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Juiz de Fora provou que mobilização da sociedade é mais decisiva que ação do Estado

Destruição causada pelas chuvas em Juiz de Fora, Minas Gerais. (Foto: Corpo de Bombeiros/EFE)

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Em momentos de calamidade pública, costuma-se esperar que o Estado seja o principal agente de resposta à emergência. Governos possuem recursos, estrutura administrativa e capacidade de coordenação que, em tese, lhes permitiriam reagir rapidamente diante de desastres naturais de forma muito mais eficaz do que indivíduos isolados. Ainda assim, a história mostra, repetidas vezes, que a mobilização da própria sociedade pode ser igualmente – e, por vezes, mais decisiva – do que a ação do Estado.

Um episódio recente ocorrido na região de Juiz de Fora oferece um exemplo revelador desse fenômeno. Após as fortes chuvas que castigaram a região, uma campanha de arrecadação liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira e pela vereadora Roberta Lopes conseguiu reunir cerca de R$ 5,7 milhões em doações destinadas às vítimas. O valor chamou a atenção por um motivo simbólico: superou com folga os R$ 3,4 milhões inicialmente enviados pelo governo federal para a região.

Democracias fortes não se sustentam na concentração de poderes e recursos em um governo central, mas na energia cívica e descentralizada de seus cidadãos

O episódio surpreendeu pela velocidade e pela capacidade de mobilização demonstradas pela sociedade civil. Em poucos dias, milhares de pessoas contribuíram voluntariamente para socorrer famílias atingidas pelas enchentes. Empresas, cidadãos comuns e organizações participaram da iniciativa, demonstrando um tipo de solidariedade que não depende de decretos ou estruturas burocráticas.

Esse fenômeno foi observado com notável clareza pelo pensador francês Alexis de Tocqueville no século XIX. Ao estudar o funcionamento da democracia nos Estados Unidos, Tocqueville percebeu que a vitalidade das instituições americanas não dependia do governo central, mas, sobretudo, da capacidade da sociedade de se organizar por meio de associações e lideranças locais.

O deputado Nikolas Ferreira e a vereadora Roberta Lopes, ao liderarem esse esforço com a ajuda de milhares de voluntários, tornaram-se exemplos concretos do que Tocqueville descreveu em sua obra Democracia na América. Trata-se da capacidade da sociedade civil de resolver problemas concretos de forma mais rápida e eficaz do que o próprio Estado. Esse espírito associativo foi um dos pilares da liberdade cívica e da força política que edificaram países como os Estados Unidos da América.

O episódio também convida a refletir sobre o elevado grau de centralização política do Estado brasileiro. Em Brasília concentram-se recursos, decisões e boa parte da arrecadação tributária nacional. Ainda assim, diante da emergência vivida em Juiz de Fora, foi a mobilização espontânea da sociedade civil que demonstrou maior agilidade e capacidade de resposta.

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Governos possuem funções insubstituíveis em áreas como infraestrutura, coordenação de emergência e assistência social de longo prazo. No entanto, episódios como esse demonstram que a vitalidade da nossa democracia não depende apenas da ação estatal.

Em um país frequentemente marcado pela expectativa de que o Estado resolva todos os problemas, experiências de solidariedade como essa oferecem um vislumbre importante: democracias fortes não se sustentam na concentração de poderes e recursos em um governo central, mas na energia cívica e descentralizada de seus cidadãos.

Igor Guedes de Carvalho é mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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