
Ouça este conteúdo
Essa guerra não começou hoje. Foi iniciada pelo Irã há exatamente 47 anos. O regime extremista dos aiatolás definiu os EUA como o "Grande Satã" e Israel como um "tumor cancerígeno" que deve ser destruído. Tanto o aiatolá Khomeini (1979-1989) quanto o aiatolá Khamenei (1989-2026) declararam “Morte à América” e “Morte a Israel”. O mundo calou. Em 2017, um grande relógio digital de contagem regressiva foi instalado na Praça Palestina, em Teerã, para marcar a destruição de Israel em 2040, com base em uma declaração do então Líder Supremo, o aiatolá Khamenei.
O mundo novamente calou. Depois de tantas ameaças, ataques de mísseis e tentativas diplomáticas frustradas, Israel liquidou Khamenei em 2026, em cooperação com os EUA. O Brasil, China, Malásia, Paquistão, Rússia, Turquia e o grupo terrorista Hamas e o partido de oposição na Índia, condenaram oficialmente o ataque, citando violações de soberania, direito internacional e estabilidade regional.
Mas o Irã não havia se limitado apenas a bravatas: desenvolveu secretamente um grande estoque de urânio com 60% de pureza, estando a um passo de possuir armas nucleares, o que levantou “sérias preocupações” por parte da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O mundo calou mais uma vez. Antes da atual guerra, o Irã já possuía o maior e mais diversificado arsenal de mísseis do Oriente Médio, com milhares de mísseis balísticos e de cruzeiro, com alcance de até 4.000 km, como o mundo recentemente descobriu e ficou calado.
Segundo o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, os EUA e Israel têm 3 objetivos: destruir o programa nuclear iraniano, eliminar os atuais mísseis balísticos e seu futuro desenvolvimento, além de criar condições para mudanças políticas no Irã. Por isso, lançaram, em 28 de fevereiro de 2026, a operação militar conjunta chamada de “Rugido do Leão” por Israel e “Fúria Épica” pelos EUA. Brasil, China, Cuba, Espanha, Iraque, Malásia, Omã, Paquistão, Rússia e Turquia condenaram a operação. Por outro lado, países como Alemanha, Austrália, Canadá, França, Itália, Jordânia e Reino Unido expressaram apoio à ação liderada pelos EUA e Israel.
É claro que isso não é o começo da Terceira Guerra Mundial, porque essa já começou em 1989, com o fim da guerra fria e o colapso da “Cortina de Ferro”, trocada por uma porta giratória, incluindo espionagem, sabotagem e um permanente “conflito cinza” em andamento, sem guerra aberta declarada. A rivalidade entre o Leste (China, Rússia) e o Oeste (EUA, Europa) continuou. A guerra fria pode ter acabado, mas a guerra comercial esquentou desde então.
Os que defendem o atual regime dizem que haverá caos interno se a ditadura teocrática do Irã cair. Mas o Irã é muito diferente do Iraque, da Líbia ou da Síria, países mais recentes que se esfacelaram em várias facções depois da queda de longas ditaduras brutais
Enquanto EUA e Israel têm alvejado somente a infraestrutura militar do Irã, este foi denunciado pela Anistia Internacional por usar bombas de fragmentação contra a população civil de Israel, o que é considerado ilegal sob o direito internacional, mas o mundo calou. E o mundo calou também frente à repressão do regime iraniano aos atuais protestos, resultando, por exemplo, em mais de 36.500 mortos em um período de 48 horas, em janeiro de 2026, segundo relatório da agência independente Iran International.
O regime do Irã também é acusado de violações graves e sistemáticas de direitos humanos nas últimas décadas, devido a uma interpretação fundamentalista da lei islâmica (Sharia) em seu sistema jurídico, incluindo punições consideradas tortura pelo direito internacional, como amputação de membros por roubo, açoites por delitos como consumir álcool ou frequentar festas mistas, apedrejamento por adultério, o enforcamento de mais de 8.000 gays em praça pública, casamentos de adultos com crianças, entre outros abusos.
Além disso, o Irã atacou recentemente a Arábia Saudita, Azerbaijão, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos (EAU), Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Omã, Síria e Turquia, tentando projetar poder, forçar um cessar-fogo visando bases militares americanas e infraestrutura energética vital aos países do Golfo, transformando a guerra em uma crise regional e global. Rússia e China estão indiretamente envolvidos, fornecendo apoio diplomático, estratégico, econômico e de inteligência ao Irã, mas evitando envolvimento militar direto.
Afinal, o que está acontecendo? Estamos vendo o início de um apocalipse mundial total ou de uma eventual paz no Oriente Médio e no mundo?
Curiosamente, a resposta parece depender da posição ideológica de quem responde: quem gosta da esquerda, da Rússia, da China, de Cuba etc. defende a ditadura xiita e critica os EUA e Israel, ignorando a genialidade do MOSSAD, que tem eliminado a liderança militar do Irã, destruído lançadores de mísseis e sua capacidade nuclear com extrema eficiência e criatividade, causando um dano mínimo à população civil. Israel teve décadas para se preparar, porque levou a sério as ameaças do Irã desde 1979. Mas o conflito é desproporcional: se o atual regime extremista sobreviver, certamente irá declarar vitória. E voltará a oprimir seu povo e construir uma nova infraestrutura militar.
Portanto, vamos ser claros: tudo isso tem pouco a ver com direito internacional, soberania, estabilidade regional ou qualquer verborragia diplomática. Tudo é motivado por posições ideológicas distintas, motivadas por influência econômica e domínio geopolítico em escala global. Podemos resumir em uma palavra: poder. Vamos lembrar que membros de alto escalão da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) e clérigos xiitas de alta patente no Irã são amplamente reconhecidos por sua grande riqueza, tendo acumulado fortunas significativas por meio do controle que exercem sobre o aparato político, militar e econômico do país.
Os que defendem o atual regime dizem que haverá caos interno se a ditadura teocrática do Irã cair. Mas o Irã é muito diferente do Iraque, da Líbia ou da Síria, países mais recentes que se esfacelaram em várias facções depois da queda de longas ditaduras brutais. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Instituto GAMAAN (Grupo para Análise e Medição de Atitudes no Irã, uma fundação de pesquisa independente sem fins lucrativos, registrada na Holanda) mostra que 89% dos iranianos preferem um regime democrático, enquanto 70% são diretamente contrários à continuação da atual república islâmica.
O apoio aos “princípios da revolução islâmica e ao líder supremo” decaiu de 18% em 2022 para 11% em 2024. Segundo a ativista de oposição franco-iraniana Maneli Mirkhan, hoje apenas 10% da população iraniana apoia o regime islâmico. O fim desse regime também terminaria a corrida armamentista e o vultoso financiamento ao terrorismo internacional feito pelo Irã ao Hamas, Hezbollah, Houthis, Islamic Jihad e outros grupos extremistas. Parafraseando Golda Meir: se o Irã parar de usar armas, teremos paz; se Israel parar de usar armas, não teremos Israel.
Em resumo, o Irã tem uma sociedade diversa, amplamente insatisfeita com a ditadura islâmica radical e em busca de mudanças. Possíveis futuros cenários, especulados por “analistas” na mídia internacional (tendenciosos ou não), incluem uma prolongada guerra de atrito, uma escalada regional e/ou global do conflito, uma declaração de “missão cumprida” e eventual saída dos EUA, uma sangrenta guerra civil, uma intervenção diplomática mediada por atores como China, EUA e Rússia, entre outros. Ninguém tem uma bola de cristal, mas fico impressionado com a segurança com que certos analistas tendenciosos ditam o futuro, possivelmente baseados em seu próprio viés.
Se o desejo da maioria dos iranianos prevalecer, um possível cenário desejável seria o de uma democracia constitucional secular (com o retorno da dinastia Pahlevi, ou não), incluindo até uma eventual convocação de eleições nos moldes das monarquias europeias. Se isso acontecer, o Irã voltará a ser um Estado laico, pró-ocidental, mantendo relações comerciais pacíficas com os EUA, Europa, Israel e com os países do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã), entre outros.
Concluindo: a república islâmica se encontra enfraquecida interna e externamente, apesar das bravatas sobre seu próprio poderio. Eles têm muito a perder e vão declarar vitória até o fim. A continuidade do atual regime apenas significaria o mesmo caminho extremista e militarizado. Mas, se a vontade da maioria do povo iraniano eventualmente prevalecer, o Irã poderá se transformar em uma alavanca extremamente estratégica para ajudar a promover a paz na região e no mundo.
Jonas Rabinovitch é arquiteto urbanista, com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior em inovação, gestão pública e desenvolvimento urbano da ONU em Nova York.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







