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Durante muitos anos, importar diretamente da China foi visto como um caminho quase automático para reduzir custos e ampliar margens. Em um cenário de globalização acelerada, fretes competitivos e crédito abundante, a estratégia parecia fazer sentido até mesmo para pequenas empresas. Hoje, no entanto, essa conta mudou.
A combinação de juros elevados, conflitos geopolíticos, oscilações cambiais e aumento dos custos logísticos tornou a importação uma operação muito mais complexa, especialmente para pequenas e médias empresas, que possuem menor capacidade financeira para absorver riscos.
Ainda existe a percepção de que comprar diretamente de fabricantes estrangeiros representa economia imediata. Essa narrativa é frequentemente reforçada por consultorias e empresas especializadas em comércio exterior, que apresentam a importação como um processo simples e altamente rentável. Na prática, porém, muitos empreendedores descobrem que o custo da operação vai muito além do preço negociado com o fornecedor.
Adquirir produtos de fornecedores nacionais oferece vantagens que ganharam peso no atual contexto econômico
Um dos principais desafios está na necessidade de adquirir grandes volumes. Em muitos casos, fabricantes internacionais exigem pedidos mínimos suficientes para preencher um contêiner ou, pelo menos, uma carga consolidada. Isso significa antecipar um investimento elevado e manter recursos financeiros imobilizados em estoques que podem levar meses, ou até anos para serem vendidos.
No atual cenário econômico brasileiro, esse fator ganhou ainda mais relevância. Com taxas de juros elevadas, capital de giro se tornou um ativo estratégico. Cada real parado em estoque representa dinheiro que deixa de financiar a operação, ser investido na expansão do negócio ou até mesmo render em aplicações financeiras de baixo risco. Para pequenas empresas, que dependem de liquidez para enfrentar oscilações do mercado, esse custo de oportunidade pode ser maior do que qualquer economia obtida na compra.
Além disso, a logística internacional vive um período de forte instabilidade. Tensões geopolíticas, conflitos em importantes rotas marítimas e mudanças nas cadeias globais de suprimentos elevaram significativamente o custo do transporte internacional. Fretes marítimos que, até pouco tempo atrás, custavam cerca de US$ 1 mil por contêiner passaram a atingir valores próximos de US$ 8 mil em determinados períodos, comprometendo a previsibilidade financeira das operações.
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Há ainda variáveis difíceis de controlar, como oscilações do dólar, atrasos nos embarques, burocracias alfandegárias e possíveis mudanças tributárias. Muitas vezes, o lucro projetado no momento da compra desaparece antes mesmo de a mercadoria chegar ao estoque da empresa.
Enquanto isso, adquirir produtos de fornecedores nacionais oferece vantagens que ganharam peso no atual contexto econômico. A possibilidade de comprar conforme a demanda reduz a necessidade de formar grandes estoques, preserva o capital de giro e torna a operação mais flexível. Os prazos de entrega são menores, a burocracia é reduzida e a previsibilidade financeira aumenta, fatores que ajudam o empresário a responder mais rapidamente às mudanças do mercado.
Em um ambiente de crédito caro e elevada volatilidade internacional, a decisão de compra precisa ir além do menor preço unitário. O verdadeiro diferencial competitivo está na capacidade de preservar caixa, manter flexibilidade operacional e reduzir riscos. Nesse cenário, comprar no Brasil deixou de ser apenas uma alternativa conveniente para voltar a ser, em muitos casos, a estratégia mais inteligente para garantir crescimento sustentável.
Ana Paula Debiazi é CEO da Leonora Ventures.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



