Queria e deveria escrever sobre o notável trabalho de jornalismo da Gazeta a respeito dos desmandos na Assembleia Legislativa do Paraná. Mas elogio em boa própria é vitupério e, de alguma maneira, me sinto, espiritualmente, fazendo parte da Redação e, portanto, devo ser parcimonioso nos elogios. Mas, aqui entre nós, que ninguém nos ouça, que foi um supertrabalho jornalístico, isso foi: objetivo, documentado, sem passionalismos, equilibrado, dando oportunidade ao contraditório.
Agora, vem o teste decisivo, o teste ácido: até que ponto nossas instituições, a começar pela própria Assembleia e o hoje onipresente Ministério Público, serão capazes de não deixar o assunto morrer como tantos outros. Um ponto de partida importante é matar no nascedouro algumas tentativas já patentes de, em vez de discutir os fatos em si, procurar questionar as motivações de quem denunciou as mazelas. O assunto é demasiado sério para ser tratado de maneira tão juvenil.
Esperemos. E também esperemos que não tenhamos de declamar, no futuro, o poeminha de Mario Quintana, a respeito das decepções: "Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o. Com ele ia subindo a ladeira da vida. E, no entretanto, após cada ilusão perdida... Que extraordinária sensação de alívio!"
Falar de Mario Quintana é falar da língua portuguesa em estado nobre. E a inculta e bela última flor do Lácio está precisando de socorro, pois corre o risco de cair em desuso. Entre as camadas menos instruídas, pela progressiva romantização por parte dos politicamente corretos, que veem na língua mal falada e na pobreza linguística o suprassumo da expressão da "cultura popular", como se o uso repetitivo de algumas palavras como "mano" e "parada" nada mais fosse do que a prova de que a língua é viva e se renova a cada passo. Mas o pior vem agora: quem teve oportunidade de aprender a falar e escrever de uma maneira menos pobre está cada dia mais refém de maneirismos, estrangeirismos e outros ismos.
Não sou a pessoa mais adequada para atirar a primeira pedra, pois consultores e professores de Administração e de Economia adoram salpicar as conversas com expressões em inglês. No entanto, a coisa está chegando a limites insuspeitados: você entra em um shopping center (viram o que faz o hábito?) e se sente em terras estranhas: 50% OFF alardeia uma loja. FINAL SALE, informa outra. Aliás, as lojas estão sendo progressivamente substituídas por "outlets". Hoje em dia, ninguém faz mais um intervalo para o café, faz um "coffee break". E ninguém bate papo, faz "networking". Uma segunda etapa de um projeto não é uma segunda etapa de um projeto: é um "follow-on"; e explicar a potenciais investidores as vantagens de uma determinada inversão não sai por menos do que um programa de "investors education".
O exagero oposto também é detestável. Há vários projetos no Congresso proibindo o uso de estrangeirismos na comunicação publicitária, mas, vamos e venhamos, não me sinto preparado ainda para deixar de entrar em um shopping center e passar a entrar em um centro de compras (que lembra mais um atacadão, oops... um "wholesale center"). Nem pretendo passar a tomar uísque (por que não whisky) Joãozinho Caminhante.
Toda essa reflexão melancólica teve um detonador: o carnaval da Bahia. Logo a Bahia, a pátria espiritual de todo brasileiro, que, em Salvador, se sente no centro da brasilidade, da influência da Mama África, suando às bicas no Pelô, desfilando todo vestido de branco no Afoxé Filhos de Gandhi. E qual é a música símbolo do carnaval de 2010? O Rebolation, cuja letra inspiradíssima obriga a apensar: "Bota a mão na cabeça que vai começar... o Rebolation, tion, o rebolation, o rebolation, tion, rebolation... o Rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation."
Quem já teve Lamartine Babo e Braguinha, Mario Lago e Max Nunes agora tem de se contentar com o Rebolation... tion... tion.. Algo está definitivamente errado nessa coisa toda. A língua portuguesa pede socorro, mano. Enfrente essa parada.
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.



