formação médica na saúde do Brasil

A excelência clínica e médica e a empatia humana não competem entre si; elas convergem. (Foto: Vitaly Gariev / Unsplash )

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O ecossistema de saúde e inovação atravessa um momento de inflexão. Historicamente, as instituições de saúde brasileiras focaram seus esforços na excelência da assistência direta ao paciente. No entanto, o avanço exponencial da medicina baseada em evidências e a competitividade do mercado global exigem uma visão mais integrada. Hoje, a condução de ensaios clínicos dentro de hospitais e centros de pesquisa médica deixou de ser um mero apêndice científico para se tornar um pilar estratégico de receita, reputação e acesso a tratamentos inovadores.

Nesse cenário, um gargalo crítico se revela: a distância entre a exigência técnica das operações e a qualificação real das equipes na ponta. O “problema” não é a falta de vontade, mas a ausência de uma cultura educacional institucionalizada que conecte ensino, pesquisa e assistência. A educação em saúde não pode ser vista como um custo no DRE, mas sim como o motor da governança e da qualidade operacional. Quando olhamos para a pesquisa clínica, a capacitação de equipes multidisciplinares é o fator que determina o sucesso ou o fracasso operacional de um centro de estudos.

O ambiente regulatório da pesquisa clínica e médica no Brasil está em franca transformação. Com a promulgação da nova Lei de Pesquisa Clínica com Seres Humanos (Lei 14.874/2024), novas diretrizes impactam diretamente o dia a dia das operações, desde a submissão aos Comitês de Ética (CEP) até a aplicação rigorosa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Ao construir esse ecossistema respeitando a pluralidade e a valorização das pessoas, as IES formam líderes com visão crítica e integrativa, alinhados a um compromisso inegociável com o desenvolvimento sustentável do sistema de saúde no Brasil

Para os líderes e gestores, a adaptação a essa nova realidade não se faz apenas com a atualização de softwares ou a contratação de consultorias. Ela exige que a equipe multidisciplinar – médicos investigadores, enfermeiros, farmacêuticos e coordenadores de estudo – compreenda profundamente as nuances da lei. O treinamento contínuo em Boas Práticas Clínicas (GCP – Good Clinical Practice) garante que o centro atue não apenas dentro da legalidade, mas com a agilidade necessária para aprovar estudos e iniciar o recrutamento dentro dos prazos pactuados com os patrocinadores. A falta de capacitação regulatória gera atrasos que, no limite, inviabilizam financeiramente a operação do centro.

A qualidade em pesquisa clínica e médica é frequentemente testada sob a lupa de auditorias rigorosas, sejam internas, de patrocinadores ou de agências reguladoras. Um dos maiores desafios da gestão é garantir que os Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) sejam efetivamente seguidos. É comum vermos instituições que investem meses na revisão de dezenas de POPs – cobrindo desde o controle de acesso à farmácia até o monitoramento de temperatura de ultrafreezers e câmaras de vacina –, mas que falham na etapa final: o treinamento prático da equipe.

Um POP não lido e não treinado é a porta de entrada para não conformidades. Quando a equipe é devidamente capacitada sobre o porquê de cada processo, os erros de execução são minimizados. O treinamento transforma diretrizes burocráticas em reflexos operacionais. O impacto disso na governança é imediato: processos padronizados reduzem o retrabalho, otimizam o uso do tempo (OPEX) e previnem perdas de insumos valiosos, blindando a instituição contra apontamentos graves em auditorias e garantindo a continuidade dos contratos.

O avanço sustentável das organizações de saúde e dos centros de pesquisa começa, impreterivelmente, nas Instituições de Ensino Superior (IES). A excelência técnica, regulatória e de governança exigida pelo mercado não pode ser um conhecimento adquirido apenas na rotina profissional; ela deve ser a espinha dorsal da formação acadêmica.

Para liderar o futuro do setor, as IES precisam transcender o ensino médico tradicional. Quando a futura equipe de pesquisa compreende que o rigor em um ensaio clínico é um ato direto de cuidado ao paciente, o cumprimento de normas deixa de ser um peso burocrático e se consolida como propósito ético e assistencial.

Mais do que suprir demandas operacionais, o verdadeiro poder da academia é o de transformar. Isso exige que as instituições atuem como referências em práticas inovadoras de aprendizagem e gestão – integrando ensino, tecnologia, simulações realísticas e pesquisa desde os primeiros semestres. Ao construir esse ecossistema respeitando a pluralidade e a valorização das pessoas, as IES formam líderes com visão crítica e integrativa, alinhados a um compromisso inegociável com o desenvolvimento sustentável do sistema de saúde no Brasil.

O mercado da próxima década não perdoará a ineficiência médica. As organizações de saúde mais bem-sucedidas serão aquelas retroalimentadas por academias que compreendem uma premissa fundamental: a excelência clínica e médica e a empatia humana não competem entre si; elas convergem.

Gustavo Porfírio é gerente de Pesquisa Institucional da Inspirali.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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