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Inteligência Afetiva: um bom ponto de partida para a escola de 2026

(Foto: Kenny Eliason/Unsplash )

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É fato! A IA tem transformado profissões, redesenhado postos de trabalho e redefinido competências exigidas no mundo contemporâneo. Diante disso, escolas têm investido fortemente em laboratórios, tecnologia, gamificação, metodologias ativas e uso de IA em suas práticas. Isso, sem falar no ganho real de eficiência, que permite ao educador dedicar mais energia ao que nenhuma tecnologia substitui: a relação humana em sala de aula.

Esse movimento é importante, necessário e irreversível. Ignorá-lo seria fechar os olhos para o futuro. Mas, diante desse avanço, uma pergunta precisa ser feita com honestidade: que tipo de inteligência estamos desenvolvendo em nossas escolas? O mundo do trabalho tem mostrado que profissionais são, em geral, contratados por suas competências técnicas, mas desligados por dificuldades socioemocionais – incapacidade de lidar com frustrações, conflitos, limites, trabalho em equipe e convivência. Não se trata de falta de conhecimento, mas de dificuldade de relação.

Inteligência Afetiva é cuidar da base das relações humanas. Porque, no fim, nenhuma tecnologia será suficiente se não formarmos pessoas capazes de conviver, pertencer e cuidar umas das outras

É nesse ponto que emerge uma outra IA, menos falada, porém absolutamente decisiva: a Inteligência Afetiva. Inteligência afetiva é a capacidade de reconhecer, compreender e regular os afetos que atravessam as relações humanas. Não por acaso, diversos autores da educação afirmam que a relação é a base da aprendizagem, assim como é a base da criação dos filhos. A afetividade precede e sustenta a inteligência; a aprendizagem acontece na interação humana; o afeto potencializa o aprender, enquanto o medo o bloqueia. Enfim, aprender exige segurança emocional.

Esse debate não se restringe à escola, mas alcança diretamente as famílias. É fundamental compreender que mais importante do que a estrutura familiar é a qualidade das relações que existem dentro dessa família. O modelo familiar, por si só, não determina o desenvolvimento de uma criança. Em países como o Reino Unido, por exemplo, mais de um quarto das crianças cresce em lares monoparentais – e isso, isoladamente, não define sucesso ou fracasso. O que realmente importa é como essas pessoas se relacionam entre si.

Você e aqueles que vivem com você constituem o principal ambiente emocional no qual seus filhos estão inseridos. A forma como eles irão se perceber, se relacionar com os outros e enfrentar o mundo se baseia, em grande parte, na qualidade dessas relações mais próximas. Crianças que vivem em ambientes marcados por insegurança, medo ou ausência de pertencimento dificilmente se sentem livres para desenvolver curiosidade, autonomia e aprendizagem. Segurança emocional vem antes do aprender. O mesmo vale para a escola: ninguém aprende onde não se sente parte.

Por isso, se a relação é a base da aprendizagem, a escola também precisa olhar com mais seriedade para a formação das famílias. Não apenas por meio de palestras pontuais, mas com processos formativos contínuos, aulas, encontros e espaços reais de escuta e engajamento com os filhos. Iniciativas como Escolas de Pais deixam de ser complementares e passam a ser estratégicas.

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Mas, um cuidado: inteligência afetiva não é permissividade. Não é evitar conflitos, eliminar frustrações, abolir regras ou abrir mão de consequências. Inteligência afetiva não cria um mundo perfeito, sem dor ou limites. Ela qualifica a forma como lidamos com regras, frustrações e convivência, formando pessoas emocionalmente seguras e socialmente responsáveis.

Inteligência Afetiva é cuidar da base das relações humanas. Porque, no fim, nenhuma tecnologia será suficiente se não formarmos pessoas capazes de conviver, pertencer e cuidar umas das outras. Afetos importam. E, talvez, esse seja um excelente ponto de partida para a escola de 2026.

Haroldo Andriguetto Junior é doutor em Educação, diretor da Escola O Pequeno Polegar e presidente do Sinepe-PR.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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