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“Latas de conservas”: a estratégia para levar o conservadorismo ao esquecimento

A alegoria das “famílias em lata” da Acadêmicos de Niterói reduziu valores e fé a caricatura grotesca, transformando o desfile em deboche ideológico travestido de arte. (Foto: Antonio Lacerda/EFE)

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O carnaval de 2026 já passou, mas não se pode deixar escapar as reflexões que emergem dos acontecimentos na Sapucaí, especialmente dos arroubos travestidos de “liberdade de expressão”, quase sempre exercida de forma unilateral. Com dinheiro público financiando escolas de samba e, não raramente, recursos oriundos do tráfico irrigando outras, a esbórnia multiplicou-se. Em tempos de degeneração acentuada de parte da sociedade, sobretudo nos grandes centros, onde o evento se converte em espetáculo de massa, o carnaval deixou de ser apenas festa para tornar-se síntese simbólica de um processo mais profundo. Essa degeneração foi reforçada por uma crítica sistemática ao conservadorismo, promovida por setores que sequer compreendem o que significa, em essência, ser conservador.

Foi justamente o comportamento conservador em preservar o que funciona, o que sustenta, o que dá coesão, que permitiu que chegássemos até aqui vivos, organizados e razoavelmente civilizados. Confundiu-se conservadorismo com engessamento, prudência necessária com retrocesso, impingindo rótulos inapropriados à maioria silenciosa que deseja apenas trabalhar, constituir família e viver sob o senso comum, esse acordo tácito, não escrito, de normalidade comportamental, que tentaram “enlatar” simbolicamente. Tudo o que remete ao bom, ao belo, ao justo, ao ético, ao correto, ao moral, ao simétrico e ao sistemicamente organizado passou a ser tratado como símbolo de um suposto patriarcado opressor. A própria ideia de ordem foi convertida em acusação.

Enquanto isso, a feiura deliberada, as formas assimétricas, as estéticas disformes e a exaltação do grotesco, nas artes visuais, na moda, na música, é que passaram a ditar comportamentos. Uma calça jeans rasgada e artificialmente desgastada vale uma fortuna se acompanhada da etiqueta certa e da aura de algum ícone do showbiz. O “bad boy”, estereótipo romantizado da transgressão, tornou-se admirado e desejado, relegando o bom mocismo à caricatura. A “rebeldia feminina” também foi cultivada, traindo a própria natureza da mulher. Isso está em curso há décadas.

Chegamos a 2026 com um cenário que muitos descrevem como apocalíptico e que promete ainda mais tensões. A politização do espetáculo atingiu sua apoteose, inclusive com homenagens controversas financiadas pelo contribuinte

A ruptura deixou de ser experimento artístico e tornou-se norma cultural. Desde as desconstruções cubistas de Picasso até o gesto bizarro e provocador de Duchamp com seu urinol invertido (1917), hoje associado ao circuito que consagrou obras no Louvre, a lógica da ruptura foi elevada a paradigma. O que nasceu como provocação intelectual deformou mentes em formação.

O resultado é a corrosão das bases que produziram grandes criadores, músicos e artistas cuja obra dialogava com proporção, harmonia e transcendência, que são princípios que ecoam na Lei Áurea e na sequência de Fibonacci, essa geometria recorrente que sugere ordem até nas estruturas do universo visível. Perdeu-se, para muitos, a noção de estética, gravada exatamente por tal ordem, cuja funcionalidade abrange até o campo vibracional, afetando o indivíduo e o coletivo.

Paralelamente, movimentos articulados multiplicaram-se contra qualquer expressão de conservadorismo. Invadiram a imprensa, as escolas, as universidades, as artes, a política e até o ambiente familiar. Sob o manto do “politicamente correto”, instaurou-se uma nova forma de patrulhamento ideológico, sutil, mas coercitiva. A narrativa organizada da minoria estratégica passou a dominar aparelhos de expressão e influência.

Assim, aquilo que durante séculos estruturou o senso comum das sociedades ocidentais, em grande medida formadas sob a matriz judaico-cristã, passou a ser classificado como opressão. A tradição virou suspeita, a moral virou instrumento de dominação e a autoridade virou violência simbólica. O carnaval, por sua própria natureza histórica, sempre foi momento de suspensão das amarras sociais, uma válvula de escape. Mas o que era exceção delimitada no calendário transformou-se em plataforma permanente de contestação e politização orientada por razões escusas.

Chegamos a 2026 com um cenário que muitos descrevem como apocalíptico e que promete ainda mais tensões. A politização do espetáculo atingiu sua apoteose, inclusive com homenagens controversas financiadas pelo contribuinte, enquanto a maioria social é caricaturada como “conserva”, algo a ser enlatado e armazenado no porão da História.

Enlatar o conservadorismo, tratá-lo como algo a ser selado e colocado nas prateleiras do esquecimento, tornou-se metáfora de um projeto cultural mais amplo. Como gafanhotos que avançam sobre os ramos frágeis de uma árvore social debilitada, processos de desconstrução encontram terreno fértil na perda de sentido, na fragmentação das referências e no vazio existencial de gerações formadas sob políticas centralizadas de um Estado disfuncional. Sim, a estrutura do Estado é a causa primária das disfuncionalidades institucionais, mas também sociais.

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A mensagem psicológica é sofisticada: convencer o cidadão comum de que o conservadorismo é ultrapassado, inadequado, excluído. O senso comum, que sempre foi o chão cultural compartilhado, passa a ser apresentado como atraso histórico.

Mas talvez esta quarta-feira de cinzas seja mais longa. Máscaras já caíram, e muitas continuam caindo, como nunca antes visto no mundo todo, não apenas no campo cultural, mas também nas elites financeiras, políticas e midiáticas internacionais. Escândalos recentes expuseram redes de poder que pareciam intocáveis, enquanto figuras públicas enfrentam investigações que abalam imagens cuidadosamente construídas.

A queda de máscaras, diferentemente daquelas dos carnavais, será muito mais traumática do que se possa prever, pois, diferentemente dos Pierrots e Colombinas, estão se revelando seres desprezíveis de várias espécies. Além deles, vão se revelar estruturas inteiras sustentadas por décadas, talvez séculos, de ilusão coletiva. Muitos mascarados, que queriam enlatar as pessoas de bem, acabarão em outras latas: a do lixo da História.

Mudanças geopolíticas, tecnológicas, financeiras, culturais e sociais sugerem reorganizações profundas, principalmente do ponto de vista individual. E, desta vez, das cinzas das ilusões queimadas, é provável que voe a fênix de uma nova humanidade, mais desperta.

Thomas Korontai é empresário, jornalista, coordenador da Liga Federalista Nacional.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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