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J.D. Vance versus Mike Pence: qual vice de Trump representa o verdadeiro conservadorismo?

Mike Pence e J.D. Vance são ambos de direita, ambos conservadores, mas receberam influências culturais e intelectuais muito distintas. (Foto: Imagem produzida por Grok IA/Gazeta do Povo)

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É impossível ler os novos livros do ex-vice-presidente Mike Pence e do atual vice-presidente, J. D. Vance, sem perceber a mudança profunda que ocorreu no Partido Republicano. Assim como 1972 inaugurou uma nova era para os democratas, já no fim do período do Vietnã, 2016 fez o mesmo pelos republicanos. Embora Pence tenha sido o companheiro de chapa de Donald Trump e seu segundo na hierarquia, permanece claramente fiel à revolução reaganiana. Vance, por sua vez, é muito mais jovem e deve pouca lealdade ao Partido Republicano da Guerra Fria.

Os dois livros também revelam uma diferença religiosa. Pence, embora tenha sido criado no catolicismo, fala a partir do núcleo do establishment evangélico que atingiu seu auge durante o primeiro mandato de George W. Bush — com o próprio Bush como seu principal porta-estandarte. Vance cresceu em uma versão operária dessa comunidade evangélica, mas a rejeitou em favor do catolicismo que hoje professa. Sua visão econômica deve mais à Rerum Novarum, do papa Leão XIII, do que a Capitalismo e Liberdade, de Milton Friedman, ou a O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek.

Veterano do Oriente Médio, Vance — como muitos de sua geração — perdeu a fé na ideia de que os Estados Unidos, vencedores da Guerra Fria, levariam democracia e prosperidade ao mundo como consequência natural das leis da história e do progresso. Por um tempo, aliás, perdeu a fé por completo: mergulhou no ateísmo como reação ao evangelicalismo que, segundo ele, vendia “fábulas” sob a forma do cristianismo que conheceu na infância e na juventude no meio rural.

Pence, um quarto de século mais velho, teve uma formação completamente diferente. Enquanto Vance enfrentou disfunções familiares graves, dependências e problemas sociais com o apoio da avó, cresceu em uma família sólida, religiosa e liderada por um veterano de combate. A nação que o formou venceu a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, e seus ideais serviram de alicerce para toda a sua vida. Não é surpreendente, portanto, que seu livro defenda com vigor o antigo Partido Republicano, alicerçado no individualismo robusto e na fé, enquanto Vance se aproxima de uma filosofia do bem comum, mais ligada à doutrina social católica e à intervenção do Estado.

As posições bem consolidadas de Pence refletem, sem dúvida, a estabilidade de sua criação e a segurança que construiu ao repetir, ao longo dos anos, seu conservadorismo reaganiano — primeiro diante das plateias de programas de entrevistas em Indiana, depois como deputado e governador e, por fim, como uma figura responsável do establishment republicano na primeira administração Trump. Vance, ao contrário, ainda está em processo de formação. Costuma ser criticado por ter sido um ferrenho opositor de Trump no início, antes de se tornar um apoiador entusiasmado, um senador endossado por ele e, finalmente, seu vice-presidente.

Essas críticas, porém, podem não ser inteiramente justas. Partindo de um contato aparentemente superficial com o evangelicalismo e guiado, sobretudo, pelo bom senso firme da avó, Vance deixa claro em seu livro que sua trajetória espiritual e filosófica sempre foi um trabalho em andamento. Não é surpreendente que um jovem operário de Ohio e veterano militar do Oriente Médio tenha se sentido atraído pela visão de Trump sobre política externa e economia. Vance admite que, ao entrar na Faculdade de Direito de Yale, tornou-se sensível ao leque de opiniões consideradas aceitáveis e que, no auge inicial da fama de Hillbilly Elegy, procurou adotar os tons adequados em suas declarações. É difícil amadurecer politicamente sob os olhos de todos.

Também é interessante, por contraste, observar a atitude de Vance em relação a seu predecessor, um homem de maneiras mais comedidas. Pence reconhece francamente que, em sua primeira campanha ao Congresso, foi um “campanheiro negativo” e prometeu nunca mais repetir o erro. Vance pede desculpas por ter criticado no passado as “mulheres solteiras com gatos”, mas fica evidente, neste segundo livro de memórias, que ele se irrita com quem tenta regular o tom do debate — inclusive quando essa exigência vem de sua Igreja Católica adotiva. Esse incômodo faz sentido diante das dificuldades de sua juventude: ele se pergunta por que ninguém age de forma eficaz, em vez de apenas impor regras partidárias. Talvez não perceba, porém, que o cuidado com a linguagem prepara o terreno para ações concretas e conversas construtivas sobre soluções reais. Uma das fragilidades da atual administração é não compreender que a cortesia aumenta as chances de acordo, ao evitar hostilidades desnecessárias.

O incômodo de Vance com quem pede um tom mais compassivo — sobretudo quando o pedido vem de representantes da Igreja Católica — não significa fragilidade. Ele retorna ao tema mais de uma vez e deixa claro que, embora rejeite o que vê como exibição vazia de virtude, deseja de fato o diálogo. Quando vai ao Vaticano, procura argumentos que possa enfrentar e vencer — ou pelos quais possa se deixar convencer.

Para além das diferenças de personalidade, uma das distinções mais relevantes entre os dois vice-presidentes parece estar na fé que muitos de nós — assim como Pence — depositamos na economia de Hayek e Friedman, em contraste com a visão de Vance inspirada na Rerum Novarum. Os da minha geração e da de Pence acreditaram, com bons motivos, que os mercados livres conduziram a sociedade a uma trajetória ascendente de maior prosperidade humana, e que não deveríamos interferir tanto a ponto de interromper esse avanço.

Mas até mesmo bons contextos econômicos produzem experiências muito diferentes entre as pessoas. Vance se concentra na situação de amigos, familiares e vizinhos de sua infância. Ele percebe que, embora tenha ascendido — e o tenha feito com muita determinação e estratégia —, sua comunidade de origem ainda enfrenta dificuldades, ainda trabalha nos feriados e poderia se beneficiar de regras diferentes.

O debate vale a pena. Em uma reviravolta improvável, Donald Trump conseguiu assumir a defesa dos trabalhadores e da indústria americana, antes território do Partido Democrata. Vance tornou-se o mais provável herdeiro dessa causa.

Para todos nós, resta uma reflexão essencial: a Rerum Novarum buscou posicionar a Igreja como mediadora entre capital e trabalho. Naquela época, era correto tentar unir os dois lados em torno de uma cooperação que evitasse a guerra de classes. Da mesma forma, Abraham Kuyper defendeu, pelo lado protestante, argumentos voltados à harmonia social. O que precisamos não é de mais polarização, mas de um diálogo mais sincero.

Hunter Baker, doutor em Direito, é pesquisador sênior de renovação cívica e liberdade religiosa no Centro de Religião, Cultura e Democracia, vinculado ao First Liberty Institute. É autor de quatro livros sobre religião e política e escreveu capítulos para diversas outras obras.

©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Two Trump VPs, Two Visions 

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